Com a Lei nº 15.097/2025 aprovada e um decreto previsto para o primeiro semestre de 2026, o Brasil dará o primeiro passo concreto rumo à exploração de um recurso oceânico que pode gerar mais energia do que todas as usinas do país somadas — o potencial eólico offshore chega a 697 GW
O Brasil nunca explorou energia eólica no oceano.
Isso está prestes a mudar.
O primeiro leilão de áreas para parques eólicos offshore está projetado para 2027, após a publicação de um decreto regulatório esperado para o primeiro semestre de 2026.
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O marco legal já existe: a Lei nº 15.097/2025 estabeleceu as regras para geração de energia eólica em alto-mar no Brasil.
Agora, um grupo de trabalho interministerial coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) tem 270 dias para detalhar a regulamentação que permitirá o leilão.
O que está em jogo é gigantesco: o potencial eólico offshore brasileiro é estimado em 697 GW.
Para ter uma ideia, toda a capacidade instalada de geração elétrica do Brasil soma 215,9 GW.
Ou seja, o vento disponível no oceano brasileiro poderia gerar mais de 3 vezes toda a energia que o país produz hoje com todas as suas usinas somadas.

Como funciona um parque eólico no oceano
Turbinas eólicas offshore são instaladas no leito marinho, em áreas com profundidade de até 60 metros (tecnologia de fundação fixa) ou em estruturas flutuantes para águas mais profundas.
Cada turbina moderna de última geração pode produzir entre 12 e 15 MW de potência.
Para comparação, uma turbina eólica onshore típica no Brasil gera entre 3 e 5 MW — até 4 vezes menos.
A energia produzida é transmitida por cabos submarinos até subestações em terra, onde entra na rede elétrica nacional.
A grande vantagem do offshore é que os ventos no oceano são mais fortes, mais constantes e mais previsíveis do que em terra.
Isso significa que uma turbina offshore produz energia durante mais horas por dia do que uma equivalente em terra, elevando significativamente o fator de capacidade.
697 GW — mais que 3 vezes toda a capacidade do Brasil
O número impressiona pela escala: 697 gigawatts de potencial eólico offshore.
É mais energia do que toda a capacidade instalada combinada de Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e Peru.
O Nordeste concentra a maior parcela desse potencial, com ventos constantes e águas relativamente rasas — condições ideais para fundações fixas, que são mais baratas que as flutuantes.
Contudo, explorar esse potencial exige infraestrutura que o Brasil ainda não tem: estaleiros para fabricar bases submarinas, navios especializados para instalação das turbinas e uma cadeia logística de manutenção permanente.
Países como Reino Unido, Dinamarca, Alemanha e China já dominam essa tecnologia há mais de uma década.
O Brasil está entrando na corrida com atraso, mas com vantagens naturais que poucos concorrentes conseguem igualar.
US$ 2 bilhões represados esperando o decreto
O setor estima que o primeiro leilão pode destravar US$ 2 bilhões (R$ 11 bilhões) em investimentos imediatos.
Esses recursos já estão comprometidos por empresas internacionais que aguardam apenas a definição das regras para iniciar os projetos.
Contudo, a criação de um novo grupo de trabalho com prazo de 270 dias pode adiar esses investimentos que estavam prontos para fluir em 2026.
Cada mês de atraso regulatório é um mês a mais que o Brasil fica fora de um mercado global que movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano.

Cadeia produtiva e empregos — o que vem junto
A instalação de parques eólicos offshore cria uma cadeia industrial complexa e geradora de empregos qualificados.
São necessários estaleiros para fabricar as bases de concreto ou aço, navios especializados com guindastes de 1.000+ toneladas para instalar as turbinas no mar, fábricas de pás e torres que podem ter mais de 100 metros cada, além de equipes permanentes de manutenção offshore.
Países que adotaram a eólica offshore cedo, como o Reino Unido, geraram dezenas de milhares de empregos diretos no setor.
A região de Hull, no norte da Inglaterra, transformou-se de cidade portuária decadente em polo industrial de energia eólica, com fábricas da Siemens Gamesa empregando milhares.
O Nordeste brasileiro tem potencial para replicar esse modelo, combinando vento abundante com mão de obra e localização portuária.
Como outros países fizeram
O Reino Unido lidera o mundo em eólica offshore, com mais de 14 GW instalados e metas de 50 GW até 2030.
A China ultrapassou a Europa em instalações anuais e já tem mais de 30 GW offshore.
Dinamarca, pioneira, construiu o primeiro parque offshore do mundo em 1991 e hoje exporta turbinas para o planeta inteiro.
Todos esses países começaram com leilões de áreas e marcos regulatórios — exatamente o que o Brasil está fazendo agora com a Lei 15.097/2025.
Portanto, o Brasil não está inventando a roda — está seguindo um caminho comprovado, com 30 anos de atraso mas com recursos naturais superiores.

Ressalvas
O prazo de 270 dias para regulamentação pode sofrer atrasos por questões políticas ou técnicas.
Questões ambientais, como impacto na vida marinha, rotas migratórias de aves e pesca artesanal, precisam ser avaliadas nos estudos de licenciamento.
O custo inicial da eólica offshore é significativamente mais alto que o da eólica em terra, embora a tendência global seja de queda acelerada nos últimos anos.
Além disso, o Brasil não tem experiência industrial no setor — toda a cadeia precisará ser construída do zero ou importada inicialmente.
Ainda assim, com 697 GW de potencial e ventos favoráveis que sopram o ano inteiro, o Brasil tem condições naturais de se tornar uma potência eólica offshore — se conseguir regulamentar, leiloar e construir a tempo de não perder mais uma década.
