Enquanto o Brasil perdia 69 milhões de hectares de floresta nativa entre 1990 e 2020, os territórios indígenas se mantiveram quase intactos — com apenas 1% de perda. Agora, esses mesmos povos que protegeram a floresta estão liderando a recuperação de áreas degradadas, plantando milhares de mudas e provando que o conhecimento ancestral é a chave para salvar o planeta.
As terras indígenas ocupam 13,9% do território brasileiro e contêm 109,7 milhões de hectares de vegetação nativa, correspondendo a 19,5% de toda a vegetação nativa do Brasil. Mas o dado mais impressionante não é o tamanho é a capacidade de proteção. Em 30 anos, entre 1990 e 2020, as terras indígenas perderam apenas 1% de sua área de vegetação nativa, enquanto em áreas privadas a perda foi de 20,6%. Do total de 69 milhões de hectares desmatados no Brasil nesse período, apenas 1,1 milhão ocorreu em terras indígenas. Outros 47,2 milhões de hectares foram desmatados em áreas privadas.
E há mais: 85,7% das espécies ameaçadas de extinção no Brasil são preservadas em terras indígenas.
“Os dados de satélite não deixam dúvida de que são os povos indígenas que estão freando a destruição da floresta amazônica. Sem seus territórios, a floresta certamente estaria muito mais próxima de seu ponto de inflexão, no qual deixa de fornecer os serviços ambientais dos quais dependem nossa agricultura, indústrias e cidades”, explica Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas.
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Do Xingu ao mundo: a história de Raoni
A história dessa proteção tem rostos e nomes. O mais emblemático é o do cacique Raoni Metuktire, que aos 93 anos continua sendo o símbolo vivo da luta pela Amazônia.
Raoni nasceu em 1932 na aldeia Mebêngôkre, em Mato Grosso. Em 1954, quando tinha aproximadamente 24 anos, o povo Mebêngôkre estabeleceu contato definitivo com os homens brancos. Foi quando encontrou os irmãos Villas Boas, aprendeu português e tomou consciência do mundo não-indígena.
A trajetória de luta começou cedo. Em março de 1984, Raoni liderou um grupo de guerreiros Mẽbêngôkres que interditou a rodovia BR-080, tomou a balsa que fazia a travessia do Xingu e sequestrou funcionários da Funai.
A parceria que mudou tudo
Em 1987, o cantor britânico Sting visitou o Xingu e conheceu Raoni. O roqueiro disse: “Tudo bem, Raoni, eu já entendi. Mas eu não vou ajudar você com meu próprio dinheiro. Vou te ajudar a fazer uma campanha e assim vamos arrecadar os recursos necessários para a demarcação”.
A grande turnê por 17 países em 1989 resultou no desbloqueio de fundos internacionais para a demarcação de terras indígenas brasileiras, bem como na tomada de consciência do público em geral sobre a necessidade de proteger a floresta amazônica e suas populações nativas.
Como resultado, 12 escritórios da Rainforest Foundation foram criados no mundo com o objetivo de recolher fundos para ajudar na criação de um parque nacional na região do Rio Xingu, na Amazônia, com uma superfície de mais ou menos 180 mil km².
Em 1993, uma área tradicionalmente ocupada pelos indígenas, situada entre os estados de Mato Grosso e do Pará, foi demarcada, constituindo uma das maiores reservas florestais tropicais protegidas do planeta.
O território Kayapó: uma barreira contra a destruição
Hoje, o povo Kayapó protege 10,6 milhões de hectares em cinco terras indígenas (Kayapó, Menkragnoti, Baú, Bandjakôre e Capoto-Jarina), um dos maiores trechos de floresta tropical protegida do mundo. Cerca de 8 mil indígenas da etnia Kayapó são responsáveis por esse território imenso.
A conquista não foi fácil. Em 1967, epidemias de gripe e sarampo mataram 30% da população Kayapó Mekrãgnotí. A partir de 1971, a rodovia BR-163 começou a ser construída, rasgando a floresta. Os Kayapó estavam no caminho.
Em 1976, quando a BR-163 foi inaugurada, só 20% da população original da Terra Indígena Baú havia sobrevivido.
