Camisetas, tênis e bermudas passaram a ser incentivados entre servidores de Tóquio como parte de uma política de adaptação ao calor extremo, criada para diminuir o desconforto no trabalho e reduzir a dependência do ar-condicionado durante os meses mais quentes
O Governo Metropolitano de Tóquio começou a incentivar servidores a trabalhar com camisetas, camisas polo, tênis e, dependendo da função exercida, bermudas. A mudança amplia uma política ambiental criada há mais de duas décadas para enfrentar o verão japonês com roupas mais leves e menor consumo de eletricidade.
A flexibilização não é uma lei nacional nem obriga empresas privadas a mudar seus códigos de vestimenta. A orientação vale diretamente para repartições administradas pelo governo de Tóquio e funciona como exemplo para empregadores que desejam adaptar o ambiente de trabalho às temperaturas cada vez mais altas.
A nova fase ganhou força depois de o Japão registrar, em 2025, o verão mais quente desde o início das medições nacionais, em 1898. No mesmo período, o país atingiu 41,8 °C, maior temperatura já registrada oficialmente em território japonês.
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O debate sobre pernas descobertas surgiu depois da implantação da medida. Embora tenha recebido grande atenção nas redes sociais e na imprensa japonesa, a discussão sobre pelos corporais é uma consequência da mudança, enquanto o objetivo principal do programa continua sendo reduzir riscos relacionados ao calor e controlar o gasto de energia.
Programa criado em 2005 tenta reduzir a dependência do ar-condicionado
A iniciativa atual faz parte do Tokyo Cool Biz, versão ampliada de uma campanha lançada pelo Ministério do Meio Ambiente do Japão em 2005. O programa original estimulava funcionários a abandonar gravatas e paletós durante o verão para que conseguissem trabalhar em ambientes com temperatura próxima de 28 °C.
A recomendação dos 28 °C refere-se à temperatura interna do ambiente, e não a uma obrigação para que todos os aparelhos de ar-condicionado sejam configurados exatamente nesse valor. Umidade, ventilação, incidência solar, quantidade de trabalhadores e características do prédio também interferem na sensação térmica.
Depois do terremoto, do tsunami e do acidente nuclear de Fukushima, em 2011, o país ampliou a campanha com o Super Cool Biz. Além de roupas mais informais, o programa passou a incentivar mudanças nos horários de trabalho e outras medidas para reduzir o consumo de eletricidade durante períodos de maior pressão sobre o sistema energético.
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente do Japão, o Super Cool Biz contribuiu para evitar a emissão estimada de 1,56 milhão de toneladas de dióxido de carbono no ano fiscal de 2011. O órgão descreve o programa como uma tentativa de mudar hábitos no setor residencial e comercial, responsável por uma parcela relevante das emissões japonesas.
Bermudas entraram no programa após temperaturas se aproximarem de 42 °C
Até recentemente, a flexibilização das roupas nos escritórios japoneses estava concentrada em camisas de manga curta, polos, ausência de gravata e dispensa do paletó. A bermuda continuava associada a atividades de lazer e raramente era vista em repartições públicas ou empresas tradicionais.
Em abril de 2026, a governadora de Tóquio, Yuriko Koike, anunciou a ampliação do programa. Servidores passaram a receber autorização para usar bermudas de comprimento moderado, desde que a peça fosse compatível com a função desempenhada e com o contato mantido com o público.
Em 22 de abril, funcionários do Escritório de Meio Ambiente do governo metropolitano apareceram trabalhando com camisetas, bermudas e roupas mais leves. Segundo informações do jornal Japan Forward, a administração decidiu usar as próprias repartições como exemplo para estimular mudanças semelhantes em outras organizações da capital.
A medida permite que cada departamento defina o nível de formalidade necessário. Reuniões institucionais, cerimônias, atendimento direto ao público e compromissos externos ainda podem exigir calça social, camisa e outras peças tradicionais.
Verão de 2025 superou dois recordes consecutivos de temperatura
A mudança no vestuário ocorreu após três verões seguidos com temperaturas excepcionalmente altas. Em 2023 e 2024, a temperatura média nacional ficou 1,76 °C acima da referência histórica, recorde que acabou superado no ano seguinte.
Dados da Agência Meteorológica do Japão mostram que a anomalia média do verão de 2025 chegou a 2,36 °C acima do padrão calculado entre 1991 e 2020. O país também registrou quantidades inéditas de estações meteorológicas com máximas superiores a 35 °C e 40 °C.
Em 5 de agosto de 2025, a cidade de Isesaki, na província de Gunma, alcançou 41,8 °C. A marca superou todos os registros anteriores do Japão e ocorreu durante um período de calor intenso que atingiu as regiões norte, leste e oeste do país.
O avanço das temperaturas aumentou a pressão para que governos e empresas tratem as ondas de calor como um problema de saúde pública e de organização do trabalho. Deslocamentos em trens, ruas e estações também expõem os funcionários ao calor antes mesmo da chegada ao escritório.
Nova classificação foi criada para dias com 40 °C ou mais
Em 2026, a Agência Meteorológica do Japão criou a expressão kokushobi para classificar dias em que a temperatura chega a 40 °C ou ultrapassa esse nível. O termo pode ser traduzido como “dia brutalmente quente” ou “dia de calor cruel”.
A nova categoria foi adotada porque temperaturas que antes eram consideradas eventos raros passaram a aparecer com maior frequência. Até então, a classificação mais severa usada no cotidiano japonês era moshobi, aplicada aos dias com máxima igual ou superior a 35 °C.
