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Quase ninguém ao redor do mundo sabe, mas Hong Kong usa água do mar nas descargas sanitárias há décadas e economiza milhões de litros de água potável todos os dias em uma das cidades mais densas do planeta

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 28/02/2026 às 16:17
Atualizado em 01/03/2026 às 21:39
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Hong Kong usa água do mar nas descargas desde os anos 1950, atende até 85% da população e economiza cerca de 320 milhões de m³ de água potável por ano

Enquanto a maioria das grandes cidades utiliza água potável tratada para descargas sanitárias, Hong Kong adotou um caminho estruturalmente diferente ainda no século XX. Desde o fim da década de 1950, o território opera uma rede exclusiva de água do mar para uso sanitário, criando um dos sistemas urbanos mais singulares do mundo em gestão hídrica.

Hoje, cerca de 80% a 85% da população é atendida por essa infraestrutura paralela, que fornece aproximadamente 320 milhões de metros cúbicos de água do mar por ano, reduzindo significativamente a pressão sobre os reservatórios de água doce. O modelo transformou uma limitação geográfica em estratégia permanente de segurança hídrica.

Como funciona o sistema de água do mar em Hong Kong

O sistema é administrado pelo Water Supplies Department, órgão responsável pela gestão hídrica do território. Hong Kong mantém duas redes completamente separadas:

  • Rede de água potável
  • Rede exclusiva para descargas sanitárias com água do mar

A água salgada é captada diretamente no litoral, passa por filtragem e desinfecção básica, e é bombeada para reservatórios próprios antes de seguir por uma malha independente de tubulações. Atualmente, a infraestrutura inclui:

  • Mais de 1.600 quilômetros de tubulações exclusivas
  • Estações de bombeamento dedicadas
  • Reservatórios separados
  • Sistema de controle de pressão independente
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A separação física das redes é o elemento-chave que garante segurança sanitária e viabilidade operacional em larga escala.

Economia de 320 milhões de m³ por ano: impacto no consumo urbano

De acordo com dados oficiais do governo de Hong Kong, o uso de água do mar representa cerca de 20% do consumo total de água do território.

Isso significa que um quinto da demanda hídrica urbana não depende de água doce tratada. Em termos práticos, o volume economizado equivale a centenas de milhares de piscinas olímpicas por ano.

Essa economia reduz:

  • A dependência de importação de água da China continental
  • A pressão sobre reservatórios locais
  • Custos de tratamento de água potável

Em uma região com alta densidade populacional e recursos naturais limitados, essa estratégia tem impacto estrutural contínuo.

A crise hídrica dos anos 1950 que originou o modelo

A adoção do sistema não foi inicialmente motivada por preocupação ambiental, mas por necessidade estratégica.

Na década de 1950, Hong Kong enfrentou severas crises de abastecimento, com períodos de racionamento que chegaram a limitar o fornecimento de água doce a poucas horas por dia. O território possui:

  • Área geográfica limitada
  • Poucos reservatórios naturais
  • Crescimento populacional acelerado
  • Dependência parcial de água importada do rio Dongjiang

Diante desse cenário, o governo decidiu implementar uma solução permanente: utilizar o recurso abundante disponível, o mar.

A primeira rede de água salgada foi instalada em 1958, e o sistema foi expandido gradualmente conforme a cidade crescia.

Engenharia anticorrosão: o desafio técnico da água salgada

Utilizar água do mar em redes urbanas apresenta desafios técnicos complexos. O sal acelera processos de corrosão e degradação de materiais metálicos.

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Para viabilizar o sistema, foram adotadas soluções como:

  • Tubulações de materiais resistentes à corrosão
  • Revestimentos internos especiais
  • Bombas projetadas para alta salinidade
  • Manutenção preventiva contínua

O custo inicial da infraestrutura é elevado. No entanto, a longevidade do sistema — que opera há mais de seis décadas — comprova sua viabilidade quando planejado desde a base urbana.

Por que outras cidades costeiras não copiaram o modelo?

Apesar de estar cercada pelo mar, a maioria das cidades costeiras não utiliza água salgada para descargas sanitárias.

A implementação depende de fatores estruturais específicos:

  • Planejamento urbano desde fases iniciais
  • Capacidade de instalar rede dupla
  • Investimento público de longo prazo
  • Densidade populacional que justifique a escala

Em cidades já consolidadas, a necessidade de abrir ruas para instalar uma segunda rede tornaria o projeto economicamente inviável.

Hong Kong implementou o sistema durante períodos de expansão urbana intensa, o que facilitou sua consolidação.

Impacto ambiental e gestão estratégica da água

Descargas sanitárias representam parcela significativa do consumo doméstico de água potável. Ao substituir água doce por água do mar nessa finalidade, Hong Kong:

  • Preserva recursos hídricos limitados
  • Reduz custos de tratamento
  • Minimiza vulnerabilidade a secas
  • Ganha maior segurança hídrica estrutural

O modelo demonstra que nem toda água utilizada em ambiente urbano precisa ter padrão de potabilidade.

Em um cenário global de mudanças climáticas e escassez hídrica crescente, a estratégia é frequentemente citada em debates sobre resiliência urbana.

Hong Kong opera o maior sistema urbano de água salgada do mundo

Poucos locais no planeta utilizam água do mar em larga escala para descargas sanitárias. Hong Kong é reconhecida como o maior sistema funcional desse tipo já implementado.

O modelo atende milhões de pessoas diariamente e segue operando de forma estável após mais de 60 anos. A cidade transformou um recurso abundante em solução estrutural permanente, reduzindo drasticamente o consumo de água potável para fins não essenciais.

Em um mundo onde a escassez de água doce se torna cada vez mais frequente, o sistema de Hong Kong permanece como um dos exemplos mais emblemáticos de adaptação urbana baseada em engenharia e planejamento de longo prazo.

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Hugo Amado
Hugo Amado
06/03/2026 04:48

Finally someone is using their brain!! Fresh drinking water is the most precious thing we have and we shouldn’t be using it for flushing toilets or fracking oil!!!! I thought if this and asked why no one does it!!! I guess someone does! Hong Kong:)🙏

Dan Donald
Dan Donald
05/03/2026 09:12

Why can’t you use river water aswell for the same use as it will serve the same purpose as well too just that it will have to be purified a bit as well use irrigation water on the farms for the same use then as there is no difference at all as use rain water for drinking as China is saving money that way as well too

José Carlos Murakami
José Carlos Murakami
01/03/2026 15:20

Gostei de saber que Hong Kong utiliza água do mar em descargas sanitária. Só nao foi informado se esta água da descarga sanitária e tratada para retornar ao mar, espero que sim, para cumprir ciclo completo.

Jeferson
Jeferson
Em resposta a  José Carlos Murakami
02/03/2026 08:11

É só ver dos satélites se aparece algum “manchão preto” no mar. Huehueh

Fonte
Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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