Mas os Kayapó resistiram. Em 1989, mais de 700 índios participaram do grande encontro em Altamira para protestar contra o projeto de construção de um complexo hidrelétrico no rio Xingu. O projeto foi abandonado naquele momento.
O conhecimento das mulheres na demarcação
A demarcação da Terra Indígena Menkragnoti aconteceu por causa de uma mulher. Megaron Txucarramãe conta: “O meu tio Raoni foi na aldeia Mekrãgnoti Velho e uma mulher, que nunca havia saído de lá, pediu a ele que ajudasse a demarcar a terra”.
Raoni ficou surpreso e quis saber como aquela mulher que não viajava e tinha pouco ou nenhum contato com o mundo exterior sabia o que era demarcação, entendia a importância de demarcar as terras e fazia este pedido.
A resposta está na conexão profunda que os povos indígenas têm com seus territórios — especialmente as mulheres, que historicamente são as guardiãs das sementes, do plantio e da transmissão do conhecimento.
Dos Kayapó aos Puyanawa: a restauração começa
Se a proteção já seria suficiente para garantir o protagonismo indígena na conservação, agora esses povos vão além: estão recuperando áreas que foram devastadas antes das demarcações. No Acre, o povo Puyanawa lidera o projeto Aliança Reflorestar da Amazônia.
A Terra Indígena Puyanawa, localizada no município de Mâncio Lima, no Vale do Juruá, possui ao todo uma área de 24,5 mil hectares, onde vive uma população de cerca de 750 pessoas distribuídas em duas aldeias.
Invadida por colonizadores seringalistas ainda no início dos anos 1900, essa região foi ativamente explorada pelo ciclo da borracha, e os povos originários tiveram suas terras expropriadas e foram forçados a atuar como mão de obra da extração do látex ao longo de décadas. A demarcação do território só ocorreu em 2001.
A dor da escravidão e o nome roubado
O cacique Joel Puyanawa relata: “Nós fomos um povo detectado aqui em 1905, e em 1910 foi a captura de nossos antepassados. Ficamos escravizados do coronel Mâncio Lima até 1950, quando ele faleceu”.
A jovem Caroline Puyanawa, de 24 anos, estudante de agroecologia, escreveu nas redes sociais: “É óbvio que o coronel Mâncio Lima, o mesmo que por sua miserável crueldade quase dizimou meu povo por inteiro, não ia deixar que nosso povo continuasse a perpetuar sua identidade, sua aparência e seu idioma”.
“Meu nome no registro de nascimento é Caroline Lima da Costa, mas este ‘Lima’ nunca pertenceu a ninguém da minha família, temos essa marca no nosso nome porque todo puyanawa que nascia era como se fosse objeto de pertencimento deste Coronel”.
Só a partir de 2012 os puyanawa passaram a ter o direito de usar esse nome nas certidões de nascimento, e a grande maioria dos cerca de 750 indígenas da etnia ainda não conseguiu efetivar a mudança.
Reflorestando o que foi destruído
Hoje, os Puyanawa estão recuperando o que lhes foi tirado.
Cerca de 5,8% da TI — 1.500 hectares — perdeu a cobertura vegetal original, uma porção de terra que já estava desmatada por fazendeiros que exploraram a região no passado, antes da demarcação do território.
Na Terra Puyanawa, o trabalho está sendo feito em uma área inicial de 9 hectares. Puwe Puyanawa explicou que a meta do projeto é chegar à confecção de 30 mil mudas nesta primeira fase.
O líder indígena Puwe Puyanawa recebeu influenciadores digitais em julho de 2023 para mostrar o trabalho:
“A ideia é a gente demonstrar à comunidade o que podemos fazer em áreas degradadas, e fazer desse lugar um paraíso, para que possa ter muitas frutas, plantas de medicina, madeira de lei, ressaltando nossa ancestralidade de cuidado com a floresta”.
Desde a demarcação em 2001, a taxa média de desmatamento na Terra Indígena Puyanawa se encontra em processo de redução. Nos últimos anos, o projeto afirma que sequer houve novos desmatamentos, “indicando o esforço da comunidade em valorizar a existência de floresta primária”.