Em 22 de julho de 2026, autoridades emitiram alertas de insolação para várias regiões e recomendaram que a população utilizasse ar-condicionado, bebesse água regularmente e evitasse longos períodos ao ar livre. Dados governamentais apontam que mais de 100 mil pessoas foram levadas a hospitais por problemas relacionados ao calor durante o verão de 2025.
Nesse contexto, permitir roupas mais leves não elimina a necessidade de climatização. A medida deve funcionar em conjunto com hidratação, ventilação, pausas, alteração de horários e redução da exposição ao calor nos momentos mais perigosos do dia.
Comércio cria bermudas próprias para o ambiente corporativo
A flexibilização também abriu espaço para uma nova categoria de roupas profissionais. Varejistas japoneses passaram a oferecer peças produzidas com tecidos leves, elásticos e de secagem rápida, destinadas a trabalhadores que precisam manter uma aparência formal sem enfrentar o verão de calça e paletó.
Modelos corporativos costumam apresentar cores neutras, corte reto e comprimento próximo aos joelhos. O desenho busca evitar peças esportivas ou excessivamente curtas, consideradas incompatíveis com reuniões, atendimento a clientes e ambientes institucionais.
A Reuters informou que redes como Aeon, Fast Retailing e Aoki ampliaram a oferta de roupas leves voltadas ao trabalho. Em 15 de julho de 2026, quando Tóquio chegou a aproximadamente 35 °C e registrou umidade média de 72%, servidores já trabalhavam de polo, camiseta, tênis e bermuda em setores do governo metropolitano.
O efeito econômico não se restringe ao vestuário. Empresas também têm investido em ventiladores portáteis, tecidos refrigerados, coletes com circulação de ar, protetores solares, garrafas térmicas e equipamentos usados para reduzir a exposição ao calor.
Debate sobre pernas peludas virou efeito colateral da política ambiental
A presença de homens com as pernas descobertas dentro dos escritórios provocou estranhamento em um país marcado por códigos profissionais formais. Um dos servidores que adotaram a nova regra foi Noboru Watanabe, de 53 anos, funcionário da área ambiental do governo de Tóquio.
Depois de mais de três décadas usando calça social, camisa, paletó e gravata, Watanabe passou a trabalhar de camiseta e bermuda cáqui. Ele relatou que os colegas o consideraram mais jovem e acessível, mas consultou uma funcionária da equipe antes de aparecer com as pernas descobertas.
A discussão ganhou o termo informal sune-hara, formado pela palavra japonesa associada à canela e pela abreviação inglesa de harassment. A expressão descreve o desconforto atribuído a algumas pessoas diante dos pelos das pernas de colegas homens, mas não representa uma categoria oficial de assédio criada pelo governo japonês.
Segundo a reportagem publicada por O Globo em 21 de julho de 2026, apenas 11 dos 70 funcionários homens observados em um setor do prédio do Governo Metropolitano de Tóquio estavam usando bermuda. O número mostra que a autorização existe, mas a adoção ainda enfrenta resistência cultural.
Pressão estética sobre mulheres também entrou na discussão
A polêmica levou trabalhadoras e especialistas a questionar as diferenças entre os padrões de aparência impostos a homens e mulheres. Enquanto servidores homens podem trocar a calça por uma bermuda sem grandes preparações, muitas mulheres ainda enfrentam cobranças para depilar as pernas, usar meias-calças, escolher saias mais longas e manter cuidados constantes com os pés.
A professora Atsuko Tamada, da Universidade Chubu, afirmou que mulheres continuam gastando tempo e dinheiro com depilação, roupas e cuidados estéticos para serem consideradas adequadas ao ambiente profissional. A liberação das bermudas masculinas levantou a dúvida sobre quais padrões de aparência serão aplicados aos homens.
Alguns funcionários decidiram raspar os pelos das pernas ou evitar completamente a bermuda por receio de incomodar colegas. Outros defendem que comentários sobre peso, idade, formato do corpo ou quantidade de pelos podem ampliar cobranças estéticas sem relação com a capacidade profissional.
O desafio para empregadores é estabelecer regras objetivas. Comprimento das peças, tipo de atividade, segurança, higiene e contato com clientes podem ser definidos sem transformar características físicas dos trabalhadores em critérios de aceitação.
Mudança não acaba com o traje formal nem obriga empresas privadas
O Tokyo Cool Biz concede maior liberdade aos servidores, mas não extingue ternos, gravatas ou calças sociais. Cada departamento pode exigir roupas formais quando a atividade envolver cerimônias, reuniões institucionais ou representação pública.
Empresas privadas também mantêm autonomia para criar seus próprios códigos internos. A decisão do governo de Tóquio, porém, pode influenciar bancos, lojas, escritórios e companhias que precisam adaptar rotinas de trabalho a verões mais longos e temperaturas próximas de 40 °C.
A bermuda tornou-se o elemento mais visível da campanha, mas a política envolve uma questão maior. O Japão tenta diminuir o consumo de energia e proteger trabalhadores sem depender exclusivamente do ar-condicionado, ao mesmo tempo que revê regras profissionais criadas para um clima menos extremo.
Você acredita que empresas brasileiras também deveriam flexibilizar as roupas de trabalho durante ondas de calor? A bermuda pode ser usada em escritórios sem prejudicar a imagem profissional ou cada atividade exige uma regra diferente? Deixe sua opinião nos comentários.

