Resíduos da indústria alimentícia ganham novo destino em Nova Odessa, onde sobras ricas em açúcar e amido passam por fermentação e destilação para virar álcool e etanol usados na operação da Ambipar, em um projeto que une reaproveitamento, biocombustível e economia circular.
Em Nova Odessa, no interior de São Paulo, a Ambipar mantém um projeto que transforma sobras da indústria alimentícia em álcool e etanol para uso em parte de sua própria operação, dentro de uma estratégia voltada à economia circular.
Batizada de Ambiálcool, a iniciativa aproveita resíduos ricos em açúcar e amido, como pães, biscoitos, chocolates, massas e balas, materiais que antes seguiriam para destinações convencionais de descarte após processos industriais ou controle de qualidade.
Por meio de triagem, fermentação e destilação, esses resíduos passam a integrar uma nova cadeia produtiva, com foco no reaproveitamento de materiais orgânicos que ainda conservam potencial energético antes de serem tratados como descarte.
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Segundo dados divulgados pela companhia e por publicações especializadas, mais de 500 toneladas de resíduos alimentares são processadas por mês, com rendimento estimado entre 200 e 350 litros de álcool concentrado por tonelada, conforme a composição do material recebido.
Como restos da indústria alimentícia viram combustível
Antes de ganhar escala, o projeto passou por testes iniciados em 2021, quando a empresa avaliou o aproveitamento de resíduos de açúcar recolhidos no Porto de Santos, uma experiência que serviu como base para ampliar a produção.
A partir desses resultados, a Ambipar passou a utilizar sobras geradas em processos produtivos e no controle de qualidade de indústrias de alimentos, incluindo itens fora do padrão comercial, mas ainda adequados ao processo de conversão.
Na prática, resíduos com maior teor de amido e sacarose apresentam melhor rendimento na produção de álcool, já que a conversão depende da presença de açúcares fermentáveis em concentração suficiente para sustentar o processo industrial.
Esse fator explica a preferência por materiais como chocolates, biscoitos, balas, pães e massas, alimentos que concentram componentes úteis para a fermentação e ajudam a elevar a eficiência da transformação em álcool concentrado.
Desde o início do projeto, a Ambipar já informou a produção de pelo menos 500 mil litros, incluindo versões 46%, destinadas à limpeza, 70%, voltadas à higienização, além do etanol usado como combustível.
Posto em Nova Odessa abastece frota da Ambipar
No complexo operacional da Ambipar em Nova Odessa, o posto ligado ao Ambiálcool foi estruturado para abastecer veículos leves da frota corporativa, criando uma aplicação direta para o combustível produzido a partir dos resíduos alimentares.
Com essa estrutura, a companhia reduz parte da dependência de combustíveis convencionais em sua operação interna e, ao mesmo tempo, dá uso energético a materiais que exigiriam tratamento, transporte ou destinação ambientalmente adequada.
Em sua página institucional, a Ambipar afirma que o posto foi planejado para fornecer cerca de 2 mil litros de etanol por dia à frota interna, dentro de um conjunto de iniciativas ambientais desenvolvidas no município paulista.
Também em Nova Odessa, a empresa diz adotar práticas de valorização de resíduos e redução de envio a aterros, o que aproxima o projeto de outras ações voltadas ao reaproveitamento de materiais em sua operação.
Embora não substitua a produção tradicional de etanol no Brasil, fortemente baseada na cana-de-açúcar, a tecnologia atua em outra frente, ao transformar sobras industriais já existentes em insumo para abastecimento e outros usos.
Nesse modelo, o foco não está no cultivo adicional de matéria-prima, mas no aproveitamento de resíduos que já passaram por cadeias produtivas e ainda conservam valor antes de sua destinação final.
Economia circular aplicada aos biocombustíveis
A Ambipar apresenta o Ambiálcool como uma solução de economia circular porque reinsere resíduos industriais em uma nova cadeia de valor, em vez de tratar sobras alimentares apenas como passivo ambiental sem aproveitamento produtivo.
Ao transformar parte desse volume em álcool para limpeza, higienização e abastecimento, o processo amplia as possibilidades de uso de materiais descartados e cria uma alternativa operacional para resíduos da indústria de alimentos.
Esse modelo também pode ajudar a reduzir custos associados à destinação de resíduos, embora o impacto varie conforme logística, composição do material, escala de produção e demanda interna da própria companhia.
Por essa razão, a iniciativa funciona como um projeto de reaproveitamento com aplicação direta na operação da Ambipar, sem depender, até agora, de venda ampla do combustível ao consumidor comum em postos convencionais.
A proposta recebeu reconhecimento internacional no Green Product Award 2025, premiação voltada a produtos, serviços e conceitos sustentáveis, com destaque para soluções que apresentam aplicação prática em sustentabilidade.
De acordo com a página institucional da Ambipar COP, o Ambiálcool foi premiado em Berlim, na Alemanha, enquanto a CNN Brasil registrou que o projeto venceu na categoria Audiência.
Produção de etanol depende da composição dos resíduos
Apesar do rendimento máximo informado, a produção de até 350 litros por tonelada não se aplica a qualquer tipo de sobra alimentícia, pois a eficiência depende diretamente da composição química do material recebido.
A estimativa está vinculada a resíduos com alto teor de açúcar, especialmente quando há concentração elevada de sólidos solúveis, condição considerada relevante para o processo fermentativo usado na obtenção do álcool.
Por isso, a seleção das matérias-primas ocupa uma etapa central da operação, já que resíduos com menor presença de açúcar ou amido tendem a oferecer menor aproveitamento na produção industrial.
Quando a concentração desses componentes é maior, o desempenho do processo melhora e permite converter sobras alimentares em álcool com rendimento mais próximo do limite superior divulgado pela empresa.
A operação envolve ainda marcas parceiras na coleta de resíduos alimentares, segundo a Ambipar COP, que cita empresas como Mondelez e Bunge entre as fornecedoras de material reaproveitado.
Essa conexão com grandes indústrias ajuda a integrar o ciclo de recuperação de resíduos à rotina de produção alimentícia, criando uma destinação para materiais que não chegam ao consumidor final, mas ainda podem gerar valor.
Além do abastecimento da frota, o projeto reforça uma discussão mais ampla sobre o uso de resíduos urbanos e industriais como insumo energético, especialmente em processos que aproveitam materiais já disponíveis.
No caso do Ambiálcool, o diferencial está no uso de sobras alimentares existentes, sem necessidade de cultivo adicional de matéria-prima e com aplicação restrita à operação da Ambipar e a seus processos associados.

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