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Poeira de Marte, amido de batata e uma pitada de sal viram “concreto espacial” duas vezes mais resistente que o comum em pesquisa que pode mudar a construção de bases fora da Terra

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 13/06/2026 às 13:48
Assista o vídeoMaterial chamado StarCrete usa poeira simulada de Marte, amido de batata e sal, alcança 72 MPa e supera a resistência do concreto convencional.
StarCrete usa poeira simulada de Marte – Divulgação
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Material chamado StarCrete usa poeira simulada de Marte, amido de batata e sal, alcança 72 MPa e supera a resistência do concreto convencional.

Quando se fala em construir casas, estradas e estruturas em Marte, o maior desafio não é apenas chegar ao planeta vermelho, mas descobrir como erguer tudo isso sem levar da Terra toneladas de cimento, aço e equipamentos pesados. Foi tentando resolver esse problema que pesquisadores da University of Manchester desenvolveram o StarCrete, um material feito com poeira simulada de Marte, amido de batata e pequenas quantidades de sal.

Segundo a University of Manchester e o artigo publicado na Open Engineering, o material atingiu 72 MPa de resistência à compressão, acima dos 32 MPa citados como referência para concreto convencional. Nos testes com simulante de solo lunar, o resultado foi ainda maior, chegando a 91,7 MPa.

StarCrete nasceu para resolver o maior gargalo da construção em Marte

Levar materiais de construção para Marte é uma operação extremamente cara e complexa. Cada quilo lançado ao espaço exige combustível, suporte logístico e uma cadeia de transporte que eleva o custo da missão. Por isso, a construção fora da Terra depende da lógica de usar o que já existe no próprio ambiente de destino.

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No caso marciano, o recurso mais abundante é o regolito, a camada de poeira e fragmentos rochosos que cobre a superfície do planeta. O avanço do StarCrete está justamente em mostrar que esse material pode virar uma espécie de compósito estrutural resistente usando um ligante simples e de baixo consumo energético.

A proposta chamou atenção porque foge de soluções industriais muito pesadas. Em vez de depender de grandes fornos, cimento Portland ou processos sofisticados de sinterização, o estudo seguiu por um caminho muito mais simples, baseado em recursos que poderiam ser produzidos ou encontrados durante uma missão humana prolongada.

Amido de batata virou o ligante que deu resistência ao material marciano

O ponto central da pesquisa foi demonstrar que o amido comum pode atuar como ligante quando misturado ao solo marciano simulado. De acordo com o artigo da Open Engineering, esse amido permitiu produzir um biocompósito estrutural de alta resistência, capaz de superar várias outras soluções já propostas para construção fora da Terra.

Material chamado StarCrete usa poeira simulada de Marte, amido de batata e sal, alcança 72 MPa e supera a resistência do concreto convencional.
Dr Aled Roberts StarCrete resposnsavel pela criação do StarCrete – Reprodução

Além do amido, os pesquisadores adicionaram cloreto de magnésio, um sal que também pode ser obtido em Marte. A combinação melhorou a resistência do composto e reforçou a viabilidade do material como alternativa prática para futuras missões espaciais.

O resultado foi um material com aparência e função próximas às de um tijolo ou concreto estrutural leve. A diferença é que ele nasce de uma lógica muito mais adaptada à exploração espacial, onde simplicidade, baixo consumo de energia e aproveitamento local dos recursos fazem toda a diferença.

Resistência do StarCrete colocou o material acima do concreto comum

A resistência à compressão foi um dos resultados que mais chamaram atenção no trabalho. Segundo a University of Manchester, o StarCrete produzido com simulante de regolito marciano alcançou 72 MPa, mais que o dobro da referência de 32 MPa usada para concretos convencionais em diversas aplicações.

No artigo da Open Engineering, os autores detalham que, após otimização, o StarCrete marciano chegou a 72,0 MPa e a versão lunar a 91,7 MPa, entrando claramente no intervalo de materiais de alta resistência. O estudo também informa que a resistência à flexão do material marciano ficou em 8,4 MPa, valor comparável ou superior ao de muitos concretos comuns.

Material chamado StarCrete usa poeira simulada de Marte, amido de batata e sal, alcança 72 MPa e supera a resistência do concreto convencional.
StarCrete usa poeira simulada de Marte – Divulgação

Esses números são relevantes porque indicam que o material não é apenas uma curiosidade laboratorial. Ele já aparece em uma faixa de desempenho que interessa tanto para estruturas extraterrestres quanto para debates sobre materiais alternativos de construção na Terra.

Um saco de batatas pode render mais de 200 tijolos de StarCrete

Outro dado que ganhou destaque na divulgação da pesquisa foi a relação entre alimento e construção. Segundo a University of Manchester, um saco de 25 kg de batatas desidratadas contém amido suficiente para gerar quase meia tonelada de StarCrete, o equivalente a mais de 213 tijolos.

Esse cálculo é importante porque futuras missões humanas de longa duração provavelmente já terão sistemas agrícolas para produzir comida. Nesse cenário, parte da matéria-prima usada para alimentar astronautas também poderia abastecer a produção de materiais de construção, integrando duas necessidades críticas da colonização espacial.

A lógica torna o StarCrete especialmente atraente para missões em Marte. Em vez de levar grandes estoques de materiais prontos da Terra, a missão poderia usar o solo local e combinar isso com recursos produzidos no próprio habitat.

Pesquisa substituiu material biológico por uma solução muito mais realista

O StarCrete também representou uma evolução em relação a uma tentativa anterior da mesma equipe. Antes do amido de batata, os pesquisadores haviam produzido um material usando sangue e ureia, que chegou a cerca de 40 MPa de resistência à compressão.

Apesar do resultado mecânico razoável, essa alternativa tinha uma limitação evidente: depender de material biológico humano de forma recorrente em um ambiente hostil como Marte não era uma solução prática. Foi justamente por isso que o grupo passou a buscar um ligante mais simples, renovável e compatível com sistemas de suporte à vida já previstos para missões tripuladas.

A troca pelo amido de batata tornou a proposta muito mais plausível. Em vez de um experimento extremo, o projeto passou a apontar para uma rota mais concreta de uso real em habitats e estruturas extraterrestres.

StarCrete também entra na discussão sobre construção sustentável na Terra

Embora o objetivo inicial da pesquisa seja a construção fora do planeta, os próprios pesquisadores destacam que o material pode ter aplicações terrestres. Segundo a University of Manchester, o StarCrete pode surgir como alternativa potencialmente mais sustentável em certas situações porque não depende dos processos industriais de altíssima temperatura usados na fabricação do cimento tradicional.

A universidade também lembra que cimento e concreto respondem por cerca de 8% das emissões globais de dióxido de carbono. Nesse contexto, qualquer tecnologia capaz de reduzir energia de produção e abrir novas rotas de fabricação de materiais estruturais passa a ter interesse imediato para a construção civil.

Ainda existem desafios importantes, como durabilidade de longo prazo, comportamento em ambientes úmidos e escalabilidade industrial. Mesmo assim, o StarCrete já deixou claro que uma das respostas para a construção do futuro pode nascer de ingredientes muito mais simples do que o imaginado.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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