Pesquisadores brasileiros da Universidade de Caxias do Sul, em parceria com a empresa Zextec, desenvolveram o Autofisio 500, um equipamento de cinesioterapia que reproduz automaticamente os movimentos da caminhada em pacientes acamados. O projeto levou cinco anos para ser concluído e foi viabilizado por um edital de tecnologia assistiva da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), no valor de R$ 3.019.200. Até o momento, não há equipamento semelhante no mercado.
A Universidade de Caxias do Sul recebeu em fevereiro de 2026 o resultado concreto desse trabalho: dez unidades do Autofisio 500 foram produzidas, oito delas já alocadas na Clínica de Fisioterapia da UCS, no Bloco 70 do Campus-Sede. As outras duas ainda passam por validação junto ao Inmetro.
A ideia do equipamento nasceu da experiência clínica do Dr. Alexandre Avino, diretor técnico do Hospital Geral e integrante da equipe de desenvolvimento do projeto. Como cirurgião, Avino acompanhava de perto a realidade de pacientes internados por longos períodos em UTIs. Segundo ele, esses pacientes recebem grande volume de líquido para ressuscitação clínica, ficam inchados e permanecem imobilizados. Somado a isso, as equipes de enfermagem e fisioterapia precisam reposicionar esses pacientes a cada duas horas para evitar lesões. Foi a partir dessa vivência que surgiu a proposta de um equipamento capaz de realizar movimentação passiva de forma automatizada.
O que acontece com o corpo de um paciente imobilizado na UTI

A Unidade de Terapia Intensiva é a ala hospitalar de maior complexidade, destinada a pacientes em estado grave que precisam de monitoramento constante. Quando o paciente está sedado ou imobilizado, um dos maiores problemas é a perda acelerada de massa muscular. Em poucos dias, o corpo começa a enfraquecer de forma significativa: os músculos atrofiam, a circulação fica comprometida e funções básicas do organismo começam a deteriorar. Esse processo dificulta a recuperação e, em muitos casos, prolonga a internação por semanas.
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A literatura médica já demonstra há anos que a mobilização precoce de pacientes internados em UTIs traz benefícios mensuráveis. Pacientes que recebem estímulos motores regulares durante a internação apresentam menor perda de massa muscular, menor incidência de complicações respiratórias e alta hospitalar mais rápida. O problema é que, na prática, garantir essa mobilização depende de profissionais disponíveis e de equipamentos adequados — dois recursos que faltam na maioria das UTIs públicas do Brasil.
Como funciona o Autofisio 500

O Autofisio 500 é um equipamento de cinesioterapia desenvolvido para reproduzir automaticamente os movimentos naturais da caminhada nas pernas de pacientes acamados. O aparelho é posicionado junto ao leito e conectado aos membros inferiores do paciente, realizando movimentos contínuos e controlados que simulam o ato de caminhar.
Esse estímulo mecânico mantém a musculatura ativa, favorece a circulação sanguínea e preserva funções motoras básicas durante o período em que o paciente não consegue se movimentar sozinho. O equipamento não exige nenhum esforço do paciente, o que o torna adequado para casos de sedação profunda, pós-operatório delicado e situações em que qualquer movimento voluntário é impossível.
O aparelho funciona de forma autônoma, podendo operar por períodos prolongados sem necessidade de supervisão constante de um fisioterapeuta. Isso libera a equipe de fisioterapia para atender outros pacientes, otimizando o atendimento em UTIs com equipe reduzida.
O equipamento já está em uso

O Autofisio 500 já é utilizado nas atividades acadêmicas da fisioterapeuta Fernanda Trubíán, que atuou como bolsista no projeto, concluiu o mestrado no Programa em Ciências da Saúde (PPGCS) da UCS e atualmente faz o doutorado.
A aplicação é feita em pacientes com sequelas neurológicas, patologias ou algum tipo de lesão cerebral no Hospital Geral. As sessões variam entre 15 e 30 minutos, conforme a quantidade de membros acometidos. Segundo Fernanda, os relatos dos pacientes apontam uma percepção de melhora instantânea ao caminhar após o uso do aparelho. Ela destaca ainda que muitos pacientes com lesão cerebral são idosos que ficam sozinhos em casa e não conseguem realizar esse tipo de movimentação sem auxílio. Para esses casos, o equipamento pode ser ainda mais transformador — e Fernanda projeta que, futuramente, o Autofisio poderá chegar à casa das pessoas.
A equipe por trás do projeto
O desenvolvimento do Autofisio 500 contou com uma equipe multidisciplinar. A coordenação foi do Dr. Alexandre Avino, com a participação do professor de Engenharia Mecânica Alexandre Viecelli, do coordenador de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Agência de Inovação da UCS (UCSiNOVA), Matheus Parmegiani Jahn, e da coordenadora do curso de Fisioterapia, Katiúcia Pezzi Corlatti. Três bolsistas também contribuíram no projeto. A parceria com a empresa Zextec foi fundamental para a produção do equipamento.
Na solenidade de entrega dos aparelhos, o reitor da UCS, professor Gelson Leonardo Rech, destacou que o conceito de inovação da universidade é fruto da pesquisa e da ciência. Também participaram da cerimônia a pró-reitora de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico, Neide Pessin, e representantes da Zextec.
Próximos passos: do Inmetro ao Ministério
Finalizada a validação das duas unidades restantes junto ao Inmetro, o case de produção do Autofisio 500 será apresentado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Concluída essa etapa, o equipamento estará disponível para uso em hospitais.
Num país onde a saúde pública convive com limitações orçamentárias crônicas, um equipamento inédito no mercado, desenvolvido por pesquisadores brasileiros com financiamento público, representa mais do que inovação tecnológica. É a demonstração de que soluções para problemas reais da saúde podem nascer dentro das universidades brasileiras, com inteligência, foco e conhecimento aplicado.
E você, o que pensa sobre essa invenção?

Maravilhoso. Nosso país precisa incentivar pesquisas na área de saúde que possibilitem resultados eficientes para atendimento pelo sistema público às pessoas que não dispõem de muitos recursos. Parabéns à equipe que criou tal equipamento.
Eu gostaria de saber se este equipamento serve para quem está com paralisia dos membros inferiores devido a doença conhecida como Mielite Transversa.
Há algum trabalho científico em que o aparelho foi testado ?