Yawanawá: 5 mil mudas em meses
O projeto também chegou ao povo Yawanawá, em Tarauacá. Após meses de trabalho, foi concluída a principal etapa do projeto de reflorestamento na Aldeia Nova Esperança com o plantio de cinco mil mudas de árvores frutíferas, além de espécies pioneiras e de madeira de lei.
No local também foram construídos um viveiro com capacidade para mais de 7 mil mudas e uma sementeira.
A comunidade Yawanawá ainda recebeu treinamento em arborismo para a coleta de sementes no alto das árvores.
O cacique da aldeia Nova Esperança, Isku Kua, agradece: “Esse projeto de reflorestamento é de muito valor. Estamos muito felizes em reaproveitar as áreas para plantar árvores que vão virar frutas para as crianças, para os animais. Somos um povo humilde que vive aqui nesta floresta, mas com muito respeito e com muito amor”.
O reconhecimento da ONU
O modelo desenvolvido pelos Puyanawa chamou atenção internacional. Com o título ‘No coração da Amazônia, um modelo de desenvolvimento que respeita a floresta cria raízes’, a matéria da ONU conta a história do Povo Indígena Puyanawa, que, mesmo após o desmatamento que atinge a Amazônia, conseguiu se reorganizar, retomando as práticas culturais tradicionais, além da produção na agricultura, respeitando a floresta e o meio ambiente.
O território Puyanawa possui 93% de área coberta por florestas, o que representa um importante modelo a ser reproduzido por outras comunidades, que podem alinhar sustentavelmente o uso consciente das terras com o fator econômico, gerando renda e proteção das florestas.
O cacique José Puyanawa enfatiza: “Há um trabalho extra, sim, mas é exatamente para preservar o que é mais sagrado. Se cortarmos uma floresta, ela nunca mais se recuperará”.
A transformação que o mundo não viu
A empreendedora social Kamila Camilo, idealizadora do projeto Creators Academy, observa: “Uma coisa que fica evidente para gente é que os povos da floresta não estão pedindo assistencialismo. As soluções estão ali, eles estão reflorestando. Há 14 anos, o território dos puyanawa era um lugar devastado, e hoje a gente vê uma floresta rica, um chão abundante. A gente precisa fortalecer o trabalho que eles estão fazendo”.
Números da restauração indígena
Projeto Restaura Amazônia (nacional): 19 projetos selecionados vão recuperar mais de 3,3 mil hectares em territórios indígenas, com 5,7 milhões de árvores plantadas e geração de 1.420 empregos. R$ 150 milhões do Fundo Amazônia destinados para restauração em até 137 terras indígenas.
Terra Indígena Puyanawa (Acre):
- Meta de produzir 30 mil mudas na primeira fase do projeto para recuperar 1,5 mil hectares de área desmatada
- 35 mil mudas distribuídas pelo Programa Estadual de Fruticultura, entre frutíferas e florestais
Terra Indígena Yawanawá (Acre):
- 5 mil mudas plantadas, além de viveiro com capacidade para 7 mil mudas
O conhecimento que a academia ignorou
Os indígenas puyanawa têm conhecimento técnico sobre coleta de sementes, estruturação de viveiro de mudas e implementação de sistemas agroflorestais. Esse conhecimento ancestral não é reconhecimento acadêmico é prática milenar testada por gerações.
Pesquisas recentes têm mostrado que os povos indígenas tiveram um papel fundamental na formação da biodiversidade encontrada na América do Sul. Muitas plantas surgiram como produto de técnicas indígenas de manejo da floresta, como a castanheira, a pupunha, o cacau, o babaçu, a mandioca e a araucária.
No caso da castanha-do-pará e da araucária, estas árvores teriam sido distribuídas por uma grande área pelos povos indígenas antes da ocupação europeia no continente.
Agrobiodiversidade: os verdadeiros agricultores
O Alto Rio Negro é um grande centro de diversidade de plantas cultivadas, sendo que o sistema agrícola dos índios dessa região foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil.
