Com 825 metros de extensão e 90 metros de altura sobre um reservatório artificial, a Ponte Senqu é a maior das três estruturas do megaprojeto hídrico que vai abastecer milhões de pessoas na África do Sul e no Lesoto — e será inaugurada em 22 de abril de 2026
Em poucos dias, dois países africanos vão inaugurar uma ponte que não deveria existir — pelo menos não no sentido convencional.
A Ponte Senqu, com 825 metros de comprimento e suspensa a 90 metros de altura, foi construída sobre um reservatório que ainda está sendo preenchido com água.
Ela faz parte da Fase II do Lesotho Highlands Water Project (LHWP), um megaprojeto hídrico binacional que conecta a África do Sul e o Lesoto.
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A inauguração está marcada para 22 de abril de 2026, no Distrito de Mokhotlong, nas montanhas do Lesoto — uma região conhecida como o “Telhado da África” por suas altitudes superiores a 2.000 metros.
Para ter uma ideia da escala, 825 metros é quase a distância de 8 campos de futebol enfileirados, suspensa a uma altura equivalente a um prédio de 30 andares.

O que é o Lesotho Highlands Water Project
O LHWP é um dos maiores projetos de transferência de água entre países da África — e um dos mais ambiciosos do mundo.
Ele capta água nas montanhas do Lesoto — um pequeno país completamente encravado dentro da África do Sul — e a transporta por túneis e canais até a região de Gauteng, onde ficam Joanesburgo e Pretória.
Gauteng concentra mais de 16 milhões de habitantes e é o coração econômico da África do Sul.
Contudo, a região é naturalmente seca e depende de fontes externas de água para abastecer sua população crescente e sua indústria.
A Fase I do LHWP foi concluída décadas atrás, com barragens e túneis que já transferem bilhões de litros.
Agora, a Fase II está em plena execução, com novas barragens, túneis de transferência e três grandes pontes — das quais a Senqu é a maior e mais impressionante.
Por que uma ponte sobre um reservatório em construção
Quando a barragem da Fase II estiver completa e o reservatório cheio, vales inteiros serão inundados.
Estradas que hoje conectam comunidades rurais no Lesoto serão submersas pela água.
Sem as pontes, moradores da região de Mokhotlong ficariam completamente isolados — sem acesso a hospitais, escolas e mercados.
Portanto, as três pontes do projeto não são luxo de engenharia — são infraestrutura vital de sobrevivência para comunidades que vivem nas montanhas.
A Ponte Senqu é a maior das três justamente porque cruza o ponto mais largo do reservatório, onde a distância entre as margens é maior.
825 metros e 90 metros — para visualizar o tamanho
A Ponte Senqu tem 825 metros de comprimento — quase a distância percorrida por um atleta olímpico nos 800 metros rasos.
Sua altura de 90 metros supera a da Ponte Rio-Niterói no seu vão central (72 metros).
Além disso, ela fica a mais de 2.000 metros de altitude, nas montanhas do Lesoto.
A combinação de extensão, altura e altitude tornou a construção extremamente desafiadora — os materiais precisaram ser transportados por estradas de montanha sinuosas e íngremes, e os trabalhadores enfrentaram temperaturas abaixo de zero durante o inverno austral.
Para comparação com o Brasil, a maior ponte estaiada do país — a Ponte Salvador-Itaparica em construção — terá 12 km mas sobre o mar ao nível do solo. A Senqu é menor em extensão, mas 90 metros mais alta e em terreno infinitamente mais hostil.

Milhões de pessoas dependem dessa água
A região de Gauteng não apenas é a mais populosa — é também a mais economicamente importante da África do Sul.
Joanesburgo é o centro financeiro do continente africano.
Pretória é a capital administrativa do país.
Juntas, essas cidades e seus arredores abrigam mais de 16 milhões de habitantes em crescimento constante.
Contudo, a região depende fundamentalmente de água transferida de fontes externas para suprir a demanda crescente de residências, indústrias e agricultura.
O LHWP é a principal fonte externa de água para Gauteng.
Dessa forma, a conclusão da Fase II — incluindo pontes como a Senqu — não é apenas infraestrutura viária.
É a garantia de abastecimento hídrico para uma das maiores metrópoles de todo o continente africano e para milhões de pessoas que dependem dessa água no dia a dia.
Dois países, um projeto — como funciona a cooperação
O LHWP é um modelo raro de cooperação binacional em infraestrutura hídrica.
O Lesoto fornece a água — suas montanhas recebem chuvas abundantes e alimentam rios caudalosos.
A África do Sul financia a maior parte da infraestrutura e recebe a água transferida.
Em troca, o Lesoto recebe royalties pela água exportada, que representam uma parcela significativa da receita do pequeno país montanhoso.
Portanto, a Ponte Senqu simboliza mais do que engenharia — simboliza uma parceria entre nações para resolver um problema que nenhuma delas conseguiria resolver sozinha.

Ressalvas
O LHWP enfrenta críticas históricas sobre impactos ambientais e reassentamento forçado de comunidades que viviam nos vales que serão inundados.
Além disso, o cronograma da Fase II sofreu atrasos em diversas etapas ao longo dos anos de construção.
A inauguração da Ponte Senqu é um marco positivo, mas o megaprojeto como um todo ainda tem anos de obras pela frente antes de estar plenamente operacional.
Questões sobre compensação adequada às comunidades deslocadas e sobre o impacto ambiental nos ecossistemas de montanha do Lesoto continuam sendo debatidas.
Ainda assim, a escala da engenharia — uma ponte de 825 metros a 90 metros de altura nas montanhas da África, construída em terreno hostil para garantir água a 16 milhões de pessoas — demonstra o que é possível quando dois países cooperam para resolver um problema que afeta milhões de vidas.
