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Empresa sueca vai empinar pipa debaixo do mar da Irlanda: uma asa presa ao fundo desenha um 8 na correnteza, numa fazenda de 10 MW que ganhou € 20,2 milhões da União Europeia

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 30/10/2026 às 19:40
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Assista o vídeoDois técnicos de capacete e colete amarelo seguram uma asa amarela com três lemes suspensa por um guindaste, num cais com montanhas verdes ao fundo.
Pipa submarina da Minesto pendurada no guindaste: a asa leva turbina e gerador e trabalha presa ao fundo por um cabo. Foto: Divulgação/Minesto
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A Minesto foi escolhida pela Comissão Europeia para receber o dinheiro do Fundo de Inovação; o contrato deve ser assinado no começo de 2027, e a fazenda de pipas presas ao leito do mar ainda é projeto

A sueca Minesto quer fazer na Irlanda o que uma criança faz na praia: empinar pipa. Só que debaixo d’água, presa ao fundo do mar por um cabo e puxada pela maré. Em comunicado de 19 de outubro de 2026, a empresa informou que foi selecionada pela Comissão Europeia para receber 20,2 milhões de euros do Fundo de Inovação da União Europeia.

O dinheiro vai para a Euro Dragon Farm, uma fazenda de pipa submarina com até 10 megawatts (MW), planejada para as águas costeiras da Irlanda. A Minesto diz que será a primeira fazenda de energia das marés desse tipo dentro da União Europeia. A Global Energy Association repercutiu o anúncio em 26 de outubro, e a empresa voltou ao assunto no balanço do terceiro trimestre, publicado em 29 de outubro.

O dinheiro da União Europeia já está na conta da Minesto?

Ainda não. A Minesto entrou na fase que Bruxelas chama de preparação do acordo de subvenção. Nessa etapa, a empresa fecha o contrato com a CINEA, a agência executiva europeia de clima, infraestrutura e meio ambiente. A previsão do comunicado é assinar tudo no primeiro trimestre de 2027.

Por isso, a pipa submarina da Irlanda ainda está no papel. Não há máquina instalada na costa irlandesa nem eletricidade indo para a rede de lá.

O valor europeu cobre 60% do investimento necessário, segundo a empresa. Dá para tirar o tamanho da obra dessa porcentagem: 20,2 milhões divididos por 0,6 resultam em cerca de 33,7 milhões de euros no projeto inteiro.

A diferença, perto de 13,5 milhões de euros, a Minesto ainda precisa levantar. Pela cotação de venda do euro de 29 de outubro de 2026 no Banco Central, R$ 6,00, os 20,2 milhões europeus equivalem a uns R$ 121 milhões.

Como uma pipa submarina gera energia das marés?

Imagine uma pipa na praia. Quando ela corre de um lado para o outro, cruzando o vento, anda bem mais rápido que o próprio vento. A Minesto explica a ideia assim na página da sua tecnologia, com uma troca: em vez de ar, água, que é quase mil vezes mais densa. A energia fica muito mais concentrada.

Desenho técnico de uma asa amarela com as partes indicadas: leme, profundor, turbina, caixa de engrenagens, gerador, sistema de controle e cabo de amarração.
As peças da pipa da Minesto: a turbina fica no corpo da asa e o cabo segura tudo no leito do mar. Foto: Divulgação/Minesto

A pipa submarina é uma asa com turbina e gerador, presa ao fundo do mar por um cabo. A correnteza da maré empurra a asa, que passa a desenhar um 8 deitado dentro d’água, sem parar. Nesse vaivém, a turbina atravessa a água várias vezes mais rápido que a própria correnteza, descreve a Global Energy Association.

O pulo do gato está na física. A potência que a turbina consegue tirar da água cresce com o cubo da velocidade. Num exemplo de matemática pura, uma turbina que anda 3 vezes mais rápido tem 27 vezes mais potência disponível (3 x 3 x 3).

A Minesto chama esse sistema de Deep Green e apresenta a tecnologia no vídeo oficial abaixo, publicado no canal da empresa no YouTube.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Por que a pipa da Minesto funciona em correnteza fraca?

A empresa afirma, na página dos sistemas Dragon, que a pipa gera energia das marés em correntes a partir de 1,2 metro por segundo. Isso dá 4,3 km/h (1,2 x 3,6), menos que o passo apressado de alguém atrasado para o ônibus.

