Índice global de alimentos da FAO chegou a 136 pontos em setembro, alta de 1,5% no mês e 5,8% em um ano; açúcar subiu 6,1%, cereais 5,1% e óleos vegetais ficaram 18,3% acima de setembro de 2025, reforçando a pressão sobre custos.
Os preços mundiais dos alimentos voltaram a subir em setembro de 2026 e o índice da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura chegou a 136 pontos. O avanço foi de 1,5% em relação a agosto e de 5,8% na comparação com setembro do ano passado, puxado principalmente por açúcar, cereais e óleos vegetais.
A alta veio em meio a problemas de transporte em rotas importantes e condições climáticas adversas em diferentes regiões produtoras. A FAO aponta que esse conjunto aumenta a incerteza sobre oferta, fretes, energia e fertilizantes e pode manter pressão sobre as principais commodities alimentares.
Índice global sobe para 136 pontos e fica 5,8% acima de setembro de 2025
O Índice de Preços de Alimentos da FAO, que acompanha uma cesta de commodities negociadas internacionalmente, ficou em média em 136,0 pontos em setembro. O resultado representa alta de 2 pontos, ou 1,5%, sobre o nível revisado de agosto.
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Na comparação anual, o índice está 7,4 pontos acima de setembro de 2025, equivalente a avanço de 5,8%. Mesmo assim, ainda permanece 15,1% abaixo do pico histórico alcançado em março de 2022.
A pressão não veio de um único produto. Cereais, óleos vegetais e açúcar subiram no mês, enquanto a carne recuou e os laticínios ficaram praticamente estáveis.
Açúcar dispara 6,1% e atinge maior nível desde abril de 2025
O açúcar foi um dos destaques de setembro. O índice da FAO para o produto chegou a 114 pontos, avanço de 6,1% em relação a agosto e de 14,7% na comparação anual. Foi o terceiro mês consecutivo de alta e o maior nível desde abril de 2025.
A FAO atribui o movimento à expectativa de uma oferta global mais apertada na safra 2026/27. Na União Europeia, a redução da área plantada e condições climáticas adversas devem diminuir a produção de beterraba açucareira.
Também pesaram projeções menores para a produção da Tailândia e preocupações com a safra da Índia, onde as chuvas ficaram abaixo do normal enquanto o El Niño ganha força.
No Brasil, chuvas fortes no Centro-Sul atrapalharam o avanço da colheita e adicionaram pressão às cotações internacionais. Como o país tem grande peso na oferta mundial de açúcar, atrasos na produção e no escoamento rapidamente entram no radar do mercado.
Cereais sobem 5,1% e trigo atinge maior preço em mais de três anos
O índice de preços dos cereais avançou para 122,8 pontos em setembro, alta de 5,1% sobre agosto e de 17,2% frente ao mesmo mês de 2025.
O trigo ficou 6,3% mais caro no mês e atingiu o maior nível desde agosto de 2023. A FAO relaciona a alta às limitações logísticas na região do Mar Negro, que levaram importadores a buscar fornecedores alternativos, e ao clima seco em partes da América do Norte antes do plantio do trigo de inverno.
O milho também subiu com força: 5,6% em relação a agosto, alcançando o maior nível em mais de três anos. Entre os fatores citados estão expectativas de produtividade menor nos Estados Unidos, menor disponibilidade para exportação no Brasil e dificuldades no comércio do Mar Negro.
A incerteza sobre a navegação pelo Estreito de Ormuz também manteve preocupações com custos de combustíveis, fertilizantes e fretes. Isso pode afetar especialmente commodities que também são usadas como matéria-prima de biocombustíveis, como o milho.

Sorgo sobe 13,7%, cevada avança e arroz volta a ficar mais caro
Outros cereais também registraram aumento. O preço mundial do sorgo avançou 13,7% em setembro, enquanto a cevada subiu 3,9%, acompanhando o movimento dos grãos usados na alimentação animal.
No caso do sorgo, a FAO também cita expectativas de aumento das compras chinesas após discussões comerciais entre China e Estados Unidos.
O índice internacional do arroz subiu 1,4%, com alta das variedades Indica diante de preocupações climáticas e de uma oferta sazonalmente mais apertada.
Óleos vegetais ficam 18,3% mais caros que há um ano
O índice de óleos vegetais da FAO chegou a 198,6 pontos, alta de 0,9% sobre agosto. Na comparação com setembro de 2025, o avanço chega a 18,3%.
O óleo de palma puxou a alta pelo quarto mês consecutivo. A demanda internacional permaneceu forte e o mercado passou a considerar o risco de redução da produção no Sudeste Asiático por causa do clima seco.
