1. Início
  2. Agronegócio
  3. R$ 1,14 por saca: a margem do milho da BrasilAgro caiu de 20% para 2%, a empresa corta 2.726 hectares do cereal do plano da safra 2026/27 e o lucro de R$ 81,3 milhões veio da venda de uma fazenda na Bahia
Faça um comentário 6 min de leitura

R$ 1,14 por saca: a margem do milho da BrasilAgro caiu de 20% para 2%, a empresa corta 2.726 hectares do cereal do plano da safra 2026/27 e o lucro de R$ 81,3 milhões veio da venda de uma fazenda na Bahia

Imagem de perfil do autor Bruno Teles
Escrito por Bruno Teles Publicado em 04/11/2026 às 16:46 Atualizado em 04/11/2026 às 16:50
Google News
Mulher de uniforme com faixas refletivas e rádio no ombro agachada entre fileiras de soja nova, tocando as folhas, com a lavoura se estendendo até o horizonte.
Lavoura de soja da BrasilAgro: na safra 2026/27, a empresa aumenta a soja e tira 2.726 hectares de milho do plano depois que a margem do milho caiu para 2%. Foto: Reprodução/YouTube BrasilAgro
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Com a margem do milho em 2%, cada tonelada vendida deixou R$ 19 de lucro bruto, contra R$ 161 no mesmo trimestre de 2025; a venda de 2.593 hectares em Correntina (BA) rendeu ganho de R$ 50,8 milhões, 37 vezes o que o milho deu no trimestre

A margem do milho da BrasilAgro caiu de 20% para 2% no trimestre de julho a setembro de 2026, o primeiro da safra 2026/27 da empresa. O dado está no relatório de resultados que a companhia entregou à SEC, a autoridade do mercado de ações dos Estados Unidos, em 3 de novembro de 2026. No mesmo dia, a BrasilAgro cortou o milho do seu plano de plantio.

O dono da conta é uma das maiores empresas de terra do país. A BrasilAgro tem 254.548 hectares em seis estados, no Paraguai e na Bolívia. Ela planta soja, milho, algodão e cana e compra fazendas para desenvolver e vender depois.

O trimestre fechou com lucro líquido de R$ 81,3 milhões. No mesmo período de 2025, a empresa tinha tido prejuízo de R$ 64,3 milhões. A virada, porém, não saiu da lavoura: saiu da venda de 2.593 hectares da Fazenda Rio do Meio, em Correntina, na Bahia.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Quanto a BrasilAgro ganhou em cada saca de milho?

A margem do milho é a sobra entre o preço de venda e o custo de produzir. No trimestre, a BrasilAgro vendeu 69.923 toneladas de milho a R$ 790 a tonelada, em média. O custo foi de R$ 771 a tonelada. Sobraram R$ 19 por tonelada.

No mesmo trimestre de 2025, o milho saiu a R$ 822 a tonelada e custou R$ 661. A sobra era de R$ 161 por tonelada. O preço caiu 4% e o custo subiu 17%, segundo a empresa.

Passando para a saca de 60 quilos, que é como o produtor fala, a conta fica assim:

Milho da BrasilAgroJul. a set. de 2025Jul. a set. de 2026
Preço por toneladaR$ 822R$ 790
Custo por toneladaR$ 661R$ 771
Sobra por toneladaR$ 161R$ 19
Preço por saca de 60 kgR$ 49,32R$ 47,40
Custo por saca de 60 kgR$ 39,66R$ 46,26
Sobra por saca de 60 kgR$ 9,66R$ 1,14
Margem do milho20%2%

Os valores por saca são conta nossa: o valor por tonelada dividido por 1.000 e multiplicado por 60. O relatório traz os números por tonelada.

Isso explica por que a margem do milho virou o centro da conversa. A empresa vendeu quase três vezes mais milho que no mesmo trimestre de 2025, e mesmo assim o lucro bruto do cereal caiu 65%, para R$ 1,35 milhão. Na soja, a margem ficou em 27%, contra 30% no mesmo trimestre de 2025.

Quantos hectares de milho a BrasilAgro tirou do plano da safra 2026/27?

No mesmo 3 de novembro de 2026, a BrasilAgro publicou um fato relevante com a nova estimativa da safra 2026/27. A área total ficou em 164.664 hectares. A mudança grande está no milho.

Comparada com a estimativa inicial da própria empresa para esta safra, a área de milho encolheu assim:

CulturaEstimativa inicial (ha)Nova projeção (ha)Diferença (ha)
Milho primeira safra13.71811.645-2.073
Milho segunda safra13.89213.240-652
Milho somado27.61124.885-2.726
Soja74.42575.474+1.049
Outras culturas, com plantas de cobertura19.44421.068+1.624

O corte do milho de primeira safra, de 15%, está concentrado em Mato Grosso, segundo a empresa. O de segunda safra é de 5%.

A explicação está no próprio documento. Sem recuperação no preço do milho, parte das terras menos boas para o cereal ficou em pousio ou recebeu plantas de cobertura. Em outras áreas, a soja, com preço mais firme, passou a dar mais dinheiro que o milho e tomou o lugar dele.

