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Morador contrata a instalação de armários novos na cozinha e os montadores encontram atrás da parede pinturas murais de 1660, mais antigas que o próprio prédio de 1747 onde ele mora, achado que as autoridades inglesas classificaram como de importância nacional

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 21/07/2026 às 20:39 Atualizado em 21/07/2026 às 20:49
Reforma de cozinha em York revela pinturas murais do século XVII escondidas na parede, mais antigas que a casa de 1747 e de importância nacional.
Reforma de cozinha em York revela pinturas murais do século XVII escondidas na parede, mais antigas que a casa de 1747 e de importância nacional.
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O que era para ser só a troca dos armários da cozinha terminou em achado histórico. Ao mexer nas paredes de uma casa em York, na Inglaterra, os operários toparam com pinturas murais do século XVII, mais velhas que o próprio imóvel, e que as autoridades já tratam como patrimônio de importância nacional.

Nem todo mundo que reforma a cozinha imagina que vai desenterrar história de quatro séculos atrás. Foi mais ou menos isso que aconteceu com um casal em York, na Inglaterra, quando a simples instalação de novos armários revelou pinturas murais escondidas atrás das paredes, obras do século XVII que já estavam ali muito antes de a casa existir.

O episódio ganhou repercussão internacional e chamou a atenção de instituições de peso, como a Historic England e o Courtauld Institute of Art. Não era para menos: o que apareceu por trás dos armários e da parede da sala reacendeu perguntas sobre a idade das casas do bairro e sobre os segredos que construções antigas guardam sem que ninguém desconfie.

Uma reforma de cozinha que virou descoberta histórica

Reforma de cozinha em York revela pinturas murais do século XVII escondidas na parede, mais antigas que a casa de 1747 e de importância nacional.
Reforma de cozinha em York revela pinturas murais do século XVII escondidas na parede, mais antigas que a casa de 1747 e de importância nacional.

A história começa de forma banal. Luke Budworth, de 29 anos, e a esposa, Hazel Mooney, de 26, compraram um apartamento no histórico bairro de Micklegate, em York, e resolveram reformar. Em dezembro, o casal deixou temporariamente o imóvel de um quarto para tocar as obras, que incluíam a instalação de armários novos na cozinha. Nada indicava que a rotina de reforma reservava uma surpresa daquele tamanho.

A virada veio por telefone. Foram os próprios empreiteiros que ligaram avisando que uma pintura havia aparecido durante a obra, conforme relatou a Artnet News. A partir daí, Budworth passou a desconfiar que aquela não fosse a única surpresa escondida atrás dos painéis da sala. A suspeita tinha fundamento. “Sempre soubemos que havia um pedaço estranho na parede, mas achávamos que o apartamento era simplesmente torto, já que ele já foi tantas coisas diferentes ao longo dos anos”, contou o proprietário, que comprou o imóvel em outubro de 2020.

O que apareceu atrás da parede

Passada a empolgação inicial, a investigação mostrou o tamanho do achado. Do outro lado da lareira, na sala de estar, surgiram dois frisos pintados, cada um medindo cerca de 2,74 metros por 1,22 metro. As pinturas são interrompidas na parte de cima pelo teto, um sinal claro de que já estavam no lugar antes de o cômodo ganhar a forma que tem hoje.

O conteúdo das imagens é curioso e carregado de simbolismo. Uma das pinturas mostra um homem dentro de uma gaiola sendo puxado por um anjo, enquanto a outra retrata um homem em uma carroça branca. São cenas alegóricas, típicas de uma época em que a arte gostava de esconder lições morais dentro de imagens. Foi justamente esse estilo carregado de símbolos que, mais tarde, permitiu rastrear de onde vinham as figuras pintadas na parede.

A pista do livro de Francis Quarles

O elo que explica as pinturas está num livro. As cenas reproduzem passagens de Emblemas, obra do poeta inglês Francis Quarles publicada em 1635, o que deu aos pesquisadores um ponto de partida para estimar a idade dos frisos. Livros de emblemas como esse eram um gênero popular na Europa dos séculos XVI e XVII, combinando gravuras simbólicas com textos de fundo moral, e serviam de inspiração para todo tipo de decoração da época.

A hipótese dos estudiosos é que os murais tenham sido pintados em algum momento entre o lançamento do livro e por volta de 1700, quando o estilo já teria caído em desuso. É por isso que se fala em pinturas de meados do século XVII, em torno de 1660, ainda que a data exata siga sendo uma estimativa dentro dessa janela de algumas décadas. A referência ao livro de Quarles, de todo modo, dá bastante segurança de que não se trata de arte recente disfarçada de antiga.

Pinturas mais antigas que a própria casa

Reforma de cozinha em York revela pinturas murais do século XVII escondidas na parede, mais antigas que a casa de 1747 e de importância nacional.
Reforma de cozinha em York revela pinturas murais do século XVII escondidas na parede, mais antigas que a casa de 1747 e de importância nacional.

