Na ferrovia Fiol, o lote 5F entre Caetité e Barreiras, no interior da Bahia, voltou à mesa do Tribunal de Contas da União com trilhos já montados sob vegetação de grande porte, um contrato que anda muito atrás do cronograma e uma ordem para limpar e conservar o que já foi construído antes que a estrutura se perca.
TCU manda cuidar de 96 km de trilhos que o mato ocupou entre os dormentes
O Tribunal de Contas da União julgou em 14 de outubro o lote 5F da Ferrovia de Integração Oeste-Leste, contratado à TCE Engenharia. A decisão foi noticiada no dia seguinte pela Agência iNFRA.
Segundo a publicação, o tribunal mandou a Infra S.A. exigir da construtora um plano emergencial de limpeza e manutenção do trecho.
O alvo é o subtrecho 5FB1, onde cerca de 96 km de trilhos já estão instalados. Ou seja, não se trata de obra por fazer, mas de via pronta que precisa ser protegida.
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Vegetação no lastro compromete a drenagem do subtrecho 5FB1
De acordo com a Agência iNFRA, há vegetação de grande porte crescendo entre os dormentes e no próprio lastro, a camada de pedra que sustenta a via.
Esse quadro compromete a drenagem. Por isso, a água que deveria escoar pelo lastro encontra raízes e terra no caminho, e o trecho montado fica exposto ao desgaste.
Quem já viu uma estrada de terra abandonada depois de algumas chuvas entende a lógica. A diferença é que, aqui, o que está exposto é trilho pago com dinheiro público.
Obra que começou em 2014 deveria ter terminado em 2015
O cronograma original do lote é antigo. Conforme a reportagem, a obra foi iniciada em 2014, com conclusão prevista para 2015.
Em outubro de 2026, o trecho ainda não está pronto. Assim, a conta simples da reportagem mostra um atraso de 11 anos sobre a meta inicial, sem data firme de entrega.
Nesse intervalo, o lote passou por mais de um contrato. Além disso, ganhou duas auditorias do TCU em pouco mais de um ano, a de 2025 e a desta semana.
Primeiro contrato terminou em junho de 2023 com 64,66% executado
Segundo a Agência iNFRA, o contrato original do lote chegou ao fim em junho de 2023 com 64,66% dos serviços executados.
Em seguida, veio uma nova contratação. Em abril de 2024, o lote ganhou um contrato de R$ 365,2 milhões, com prazo de 26 meses para a execução.
A reportagem não explica como os dois percentuais se relacionam.

Novo contrato chegou a 17,77% quando o previsto era 93,14%
O dado mais duro está no novo contrato. Em março de 2026, depois de 22 dos 26 meses de prazo, a execução era de 17,77%.
Para aquele mesmo ponto do cronograma, o previsto era 93,14%. A diferença, portanto, passa de 75 pontos percentuais entre o planejado e o feito.
Restavam quatro meses de prazo para cumprir mais de 82% do contrato.
A conta é direta.
Auditoria de 2025 já tinha encontrado só 3% medido em nove meses
O alerta não é novo.
Em outubro de 2025, o TCU apontou que o lote 5F tinha apenas 3% medido depois de 9 dos 26 meses do contrato.
A conclusão está no Acórdão 2295/2025, relatado pelo ministro Antonio Anastasia. O registro do tribunal sobre aquela auditoria descreve o atraso na construção da ferrovia.
Naquela ocasião, o problema era o ritmo de arranque. Um ano depois, o foco mudou para a conservação do que foi montado, sem que o ritmo tenha se resolvido.
Cruzamento das duas auditorias mostra avanço de 1,1 ponto por mês
Colocar os dois números lado a lado é o que permite medir a velocidade da obra. Nenhuma das fontes fez esse cruzamento, que aqui é conta da reportagem.
Entre o 9º e o 22º mês do contrato, a execução saiu de 3% para 17,77%. Assim, foram cerca de 14,8 pontos em 13 meses, ou aproximadamente 1,1 ponto por mês.
Para cumprir o contrato no prazo, o ritmo médio teria de ser de quase 3,9 pontos por mês desde o início. Ou seja, a obra andou a menos de um terço da velocidade planejada.
Se o ritmo medido entre as duas auditorias se mantiver, os mais de 82 pontos restantes levariam cerca de seis anos. É uma projeção aritmética, não uma previsão oficial.
De R$ 365,2 milhões contratados, cerca de R$ 64,9 milhões viraram obra
A mesma lógica vale para o dinheiro. Aplicando os 17,77% executados ao valor de R$ 365,2 milhões, a conta da reportagem chega a aproximadamente R$ 64,9 milhões em serviços realizados.
Por outro lado, cerca de R$ 300 milhões do contrato seguiam sem execução em março. A estimativa considera o valor nominal e não inclui reajustes, que as fontes não informam.
Lote 5F liga Caetité a Barreiras em 146,28 km de traçado
Segundo o TCU, o lote 5F tem 146,28 km e se estende entre Caetité e Barreiras, no interior da Bahia.
Os 96 km de trilhos do subtrecho 5FB1 representam, portanto, cerca de dois terços da extensão do lote. As fontes, porém, não informam quais municípios esse subtrecho atravessa.
Dessa forma, não é possível dizer a qual cidade cada quilômetro de mato corresponde. O que se sabe é que a via montada está em algum ponto entre essas duas cidades.
Infra S.A. diz que vai acolher as determinações do tribunal
Segundo a Agência iNFRA, a Infra S.A. afirmou que acolherá as determinações do TCU sobre o lote.
A resposta não traz prazo para o plano emergencial nem valor previsto para a limpeza. Também não indica quando a construtora deve apresentar o documento.
O número do acórdão de 14 de outubro ainda não foi publicado. Além disso, a nota do tribunal sobre esse julgamento não foi localizada no portal do TCU até a publicação desta matéria.
Leilão Fico-Fiol está previsto para 2027
O pano de fundo é a concessão. De acordo com a reportagem, o leilão conjunto da Fico e da Fiol está previsto para 2027.
Até lá, o trecho de 96 km precisa ser conservado. Trilho tomado pelo mato e lastro sem drenagem formam um passivo que pode pesar sobre quem assumir a ferrovia.
Os detalhes do julgamento estão na reportagem da Agência iNFRA sobre a cobrança do TCU no lote 5F da Fiol, assinada por Luiz Araújo.
Onze anos depois do prazo, a pergunta é quem cuida do que já foi feito
A decisão desta semana muda o foco do debate. Antes, a cobrança do tribunal era por velocidade, com percentuais medidos mês a mês contra um cronograma que nunca foi cumprido; agora, é também por conservação, porque parte do que o contrato já entregou está exposta ao tempo e à vegetação, sem a manutenção que a própria via exige.
Enquanto o contrato não avança, a via já montada envelhece. O dado indica que, sem manutenção, parte do trabalho executado pode ter de ser refeita antes mesmo de entrar em uso.
E você, acredita que a Fiol fica pronta antes do leilão de 2027, ou os 96 km de trilhos vão continuar esperando no mato?