Nessas correntes de maré lentas, as turbinas convencionais de energia das marés, fixas no leito, não se pagam. É esse o mercado que a Minesto diz ter só para ela.

O outro trunfo é o peso. Segundo a empresa, a usina pesa até 15 vezes menos por megawatt que as concorrentes. Barcos pequenos dão conta da instalação, e a manutenção pesada acontece em terra.

Tudo fica submerso: quem olha da praia não vê nada. Como as marés seguem a Lua, dá para saber com antecedência quanto a máquina vai produzir. O vento e o sol não oferecem essa garantia.

O que a fazenda de 10 MW na Irlanda vai ter?

Pelo comunicado, a Euro Dragon Farm vai juntar várias pipas trabalhando lado a lado debaixo d’água, como as torres de um parque eólico. A meta é entregar até 10 MW de eletricidade previsível à rede da Irlanda, com fornecedores locais e formação de mão de obra irlandesa.

“Ser selecionada para essa contribuição de 20,2 milhões de euros é o marco comercial mais significativo da história da Minesto até agora”, disse Martin Edlund, presidente-executivo da Minesto, no comunicado da empresa.

Euro Dragon FarmNúmero
Dinheiro da União Europeia selecionado€ 20,2 milhões
Parte do investimento coberta60%
Investimento total (20,2 ÷ 0,6)cerca de € 33,7 milhões
Potência previstaaté 10 MW
Assinatura do contrato com a CINEA1º trimestre de 2027
Correnteza mínima da pipa1,2 m/s (4,3 km/h)

Quanto pesam os € 20,2 milhões no pacote europeu?

A Minesto entrou numa leva grande. No anúncio de 19 de outubro, a Comissão Europeia escolheu 77 projetos de tecnologia de emissão zero, somando 3,4 bilhões de euros, em 23 países. O dinheiro vem das receitas do mercado de carbono europeu, em que as indústrias pagam para poluir.

A fatia da pipa irlandesa é pequena. Dividindo 20,2 milhões por 3,4 bilhões, dá 0,6% do pacote. Na média, cada um dos 77 projetos levou uns 44 milhões de euros (3.400 ÷ 77).

A Comissão calcula que os 77 projetos juntos podem evitar cerca de 290 milhões de toneladas de gás carbônico nos primeiros dez anos. É algo como uma tonelada por segundo durante uma década. A energia das marés e de outras fontes do oceano aparece na lista ao lado de reator nuclear pequeno, ímãs de terras raras e baterias de carro elétrico.

Onde a pipa submarina da Minesto já gira de verdade?

Nas Ilhas Faroé, no Atlântico Norte. Ali, no estreito de Vestmannasund, a pipa Dragon 4 bateu recorde de produção de eletricidade no verão de 2026, informa o balanço do terceiro trimestre. Depois da última manutenção, a máquina voltou a trabalhar em 48 horas.

Asa amarela boiando na superfície de um fiorde de água escura, com montanhas encobertas por nuvens e um vilarejo na margem.
Pipa da Minesto na superfície da água nas Ilhas Faroé, onde a empresa testa a tecnologia. Foto: Divulgação/Minesto

O CPG mostrou em 20 de outubro como a pipa de asa amarela voa em forma de oito nas Faroé e levou eletricidade à rede. Para a energia das marés da Minesto, a Irlanda seria o passo seguinte: sair de uma máquina de teste para uma fazenda inteira.

A empresa trata os dois lugares como carros-chefe: o projeto Hestfjord, nas Faroé, e a Euro Dragon Farm, na Irlanda. Para bancar os dois, o conselho anunciou a intenção de levantar cerca de 130 milhões de coroas suecas em ações novas, com assembleia marcada para 23 de novembro de 2026.

O caixa explica a pressa. Nos nove primeiros meses de 2026, a receita líquida da Minesto foi zero, e o prejuízo operacional chegou a 23,3 milhões de coroas suecas, mostra o mesmo balanço. Até a assinatura com a CINEA, a pipa irlandesa continua sendo uma promessa com data marcada.

RESUMO: A sueca Minesto foi selecionada pela Comissão Europeia para receber € 20,2 milhões do Fundo de Inovação e montar na Irlanda a primeira fazenda de pipa submarina da União Europeia, com até 10 MW. A asa presa ao fundo do mar desenha um 8 na correnteza da maré. O contrato deve ser assinado no primeiro trimestre de 2027.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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