Um dos detalhes mais impressionantes é cronológico. O prédio onde o casal vive é uma construção georgiana de 1747, classificada no Reino Unido como patrimônio de Grau II. Só que as pinturas são anteriores ao próprio edifício, algo que soa quase como um paradoxo para quem imagina que a decoração vem sempre depois da casa pronta.

A explicação está na estrutura. Tudo indica que a residência foi erguida ao redor de uma parede que já existia, e os frisos provavelmente foram pintados antes mesmo de a construção atual tomar forma. Na prática, o morador convive com uma obra de arte mais velha do que as próprias fundações do imóvel. Esse descompasso entre a idade da pintura e a do prédio é justamente o que deixa os historiadores tão interessados no caso.

Um segredo que já tinha sido visto em 1998

Curiosamente, esta não foi a primeira vez que as pinturas vieram à tona. Segundo a BBC, elas já haviam sido encontradas e fotografadas em 1998, antes de serem cobertas de novo e praticamente esquecidas nas décadas seguintes. Ou seja, o tesouro ficou escondido à vista de todos por mais de vinte anos, sem que ninguém desse o devido valor.

A diferença é que, desta vez, a redescoberta não passou batida. Em vez de voltarem para trás de um painel e caírem no esquecimento, as pinturas ganharam atenção de especialistas e da imprensa internacional. O reencontro acidental transformou um detalhe ignorado da casa em objeto de estudo, uma prova de que o valor de um achado depende também de quem está olhando e do momento em que ele reaparece.

Historic England e Courtauld entram em cena

Assim que soube do caso, a Historic England resolveu agir. O órgão de patrimônio decidiu fazer um levantamento e documentar as pinturas, além de orientar Luke Budworth a recuperá-las para garantir a preservação. As imagens foram encaminhadas ao departamento de Conservação de Pinturas Murais do Courtauld Institute of Art, em Londres, uma das principais referências no assunto.

A avaliação dos especialistas elevou o status do achado. Para Simon Taylor, pesquisador sênior de arquitetura da Historic England, as obras têm importância nacional e ganham interesse especial no contexto de York, onde murais domésticos desse tipo são raros. O fato de as pinturas estarem interrompidas pelo teto e pela fachada ainda pode ajudar os pesquisadores a entender como a própria rua foi se formando ao longo dos séculos. Não é todo dia que uma parede de sala de estar vira pista para reconstituir a história de um bairro inteiro.

O peso de morar com um tesouro de quase 400 anos

Nem tudo, porém, é motivo de comemoração. Budworth foi sincero ao admitir que as pinturas, além de encantadoras, também viraram uma espécie de fardo. Ele explicou que não há financiamento externo à vista e que as taxas de conservação podem chegar à casa dos milhares de libras, um custo alto demais para bancar por conta própria.

Enquanto a conservação definitiva não vem, a solução foi improvisar proteção. O morador cobriu os frisos para evitar que a luz solar direta desbotasse as cores e mandou imprimir uma versão em altíssima resolução das pinturas, instalando a réplica por cima das originais. A organização envolvida no trabalho também produziu uma reprodução em tamanho real, que hoje funciona como ponto de destaque na decoração da casa. A esperança do proprietário é reunir, um dia, recursos suficientes para restaurar de vez a obra verdadeira.

Micklegate e os segredos das casas de York

O achado joga luz sobre um bairro que já nasceu histórico. Micklegate atravessou os períodos romano, viking e medieval, e hoje é conhecido pela arquitetura preservada, pelas ruas charmosas e por uma vida de bairro movimentada, com igrejas, museus, casas antigas, cafés e lojas que atraem visitantes de vários cantos do mundo.

A descoberta reforça a ideia de que muita coisa ainda dorme atrás dessas paredes. A própria Historic England classificou o caso como fascinante e disse que ele levanta perguntas sobre a idade das casas dessa fileira de construções. Budworth torce para que a repercussão atraia sociedades de conservação, doutorandos e grupos de arqueologia, e não seria surpresa se outros moradores começassem a olhar as próprias paredes com outros olhos. Afinal, se uma reforma de cozinha revelou pinturas de quase quatro séculos, quem garante o que existe na casa ao lado?

Vale mais como sorte ou como responsabilidade?

No fim, o que era um projeto rotineiro de troca de armários acabou entregando um capítulo inédito da história de York. As pinturas escondidas atrás da parede sobreviveram a séculos, a uma casa construída por cima delas e até a um primeiro reencontro esquecido em 1998, para só agora receberem o reconhecimento de peça de importância nacional. É um lembrete e tanto de que o passado costuma estar bem mais perto do que a gente imagina.

E você, se descobrisse pinturas de quase 400 anos atrás da parede da sua casa, encararia como sorte grande ou como uma baita responsabilidade para conservar? Conta pra gente nos comentários o que faria no lugar do casal, e se já teve alguma surpresa escondida numa reforma. Vai que a sua história inspira outra pessoa a olhar com mais atenção para aquela parede meio torta lá de casa.

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