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Pesquisadores enviaram um submarino autônomo ao fundo do Mar Negro e encontraram um rio verdadeiro correndo a 35 metros abaixo da superfície do mar, com 22.000 metros cúbicos por segundo, cachoeiras e margens, 350 vezes maior que o fluxo do Rio Tâmisa, formado por água do Mediterrâneo tão densa que afunda e corre pelo fundo como um rio em terra firme

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 25/03/2026 às 17:30
Assista o vídeoPesquisadores enviaram um submarino autônomo ao fundo do Mar Negro e encontraram um rio verdadeiro correndo a 35 metros abaixo da superfície do mar, com 22.000 metros cúbicos por segundo, cachoeiras e margens, 350 vezes maior que o fluxo do Rio Tâmisa, formado por água do Mediterrâneo tão densa que afunda e corre pelo fundo como um rio em terra firme
Submarino autônomo revela rio no fundo do Mar Negro com 22.000 m³/s, cachoeiras e fluxo ativo moldado por diferenças de densidade.
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Submarino autônomo revela rio no fundo do Mar Negro com 22.000 m³/s, cachoeiras e fluxo ativo moldado por diferenças de densidade.

Os fundos oceânicos escondem canais que geólogos vinham mapeando por décadas com sonar. O que ninguém havia conseguido confirmar era uma pergunta simples: esses canais têm água fluindo de verdade, como um rio em terra ou são apenas sulcos estáticos no sedimento? Em 2010, uma equipe da Universidade de Leeds liderada pelos pesquisadores Dan Parsons e Jeff Peakall enviou um submarino autônomo ao fundo do Mar Negro para responder essa pergunta de frente. O que eles encontraram foi um rio de verdade: com margens, planícies de inundação, cachoeiras e um fluxo de 22.000 metros cúbicos de água por segundo, 350 vezes o volume do Rio Tâmisa.

Rio no fundo do mar: o canal submarino do Mar Negro que intrigava geólogos

Geólogos marinhos vinham mapeando o leito do Mar Negro com sonar desde os anos 1990. Os dados revelavam um canal longo, com bordas bem definidas, que se originava no Estreito do Bósforo e se estendia por dezenas de quilômetros rumo às regiões mais profundas.

A forma estava claramente identificada, mas havia uma lacuna essencial. Os mapas não indicavam se havia fluxo ativo dentro desse canal ou se ele era apenas um vestígio geológico de processos antigos já encerrados.

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Essa distinção é crítica. Um canal ativo transporta sedimentos, redistribui nutrientes, altera continuamente o relevo do fundo oceânico e pode representar riscos para estruturas submarinas. Um canal inativo, por outro lado, é apenas uma feição geológica estática.

Responder a essa pergunta exigia medições diretas no interior do canal, algo que só se tornou possível com o avanço dos veículos submarinos autônomos.

Como funciona um rio submarino: densidade da água e correntes no fundo do oceano

A ideia de um rio correndo no fundo do mar parece contraditória, mas é explicada por diferenças físicas fundamentais entre massas de água.

A água que entra no Mar Negro pelo Estreito do Bósforo vem do Mediterrâneo e possui salinidade muito maior. Já o Mar Negro recebe grande volume de água doce de rios continentais, resultando em menor salinidade.

Essa diferença cria um gradiente de densidade. A água mediterrânea, mais salgada e mais pesada, afunda ao entrar no Mar Negro. Ao descer pela inclinação do relevo submarino, passa a fluir como uma corrente de fundo, mantendo sua estrutura e velocidade.

Esse fluxo forma canais, erode margens, cria curvas e até cachoeiras submarinas. O comportamento é análogo ao de um rio em terra firme, mas ocorre dentro de outro fluido.

O submarino autônomo que confirmou o rio no fundo do Mar Negro

O equipamento responsável pela descoberta foi o Autosub3, um veículo subaquático autônomo de aproximadamente 7 metros, desenvolvido pelo Natural Environment Research Council do Reino Unido.

Programado para operar sem conexão direta com a superfície, o submarino foi enviado para navegar poucos metros acima do canal, coletando dados detalhados de velocidade, direção e salinidade da corrente.

Antes dessa missão, o conhecimento sobre o canal era baseado apenas em imagens de sonar. O Autosub3 permitiu, pela primeira vez, medir diretamente o fluxo interno.

Os dados revelaram velocidades de até 1,2 metros por segundo e um fluxo total de 22.000 metros cúbicos por segundo. O canal apresentava margens bem definidas, com profundidade de até 35 metros e largura aproximada de 1 quilômetro, estendendo-se por cerca de 60 quilômetros antes de se dissipar em áreas mais profundas.

O que o rio submarino transporta: sedimentos e nutrientes no fundo oceânico

A corrente do canal não transporta apenas água salgada. Ela carrega grandes volumes de sedimentos, incluindo areia, lama e matéria orgânica.

Esse transporte tem impacto direto nos ecossistemas marinhos profundos. As planícies abissais, caracterizadas por baixa disponibilidade de nutrientes, recebem material orgânico através desses fluxos, sustentando formas de vida que dependem dessa entrada de energia.