A lista dos produtos dessa agrobiodiversidade é bastante extensa: açaí, amendoim, diversas espécies de batata e de pimentas, assim como uma grande quantidade de sementes de milho e feijão, para citar algumas.
O que os dados científicos provam
Um estudo de 2021 divulgado pela Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) e pelo Fundo para Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (Filac) aponta que as taxas de desmatamento são mais baixas em terras indígenas regularizadas.
Os territórios coletivos titulados evitaram, de acordo com o levantamento, entre 42,8 milhões e 59,7 milhões de toneladas métricas de emissões de dióxido de carbono (CO2) a cada ano no Brasil, na Bolívia e na Colômbia, uma quantidade equivalente a tirar de circulação entre 9 milhões e 12,6 milhões de veículos por um ano.
A diferença é gritante
Enquanto o Brasil como um todo enfrenta crise ambiental severa, os territórios indígenas provam que outro caminho é possível:
BRASIL GERAL:
- Entre 1985 e 2022, houve perda de 96 milhões de hectares de vegetação nativa, uma área equivalente a 2,5 vezes a Alemanha
- A proporção de vegetação nativa caiu de 75% para 64%
TERRAS INDÍGENAS:
- Entre 1985 e 2023, as TIs perderam apenas 1% da sua vegetação nativa, enquanto terras privadas perderam 28%
- No período de 1985 a 2022, as terras indígenas perderam menos de 1% de sua área de vegetação, enquanto nos territórios privados essa taxa foi de 17%
O aviso de Raoni aos 90 anos
Em julho de 2023, aos 90 anos, Raoni convocou 700 pessoas para um encontro no Alto Xingu: “Se nós não cuidarmos da nossa terra e de nossas florestas, se deixarmos desmatar tudo, todos vão sofrer com as mudanças climáticas, com o intenso calor e com a poluição do ar”.
“Faz tempo que eu tenho alertado o mundo, mas é preciso continuar alertando vocês. E é por isso que eu chamo todos vocês, lideranças e autoridades, para juntos firmarmos um compromisso em defesa da Terra”.
A fala que resume tudo
A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, destacou em fala recente a líderes internacionais: “Se 82% da biodiversidade do planeta está sob a guarda dos povos indígenas no mundo, é urgente proteger os direitos desses povos. Se os direitos dos povos indígenas no mundo, os modos de vida, estão ameaçados, toda essa biodiversidade está ameaçada. Se essa biodiversidade está ameaçada, portanto, a humanidade inteira está em risco”.
Por que isso importa para você
Os povos indígenas não estão apenas protegendo suas terras, estão protegendo o futuro da humanidade.
Cada hectare de floresta em pé regula o clima, armazena carbono, produz chuva, protege nascentes e abriga espécies que podem conter a cura para doenças ainda desconhecidas.
Quando os Kayapó protegem 10,6 milhões de hectares, quando os Puyanawa replantam 30 mil mudas, quando Raoni viaja o mundo aos 93 anos pedindo ajuda, eles estão salvando não só a Amazônia.
Estão salvando o planeta inteiro. E fazem isso sem depender de governos, sem esperar por políticas públicas, sem precisar de autorização. Fazem porque essa é sua missão ancestral. Porque a floresta não é recurso é lar, é sagrado, é vida.
TERRAS INDÍGENAS EM NÚMEROS
- 109,7 milhões de hectares protegidos (13,9% do território nacional)
- 19,5% de toda a vegetação nativa do Brasil está em TIs
- 1% de perda de vegetação em 30 anos (vs. 20,6% em áreas privadas)
- 85,7% das espécies ameaçadas são preservadas em TIs
- 42,8 a 59,7 milhões de toneladas de CO2 evitadas anualmente
- Equivalente a tirar 9 a 12,6 milhões de veículos de circulação por ano
PROJETOS DE RESTAURAÇÃO
- 137 terras indígenas receberão recursos do Fundo Amazônia
- R$ 150 milhões destinados para restauração
- 5,7 milhões de árvores serão plantadas
- 1.420 empregos gerados pelos projetos
- 30 mil mudas meta dos Puyanawa na primeira fase
- 5 mil mudas já plantadas pelos Yawanawá


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