O óleo de girassol seguiu direção oposta e caiu pelo terceiro mês seguido, com expectativa de oferta ampla na região do Mar Negro. Mesmo assim, dificuldades logísticas e limitações de capacidade de exportação impediram uma queda maior.
Os preços do óleo de soja ficaram praticamente estáveis no mês, mas continuaram bem acima dos níveis registrados um ano antes. A procura do setor de biocombustíveis ajudou a sustentar as cotações.

Carne cai 1,1%, mas bovinos brasileiros recebem suporte da demanda dos EUA
Enquanto os principais grupos de origem vegetal ficaram mais caros, o índice de carnes da FAO caiu 1,1% em setembro, para 127,9 pontos.
O recuo veio principalmente das carnes suína e de frango, em meio à oferta abundante dos principais exportadores. No caso do frango, a FAO menciona oferta elevada do Brasil e demanda mais fraca da União Europeia após a entrada em vigor de novas exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos.
A carne bovina brasileira, porém, seguiu dinâmica diferente. As cotações de exportação subiram com a demanda mais forte dos Estados Unidos após uma ampliação temporária da cota tarifária para aparas magras de carne bovina.
Laticínios ficam praticamente estáveis, mas leite em pó reage
O índice de laticínios recuou apenas 0,1% no mês, para 119,1 pontos. A queda do queijo quase compensou o avanço das cotações do leite em pó, enquanto a manteiga teve pouca variação.
O leite em pó foi sustentado por demanda firme de importadores, especialmente na Ásia, e por disponibilidade limitada para entrega imediata. Já o queijo sofreu pressão de uma combinação de menor procura e maior oferta para exportação.
FAO alerta que pressão de frete, energia e clima pode chegar ao consumidor
A alta do índice em setembro acontece em um cenário no qual problemas climáticos se somam a dificuldades de transporte em rotas estratégicas. O economista-chefe da FAO, Maximo Torero, alertou que, se essas pressões persistirem, elas podem alcançar os preços pagos pelos consumidores, sobretudo em países dependentes da importação de alimentos e energia.
Esse efeito não ocorre de forma automática nem igual em todos os países. Câmbio, estoques, políticas domésticas, fretes e estrutura de mercado influenciam quanto da alta internacional aparece no preço final. Ainda assim, o índice da FAO funciona como um sinal importante de pressão nas principais matérias-primas alimentares.
Produção mundial de cereais deve cair 2,1% em 2026
Além dos preços, a FAO atualizou suas projeções de produção e comércio. A produção global de cereais em 2026 está estimada em 2,979 bilhões de toneladas, queda de 2,1% em relação a 2025, embora ainda represente a segunda maior colheita já registrada.
A produção de trigo foi revisada para 813,9 milhões de toneladas, com melhora nas perspectivas para a Austrália. Por outro lado, a estimativa de grãos secundários caiu para 1,612 bilhão de toneladas devido à expectativa de produtividade menor na União Europeia e nos Estados Unidos.
A produção mundial de arroz foi estimada em 552,5 milhões de toneladas, com previsão menor para a Índia em razão da distribuição irregular das chuvas de monção.
Comércio mundial de cereais pode recuar 3,5%
A FAO também prevê queda de 3,5% no comércio mundial de cereais, para 505,8 milhões de toneladas. As exportações de trigo e milho devem recuar mais do que se esperava anteriormente, em grande parte por limitações nas rotas de transporte do Mar Negro e falta de capacidade alternativa suficiente.
O estoque mundial de cereais ao fim das safras de 2027 deve permanecer em torno de 950 milhões de toneladas. A relação entre estoques e consumo projetada cai levemente de 32% para 31,7%.
Açúcar, cereais e óleos colocam o mercado global de alimentos novamente sob pressão
O retrato de setembro é de pressão justamente sobre commodities que entram direta ou indiretamente no custo de alimentos, rações, combustíveis e logística. Açúcar subiu 6,1%, cereais avançaram 5,1% e óleos vegetais ficaram 18,3% acima do nível de um ano antes.
Ao mesmo tempo, gargalos em rotas de navegação, clima adverso em grandes produtores e custos elevados de frete e fertilizantes aumentam a incerteza para os próximos meses.
A próxima divulgação do índice da FAO mostrará se a alta de setembro foi um pico temporário ou o começo de uma sequência mais longa de pressão sobre as commodities alimentares. Compartilhe esta matéria com quem acompanha agronegócio, inflação de alimentos e mercados internacionais.