Na produção, a BrasilAgro agora projeta 73.123 toneladas de milho de primeira safra e 92.582 toneladas de segunda safra. Somadas, são 165.705 toneladas, contra 181.430 toneladas da estimativa inicial. A diferença é de 15.725 toneladas, ou cerca de 262 mil sacas de milho a menos (conta nossa). A soja sobe para 261.192 toneladas.

Na coletiva de 3 de novembro de 2026, o presidente da BrasilAgro, André Guillaumon, resumiu o plano, segundo a Exame: “É ano de a gente fazer o feijão com arroz bem feito e colher uma produtividade boa na segunda safra”.

Quanto custa plantar milho e soja nas fazendas da BrasilAgro?

O mesmo fato relevante traz o custo por hectare previsto para a safra 2026/27. É a parte que mais interessa a quem faz a conta do produtor de milho:

Homem de camisa azul-clara sentado em um escritório, falando para a câmera, com a legenda "Diretor Presidente André Guillaumon" na parte de baixo da imagem.
André Guillaumon, presidente da BrasilAgro: a empresa revisou o mix de culturas fazenda por fazenda para a safra 2026/27. Foto: Reprodução/YouTube BrasilAgro
CulturaCusto previsto por hectare na safra 2026/27
SojaR$ 5.152
Milho primeira safraR$ 5.058
Milho segunda safraR$ 4.378
AlgodãoR$ 10.618
CanaR$ 10.962

O hectare de milho de primeira safra custa quase o mesmo que o de soja, com diferença de R$ 94. Com o milho pagando R$ 19 de sobra por tonelada no trimestre, a conta pende para a soja nas áreas em que as duas cabem.

De onde veio o lucro de R$ 81,3 milhões da BrasilAgro?

O lucro veio da terra: em setembro de 2026, a BrasilAgro vendeu 2.593 hectares da Fazenda Rio do Meio, em Correntina (BA). Desse total, 1.753 hectares são de área útil, vendidos por cerca de R$ 45 mil o hectare útil, segundo a mensagem da administração no relatório.

A conta da venda da Rio do Meio, como está no relatório:

Venda de parte da Fazenda Rio do MeioValor
Valor de venda registradoR$ 94,2 milhões
Ajuste a valor presentemenos R$ 17,2 milhões
Receita reconhecidaR$ 77,0 milhões
Custo contábil da área vendidamenos R$ 26,2 milhões
Ganho com a vendaR$ 50,8 milhões
Preço sobre o valor contábil2,9 vezes

O ganho de R$ 50,8 milhões com a Rio do Meio equivale a cerca de 37 vezes o lucro bruto do milho no trimestre, de R$ 1,35 milhão (conta nossa). Por hectare total vendido, o ganho foi de cerca de R$ 19,6 mil (conta nossa).

O restante do lucro veio de outra fonte ligada à terra: a valorização de R$ 76,0 milhões dos valores que a empresa tem a receber por fazendas vendidas antes. Esses recebíveis somam R$ 626 milhões, dos quais R$ 218 milhões vencem nos próximos 12 meses.

A Rio do Meio já tinha passado por outra venda. O relatório informa que 4.092 hectares da fazenda voltaram para a BrasilAgro depois que o contrato de venda feito em 2022 foi rescindido. Agora, parte dela foi vendida de novo.

O que a BrasilAgro já garantiu para a soja da safra 2026/27?

Enquanto corta o milho, a empresa trava a soja. Segundo o relatório de 3 de novembro de 2026, 57% da soja da safra 2026/27 já está vendida com preço protegido, a US$ 12,26 por bushel. O valor é 11% maior que o travado na safra anterior.

Homem de boné e camisa verde com crachá fala ao microfone em um palco, com o painel do evento BrasilAgro Day ao fundo.
Evento BrasilAgro Day 2024: a empresa já travou o preço de 57% da soja da safra 2026/27. Foto: Reprodução/YouTube BrasilAgro

A BrasilAgro também comprou 94% dos fertilizantes abaixo do orçamento. Até a data do relatório, 68% da área de soja prevista estava plantada, 17 dias à frente da safra passada.

A empresa diz que, diante da chegada do El Niño, revisou a janela de plantio e a mistura de culturas fazenda por fazenda. O resultado é o que aparece no plano da safra 2026/27: menos milho em Mato Grosso, mais soja onde a conta fecha e terra em descanso onde o milho não paga.

O que muda para quem planta milho?

A BrasilAgro não fala pelo produtor, mas a conta dela é a mesma régua de quem planta. Com preço de R$ 790 a tonelada e custo de R$ 771, a sobra do milho foi de R$ 1,14 por saca no trimestre.

Na operação agrícola inteira, a receita líquida ficou estável em R$ 300,9 milhões. O resultado operacional ajustado caiu 32%, para R$ 43,8 milhões. A dívida líquida ajustada caiu de R$ 280,5 milhões para R$ 136,3 milhões no trimestre.

Na prática, a safra 2026/27 da BrasilAgro vai ter menos milho e mais soja. A margem do milho caiu para 2%, e a empresa que planta em 164 mil hectares decidiu não insistir no cereal onde ele não se paga.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Tags
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x