Em Roterdã, o Wallisblok passou de 96 apartamentos degradados para 40 moradias maiores e personalizadas, mas os novos proprietários financiaram as obras, dividiram decisões e assumiram o compromisso de permanecer no endereço por pelo menos dois anos.
A prefeitura de Roterdã encontrou uma saída incomum para recuperar o Wallisblok, um conjunto residencial deteriorado no bairro de Spangen. O município entregou 96 apartamentos a 40 famílias sem cobrar pela aquisição, mas os imóveis estavam longe de representar moradia gratuita.
As famílias precisaram financiar uma única reforma coletiva, recuperar o edifício e viver no local por pelo menos dois anos. World Habitat, organização internacional dedicada a soluções de moradia, registrou que as antigas unidades foram combinadas e transformadas em 40 casas maiores e personalizadas.
A recuperação preservou um edifício existente, melhorou as condições de segurança e ajudou a mudar a imagem do bairro. Entretanto, o modelo exigia dinheiro, financiamento, participação em reuniões e disposição para dividir decisões importantes com dezenas de futuros vizinhos.
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O Wallisblok tinha apartamentos vazios, imóveis precários e problemas de segurança
O Wallisblok possuía originalmente 96 apartamentos pequenos, mas uma parte considerável estava abandonada. O conjunto acumulava imóveis degradados, manutenção insuficiente e problemas relacionados ao uso de drogas e a locações precárias.

A prefeitura já havia adquirido várias unidades para tentar controlar a situação. Ainda assim, a existência de outros proprietários e a falta de uma solução comum dificultavam a recuperação completa do quarteirão.
Com o tempo, os apartamentos vazios continuaram se deteriorando. Ambientes internos apresentavam umidade, partes das fachadas estavam danificadas e as instalações precisavam ser substituídas.
A estrutura também exigia atenção. As fundações apresentavam problemas e precisaram ser recuperadas para que o edifício pudesse receber a reforma interna e continuar sendo usado com segurança.
As casas foram entregues sem preço de compra, mas não estavam prontas para morar
A expressão casa gratuita descrevia apenas a ausência de cobrança pela aquisição do imóvel. Cada família assumia a responsabilidade de pagar sua parte na recuperação completa do Wallisblok.
O investimento médio na reforma chegou a US$ 183 mil por família. O valor financiava as intervenções coletivas e a adaptação de cada moradia, que poderia ter tamanho, divisão e acabamento diferentes.
As obras incluíram novas entradas, escadas, isolamento, aquecimento e instalações internas. A fachada dos fundos também precisou ser refeita porque apresentava ferragens enferrujadas, varandas deterioradas e problemas em portas e janelas.
O modelo não funcionava como uma distribuição livre de imóveis para qualquer interessado. Os participantes precisavam conseguir financiar as obras e cumprir as condições estabelecidas para receber a propriedade.
Quarenta famílias tiveram de financiar e decidir uma única reforma
Os futuros moradores não podiam recuperar somente os apartamentos que ocupariam. O acordo exigia que as 40 famílias reformassem o edifício coletivamente, incluindo estruturas, áreas comuns e partes externas.
Os participantes organizaram financiamentos, discutiram materiais e ajudaram a definir o projeto. Eles também participaram da limpeza e da recuperação do jardim interno.
World Habitat, organização internacional que documenta projetos habitacionais, detalhou que os moradores se reuniam regularmente para planejar as obras e tomar decisões. Esse trabalho conjunto permitiu dividir determinadas despesas e tratar o bloco como uma única construção.
A participação coletiva também trouxe dificuldades. Uma decisão sobre fachadas, acessos ou áreas compartilhadas afetava todas as famílias, exigindo negociação entre pessoas com necessidades e orçamentos diferentes.
Os 96 apartamentos pequenos foram combinados em 40 casas maiores
A antiga divisão do Wallisblok não atendia aos planos dos novos moradores. Por isso, os 96 pequenos apartamentos foram unidos até formarem 40 moradias maiores, com distribuições internas diferentes.
Algumas unidades ocuparam apenas um andar. Outras passaram a reunir diferentes pavimentos por meio de escadas internas. Espaços próximos ao telhado também foram aproveitados para ampliar determinadas casas.
A estrutura permitiu criar residências para famílias pequenas e grandes. Embora as áreas comuns seguissem um único projeto, cada proprietário ganhou liberdade para escolher a organização e o acabamento da parte interna.
Essa combinação evitou a repetição de apartamentos idênticos. O Wallisblok passou a reunir casas com tamanhos, formatos e ambientes adaptados às escolhas dos próprios moradores.
O compromisso de permanência evitava uma revenda imediata
As famílias não podiam receber o imóvel, realizar a reforma e vender a propriedade logo depois. O contrato estabelecia permanência mínima de dois anos no endereço.
A regra procurava atrair pessoas realmente dispostas a morar em Spangen e participar da recuperação do bairro. Jovens profissionais da região que não conseguiam comprar uma casa receberam prioridade durante a seleção.
A permanência também favoreceu a criação de vínculos entre os moradores. Depois da conclusão das obras, parte do grupo continuou envolvida com os jardins e com outras melhorias nos espaços próximos.

O resultado ultrapassou os limites do edifício. A recuperação ajudou a melhorar a segurança, incentivou reformas em outros imóveis e atraiu novas atividades para a região.
A valorização beneficiou proprietários, mas trouxe preocupação aos antigos moradores
Os imóveis do Wallisblok ganharam valor depois da reforma. Para as famílias que financiaram as obras e assumiram o risco de morar em um bloco degradado, a valorização representou uma consequência positiva.
A mudança, porém, também expôs um problema comum em projetos de recuperação urbana. Quando um bairro melhora e os imóveis ficam mais caros, moradores com renda menor podem enfrentar aumento dos aluguéis e maior dificuldade para permanecer na região.
A presença de diferentes tipos de moradia ajudou a evitar uma substituição rápida da população. Mesmo assim, permaneceram diferenças entre grupos antigos e novos, mostrando que reformar prédios não garante integração social por conta própria.
O Wallisblok demonstrou que um edifício degradado pode ser recuperado sem demolição. A transformação exigiu investimento particular, decisões coletivas e compromisso com o endereço, além da atuação da prefeitura na organização do projeto.
As 96 unidades pequenas deram lugar a 40 casas maiores, enquanto Spangen recebeu novos moradores, reformas e atividades. O benefício para os proprietários veio acompanhado do desafio de impedir que a valorização dificultasse a vida de quem já morava no bairro.
Você aceitaria financiar uma reforma coletiva para receber um imóvel sem pagar pela aquisição, mesmo tendo de dividir decisões e permanecer dois anos no endereço?