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Além disso, o mecanismo ajuda a explicar a formação de grandes sistemas de canais submarinos em outras regiões do planeta, como os associados à foz do Rio Amazonas, que se estendem por centenas de quilômetros no oceano Atlântico.

Origem do rio submarino: 7.500 anos de fluxo contínuo no Mar Negro

O rio submarino do Mar Negro existe há aproximadamente 7.500 anos. Sua formação está diretamente ligada ao aumento do nível do Mediterrâneo após o fim da última glaciação.

Quando o nível do mar subiu, o Mediterrâneo passou a transbordar pelo Estreito do Bósforo, estabelecendo uma conexão permanente com o Mar Negro, que anteriormente era um lago de água doce.

Esse evento criou um sistema de circulação em duas camadas: água doce fluindo na superfície em direção ao Mediterrâneo e água salgada entrando pelo fundo em direção ao Mar Negro. Ao longo de milênios, esse fluxo contínuo esculpiu o canal submarino, criando margens definidas e estruturas semelhantes às de rios terrestres.

Diferenças entre rios terrestres e rios submarinos: dinâmica de fluxo e sedimentação

Apesar das semelhanças estruturais, o comportamento físico de um rio submarino difere significativamente de um rio em terra.

No ambiente subaquático, o fluxo ocorre dentro de outro fluido, o que altera a dinâmica das correntes. Nas curvas, por exemplo, a distribuição de velocidade se inverte em relação aos rios terrestres, com maiores velocidades próximas ao leito.

Além disso, não há influência direta de chuva, evaporação ou variações sazonais, tornando o fluxo muito mais estável ao longo do tempo.

Impacto na indústria de petróleo e gás: riscos e planejamento submarino

A descoberta tem implicações diretas para a indústria de petróleo e gás em águas profundas. Canais submarinos são responsáveis pelo transporte de sedimentos que, ao longo de milhões de anos, formam reservatórios de hidrocarbonetos. No entanto, correntes ativas podem comprometer estruturas como dutos, ancoragens e plataformas.

Os dados coletados pelo Autosub3 permitiram o desenvolvimento de modelos tridimensionais mais precisos, hoje utilizados no planejamento de engenharia submarina em diversos projetos ao redor do mundo.

O canal do Mar Negro representa apenas uma pequena amostra de um sistema muito maior. Atualmente, cerca de 74% do fundo oceânico ainda não foi mapeado com resolução suficiente para identificar estruturas semelhantes. Isso indica que rios submarinos podem existir em diversas regiões ainda desconhecidas.

O canal do Mar Negro foi confirmado como ativo não por ser o maior, mas por estar em uma área acessível para exploração com tecnologia disponível.

O papel do Estreito do Bósforo na formação do rio submarino

O Estreito do Bósforo funciona como um sistema de controle hidrodinâmico entre o Mar Negro e o Mediterrâneo.

Com aproximadamente 31 quilômetros de extensão, ele sustenta um fluxo bidirecional: água doce na superfície em direção ao Mediterrâneo e água salgada no fundo em direção ao Mar Negro.

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Esse fluxo profundo mantém sua identidade ao entrar no Mar Negro, formando o canal submarino antes de se misturar lentamente com as águas circundantes.

A separação entre as massas de água é mantida por diferenças de densidade causadas pela salinidade. A água mediterrânea, mais densa, permanece no fundo, fluindo como um corpo distinto. A mistura com a água do Mar Negro ocorre apenas nas bordas do canal e de forma gradual.

Esse fenômeno é conhecido como underflow, ou corrente de fundo, e é fundamental para a estabilidade do sistema.

Correntes submarinas e física oceânica: o fenômeno das correntes de turbidez

O processo é classificado como corrente de turbidez ou corrente de gravidade subaquática. A maior densidade da água, combinada com sedimentos transportados, mantém o fluxo aderido ao leito e acelera sua movimentação em áreas inclinadas.

Quando o canal atinge regiões mais profundas, o material transportado se deposita, formando estruturas conhecidas como leques submarinos.

A descoberta no Mar Negro ampliou a interpretação de formações geológicas fora da Terra. Marte apresenta canais extensos cuja origem ainda é debatida. A física das correntes de densidade oferece uma explicação alternativa para parte dessas estruturas.

Em Titã, lua de Saturno, há canais formados por metano líquido. Em Europa, lua de Júpiter, um oceano subterrâneo pode abrigar correntes semelhantes. Esses ambientes sugerem que o fenômeno observado no Mar Negro pode ser comum em outros corpos celestes.

Após a missão inicial de 2010, novas expedições foram realizadas em 2013 com múltiplas embarcações de pesquisa, aprofundando o entendimento da estrutura do canal, do transporte de sedimentos e da vida marinha associada.

Uma das descobertas mais relevantes foi a presença de comunidades biológicas adaptadas às condições específicas do fluxo salino e denso.

O Mar Negro permanece como um dos principais laboratórios naturais para o estudo de correntes submarinas, oferecendo pistas sobre processos que moldam o fundo dos oceanos em escala global e que ainda estão longe de serem completamente compreendidos.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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