Túneis sob o Atlântico conectam o mar à futura usina de Mamelles, em Dakar, num projeto de dessalinização criado para ampliar o abastecimento urbano e transformar água salgada em milhões de litros de água potável por dia.
O Senegal avançou na construção da usina de dessalinização de Mamelles, em Dakar, com a conclusão da escavação por microtunelamento de uma tubulação submarina de 340 metros destinada à captação de água do Atlântico.
O projeto, executado para reforçar o abastecimento da capital, prevê produção inicial de 50 mil metros cúbicos de água potável por dia, com possibilidade de expansão para 100 mil metros cúbicos diários.
A estrutura é apresentada pela Eiffage como a maior usina de dessalinização da África Ocidental quando entrar em operação.
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A unidade integra um conjunto de obras em terra e no mar para transformar água salgada em água potável, ampliar a segurança hídrica de Dakar e reduzir a pressão sobre fontes tradicionais de abastecimento.
A obra tem como cliente a Société Nationale des Eaux du Sénégal, a SONES, e conta com financiamento ligado ao governo senegalês e à Agência de Cooperação Internacional do Japão, a JICA.
O projeto também envolve empresas como Eiffage, Tsusho e Wabag, em um contrato de engenharia, construção e operação inicial da futura planta.
Túneis submarinos levam água do Atlântico à usina
A parte mais complexa da infraestrutura fica longe da vista de quem passa pela orla de Mamelles.
Sob a faixa costeira, túneis e tubulações conectam o oceano à estação em terra, permitindo a entrada da água do mar e a devolução controlada da salmoura gerada no processo de dessalinização.

Segundo a Eiffage, a escavação por microtunelamento da tubulação de captação chegou a 340 metros e foi concluída em julho de 2025.
A Soletanche Bachy, por meio da Bessac Afrique, informou que o projeto inclui dois emissários submarinos de 340 metros cada, com diâmetro interno de 1,60 metro, destinados à captação da água salgada e ao descarte da salmoura.
Esse tipo de obra reduz a necessidade de grandes cortes abertos na área costeira e permite instalar tubulações de grande porte em trechos sensíveis.
Equipamentos especializados avançam pelo subsolo ou por áreas submersas, abrindo passagens com precisão para receber os dutos que farão a ligação permanente entre o Atlântico e a planta de tratamento.
A escolha técnica é decisiva para a operação contínua da unidade.
A água captada precisa chegar à estação em volume compatível com a capacidade prevista, enquanto o rejeito salino deve ser levado a um ponto de descarga definido no projeto, com infraestrutura própria para esse fluxo.
Capacidade da usina pode dobrar em Dakar
Na primeira fase, a usina de Mamelles terá capacidade para produzir 50 mil metros cúbicos por dia, o equivalente a 50 milhões de litros de água potável.
A expansão planejada elevará esse volume para 100 mil metros cúbicos diários, ou 100 milhões de litros, conforme a demanda da região metropolitana de Dakar aumentar.
A JICA descreve a segunda fase como uma ampliação da capacidade de 50 mil para 100 mil metros cúbicos por dia, acompanhada de melhorias nas redes de distribuição.
O objetivo é diversificar as fontes de água e melhorar o acesso ao abastecimento em uma área urbana que concentra população, serviços públicos e atividades econômicas importantes para o país.
A Eiffage afirma que a produção inicial poderá atender parte relevante das necessidades da região de Dakar.

Em comunicados anteriores, a empresa associou a unidade ao abastecimento de cerca de um milhão de habitantes e à diversificação das fontes de água potável do Senegal.
Até julho de 2025, o governo senegalês informou que o avanço da unidade de dessalinização de Mamelles estava estimado em 78%, com obras de rede de distribuição em andamento em diferentes áreas da capital.
Não foi localizada confirmação oficial mais recente sobre a entrada plena em operação da planta.
Dessalinização reforça segurança hídrica no Senegal
Dakar enfrenta pressão crescente sobre o abastecimento por causa da expansão urbana e da concentração de moradores e atividades econômicas.
Nesse contexto, a dessalinização passou a ser tratada como uma fonte complementar, especialmente em cidades costeiras que buscam reduzir a dependência de aquíferos, rios, reservatórios e sistemas de transferência de água.
A tecnologia usada em projetos desse tipo separa os sais presentes na água do mar para produzir água adequada ao consumo humano.
O processo gera dois fluxos principais: a água tratada, que segue para o sistema de abastecimento, e a salmoura, que precisa ser descartada por estruturas projetadas para esse fim.
A água do Atlântico, apesar de abundante, não pode ser consumida diretamente por causa da alta concentração de sais e outros elementos.
Por isso, a planta de Mamelles depende de etapas de captação, bombeamento, filtragem, dessalinização, tratamento final e distribuição antes que a água chegue à rede urbana.
A implantação da unidade também marca uma mudança na infraestrutura hídrica do Senegal.
Em vez de depender apenas de fontes continentais, o país passa a incorporar o mar como alternativa técnica para complementar o abastecimento da capital, ainda que a solução exija alto investimento, consumo de energia e gestão ambiental rigorosa.
Engenharia no mar sustenta abastecimento urbano

A construção dos túneis ajuda a mostrar que uma usina de dessalinização não se resume aos equipamentos instalados em terra.
Antes de a água chegar aos sistemas de tratamento, é necessário criar uma ligação física resistente entre o oceano e a estação, capaz de operar em ambiente costeiro e manter fluxo regular.
Essa rede inclui estruturas de entrada, tubulações, sistemas de bombeamento, emissários submarinos e pontos de descarga.
Sem essa etapa marítima, a planta não teria como captar água em quantidade suficiente nem conduzir a salmoura de volta ao oceano dentro do modelo técnico previsto.
A localização em Mamelles reforça o contraste entre a paisagem litorânea de Dakar e a engenharia instalada abaixo da superfície.
Enquanto a área costeira segue como espaço urbano e marítimo, parte da solução de abastecimento da capital avança sob o Atlântico, conectando o mar a uma central de tratamento em terra.
O projeto reúne engenharia civil, obras marítimas, hidráulica, energia, saneamento e controle ambiental.
Essa combinação explica o custo elevado e a complexidade de uma estrutura planejada para operar diariamente, com capacidade de converter milhões de litros de água salgada em água potável.
A usina de Mamelles também aparece em meio a um debate mais amplo sobre o papel da dessalinização em países costeiros.
A tecnologia pode reforçar a segurança hídrica, mas não elimina a necessidade de gestão eficiente das redes, proteção de mananciais, redução de perdas e planejamento de longo prazo para o consumo urbano.
No Senegal, a aposta no Atlântico busca responder a uma demanda concreta de Dakar.
A água captada no mar será conduzida por túneis e tubulações até uma estação projetada para ampliar a oferta de água potável, em uma obra que transforma uma infraestrutura invisível sob a costa em parte essencial do abastecimento da capital.

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