1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Pesquisadores brasileiros da Universidade de Caxias do Sul desenvolvem o Autofisio 500, equipamento inédito de cinesioterapia para pacientes acamados
Tempo de leitura 5 min de leitura Comentários 7 comentários

Pesquisadores brasileiros da Universidade de Caxias do Sul desenvolvem o Autofisio 500, equipamento inédito de cinesioterapia para pacientes acamados

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 23/03/2026 às 21:27
Atualizado em 27/03/2026 às 23:52
Pesquisadores brasileiros criaram o Autofisio 500, que simula a caminhada em pacientes na UTI e custa 10 vezes menos. Equipamento pode ser incluído no SUS.
Pesquisadores brasileiros criaram o Autofisio 500, que simula a caminhada em pacientes na UTI e custa 10 vezes menos. Equipamento pode ser incluído no SUS. (FOTO: BRUNO ZULIAN)
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
226 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Pesquisadores brasileiros da Universidade de Caxias do Sul, em parceria com a empresa Zextec, desenvolveram o Autofisio 500, um equipamento de cinesioterapia que reproduz automaticamente os movimentos da caminhada em pacientes acamados. O projeto levou cinco anos para ser concluído e foi viabilizado por um edital de tecnologia assistiva da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), no valor de R$ 3.019.200. Até o momento, não há equipamento semelhante no mercado.

A Universidade de Caxias do Sul recebeu em fevereiro de 2026 o resultado concreto desse trabalho: dez unidades do Autofisio 500 foram produzidas, oito delas já alocadas na Clínica de Fisioterapia da UCS, no Bloco 70 do Campus-Sede. As outras duas ainda passam por validação junto ao Inmetro.

A ideia do equipamento nasceu da experiência clínica do Dr. Alexandre Avino, diretor técnico do Hospital Geral e integrante da equipe de desenvolvimento do projeto. Como cirurgião, Avino acompanhava de perto a realidade de pacientes internados por longos períodos em UTIs. Segundo ele, esses pacientes recebem grande volume de líquido para ressuscitação clínica, ficam inchados e permanecem imobilizados. Somado a isso, as equipes de enfermagem e fisioterapia precisam reposicionar esses pacientes a cada duas horas para evitar lesões. Foi a partir dessa vivência que surgiu a proposta de um equipamento capaz de realizar movimentação passiva de forma automatizada.

O que acontece com o corpo de um paciente imobilizado na UTI

A Unidade de Terapia Intensiva é a ala hospitalar de maior complexidade, destinada a pacientes em estado grave que precisam de monitoramento constante. Quando o paciente está sedado ou imobilizado, um dos maiores problemas é a perda acelerada de massa muscular. Em poucos dias, o corpo começa a enfraquecer de forma significativa: os músculos atrofiam, a circulação fica comprometida e funções básicas do organismo começam a deteriorar. Esse processo dificulta a recuperação e, em muitos casos, prolonga a internação por semanas.

A literatura médica já demonstra há anos que a mobilização precoce de pacientes internados em UTIs traz benefícios mensuráveis. Pacientes que recebem estímulos motores regulares durante a internação apresentam menor perda de massa muscular, menor incidência de complicações respiratórias e alta hospitalar mais rápida. O problema é que, na prática, garantir essa mobilização depende de profissionais disponíveis e de equipamentos adequados — dois recursos que faltam na maioria das UTIs públicas do Brasil.

Como funciona o Autofisio 500

O Autofisio 500 é um equipamento de cinesioterapia desenvolvido para reproduzir automaticamente os movimentos naturais da caminhada nas pernas de pacientes acamados. O aparelho é posicionado junto ao leito e conectado aos membros inferiores do paciente, realizando movimentos contínuos e controlados que simulam o ato de caminhar.

Esse estímulo mecânico mantém a musculatura ativa, favorece a circulação sanguínea e preserva funções motoras básicas durante o período em que o paciente não consegue se movimentar sozinho. O equipamento não exige nenhum esforço do paciente, o que o torna adequado para casos de sedação profunda, pós-operatório delicado e situações em que qualquer movimento voluntário é impossível.

O aparelho funciona de forma autônoma, podendo operar por períodos prolongados sem necessidade de supervisão constante de um fisioterapeuta. Isso libera a equipe de fisioterapia para atender outros pacientes, otimizando o atendimento em UTIs com equipe reduzida.

O equipamento já está em uso

O Autofisio 500 já é utilizado nas atividades acadêmicas da fisioterapeuta Fernanda Trubíán, que atuou como bolsista no projeto, concluiu o mestrado no Programa em Ciências da Saúde (PPGCS) da UCS e atualmente faz o doutorado.

A aplicação é feita em pacientes com sequelas neurológicas, patologias ou algum tipo de lesão cerebral no Hospital Geral. As sessões variam entre 15 e 30 minutos, conforme a quantidade de membros acometidos. Segundo Fernanda, os relatos dos pacientes apontam uma percepção de melhora instantânea ao caminhar após o uso do aparelho. Ela destaca ainda que muitos pacientes com lesão cerebral são idosos que ficam sozinhos em casa e não conseguem realizar esse tipo de movimentação sem auxílio. Para esses casos, o equipamento pode ser ainda mais transformador — e Fernanda projeta que, futuramente, o Autofisio poderá chegar à casa das pessoas.

A equipe por trás do projeto

O desenvolvimento do Autofisio 500 contou com uma equipe multidisciplinar. A coordenação foi do Dr. Alexandre Avino, com a participação do professor de Engenharia Mecânica Alexandre Viecelli, do coordenador de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Agência de Inovação da UCS (UCSiNOVA), Matheus Parmegiani Jahn, e da coordenadora do curso de Fisioterapia, Katiúcia Pezzi Corlatti. Três bolsistas também contribuíram no projeto. A parceria com a empresa Zextec foi fundamental para a produção do equipamento.

Na solenidade de entrega dos aparelhos, o reitor da UCS, professor Gelson Leonardo Rech, destacou que o conceito de inovação da universidade é fruto da pesquisa e da ciência. Também participaram da cerimônia a pró-reitora de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico, Neide Pessin, e representantes da Zextec.

Próximos passos: do Inmetro ao Ministério

Finalizada a validação das duas unidades restantes junto ao Inmetro, o case de produção do Autofisio 500 será apresentado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Concluída essa etapa, o equipamento estará disponível para uso em hospitais.

Num país onde a saúde pública convive com limitações orçamentárias crônicas, um equipamento inédito no mercado, desenvolvido por pesquisadores brasileiros com financiamento público, representa mais do que inovação tecnológica. É a demonstração de que soluções para problemas reais da saúde podem nascer dentro das universidades brasileiras, com inteligência, foco e conhecimento aplicado.

E você, o que pensa sobre essa invenção?

Inscreva-se
Notificar de
guest
7 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
SONIA M G S MADALEN
SONIA M G S MADALEN
25/03/2026 13:55

Maravilhoso. Nosso país precisa incentivar pesquisas na área de saúde que possibilitem resultados eficientes para atendimento pelo sistema público às pessoas que não dispõem de muitos recursos. Parabéns à equipe que criou tal equipamento.

Furtunato Ferreira Pires
Furtunato Ferreira Pires
24/03/2026 23:09

Eu gostaria de saber se este equipamento serve para quem está com paralisia dos membros inferiores devido a doença conhecida como Mielite Transversa.

A. L. Albarelli
A. L. Albarelli
24/03/2026 16:22

Há algum trabalho científico em que o aparelho foi testado ?

Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
7
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x