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Perdão de dívidas pode beneficiar 3,6 milhões de MEIs, mas especialistas alertam: crédito caro e mistura entre contas pessoais e empresariais podem levar negócios a um novo ciclo de endividamento

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 18/10/2026 às 21:54 Atualizado em 18/10/2026 às 22:43
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Perdão pode beneficiar 3,6 milhões de MEIs, mas especialistas alertam para crédito caro, falta de planejamento e mistura das contas pessoais e da empresa.
Perdão pode beneficiar 3,6 milhões de MEIs, mas especialistas alertam para crédito caro, falta de planejamento e mistura das contas pessoais e da empresa.
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Projeto aprovado pelo Congresso prevê perdão de débitos de MEIs contraídos até 13 de outubro de 2026, alcançando potencialmente cerca de 3,6 milhões de empreendedores e R$ 12,6 bilhões em dívidas. Especialistas ouvidos pelo g1 alertam que a medida pode aliviar o caixa, mas não elimina problemas de gestão capazes de produzir novo endividamento.

O perdão de dívidas de microempreendedores individuais pode aliviar a situação financeira de cerca de 3,6 milhões de MEIs, mas especialistas alertam que zerar ou reduzir débitos não resolve sozinho as causas que levaram muitos negócios ao vermelho.

O projeto de lei complementar aprovado pelo Senado e pela Câmara prevê o perdão de débitos contraídos até 13 de outubro de 2026, que somam aproximadamente R$ 12,6 bilhões, segundo a reportagem do g1.

O risco apontado pelos especialistas é que, sem mudanças na organização financeira, parte dos empreendedores volte a se endividar. Entre os principais problemas aparecem o acesso difícil a crédito em condições adequadas, a falta de planejamento e a mistura entre dinheiro pessoal e recursos da empresa.

Perdão pode aliviar dívida, mas não corrige gestão

Para Luis Otávio Leal, sócio e economista-chefe da G5 Partners, programas de renegociação ou perdão podem resolver uma dificuldade imediata sem necessariamente alterar a origem do problema.

Segundo ele, dois fatores pesam especialmente: a falta de crédito barato e a baixa separação entre as finanças pessoais e empresariais.

Na prática, um empreendedor pode usar o caixa do negócio para pagar despesas da família ou a fatura do cartão pessoal.

Quando chega a hora de pagar fornecedores, impostos ou comprar mercadorias, falta dinheiro.

A saída pode então ser buscar empréstimos.

Se esse crédito vier com juros altos, o problema se desloca: uma dívida é eliminada ou renegociada, mas outra pode surgir pouco depois.

Uso do caixa da empresa para despesas pessoais cria efeito em cadeia

A mistura das contas é uma das práticas mais perigosas destacadas pelos especialistas.

Quando o dinheiro que entra no negócio é tratado como se estivesse totalmente disponível para uso pessoal, o empreendedor perde a visão real da capacidade financeira da empresa.

O faturamento não é igual ao lucro.

Antes de qualquer retirada, parte do dinheiro precisa cobrir fornecedores, impostos, aluguel, estoque e outros custos necessários para manter a atividade.

Se esses recursos forem usados para pagar despesas domésticas, a empresa pode acabar recorrendo a crédito apenas para continuar funcionando.

Dois bolsos precisam ser separados

Antonio Maciel, planejador financeiro CFP pela Planejar, resume a organização necessária como a existência de dois bolsos diferentes: o da empresa e o da pessoa física.

Mesmo quando o MEI é o único proprietário do negócio, nem todo valor recebido pertence imediatamente ao empreendedor.

Primeiro, é necessário calcular custos e compromissos.

Só depois se determina quanto pode ser transferido para a conta pessoal sem comprometer a operação.

Essa separação também facilita entender se a empresa é realmente lucrativa ou se está apenas movimentando dinheiro.

Exemplo mostra por que faturamento não é dinheiro livre

O planejador apresenta um exemplo hipotético.

Uma empresa recebe R$ 6,5 mil em determinado período.

Desse total, possui R$ 4 mil em pagamentos e compromissos e precisa reservar outros R$ 1 mil para manter o negócio funcionando no período seguinte.

Nesse cenário, sobram R$ 1,5 mil efetivamente disponíveis.

Mesmo que o lucro calculado por outro critério seja de R$ 1,8 mil, retirar todo esse valor da empresa deixaria menos dinheiro do que o necessário para manter a operação.

Receita variável exige planejamento com meses anteriores

Para quem não recebe o mesmo valor todos os meses, Maciel recomenda analisar um período maior.

A sugestão é observar os resultados dos últimos três a seis meses antes de definir quanto pode ser retirado regularmente pelo empreendedor.

Em meses fortes, parte do dinheiro pode permanecer reservada.

Essa reserva ajuda a compensar períodos de queda nas vendas.

Sem esse cuidado, o proprietário corre o risco de elevar seu padrão de retirada em um mês bom e descobrir depois que o negócio não sustenta aquele valor.

Orçamento doméstico também precisa respeitar limite do negócio

Separar as contas resolve apenas parte da questão.

O orçamento da família também precisa ser ajustado à renda que a empresa realmente consegue transferir.

O controle deve ocorrer em duas frentes.

A empresa registra vendas, custos, impostos e compromissos.

Já o orçamento doméstico trabalha apenas com o valor efetivamente transferido como renda pessoal.

Se as despesas familiares superarem esse limite, retirar mais dinheiro da empresa pode apenas deslocar o problema financeiro para dentro do negócio.

Crédito caro pode transformar falta de caixa em dívida crescente

A dificuldade de acesso a financiamento em condições adequadas é outro ponto central.

Quando o MEI não consegue crédito barato, pode acabar recorrendo a modalidades caras para manter a operação.

Cheque especial, rotativo do cartão e empréstimos contratados sucessivamente podem aumentar rapidamente o custo da dívida.

Segundo Leal, ampliar o acesso a linhas de crédito subsidiadas seria uma das formas de reduzir esse problema.

Ele também cita o apoio do Sebrae na qualificação dos microempreendedores.

Empreender por necessidade muda ponto de partida

Os especialistas também diferenciam negócios criados por oportunidade daqueles abertos por necessidade.

No empreendedorismo por oportunidade, a pessoa normalmente identifica uma demanda e estrutura a empresa para atendê-la.

Já no empreendedorismo por necessidade, a atividade pode começar como uma solução imediata para obter renda.

Segundo Leal, isso pode resultar em menos planejamento e menor preparação inicial.

A diferença não significa que um negócio aberto por necessidade esteja destinado ao fracasso.

O ponto é que as condições iniciais podem ser mais frágeis e exigir atenção maior à organização financeira.

Dívida pode estar saindo do controle mesmo sem atraso

Nem sempre o primeiro sinal de problema é uma conta vencida.

O empreendedor pode continuar pagando tudo em dia e, ainda assim, já estar em uma situação financeira deteriorada.

Um alerta é precisar de crédito todos os meses para fechar as contas.

Outro é pagar apenas parte da fatura do cartão.

Também merece atenção contratar um empréstimo para quitar outro ou depender de financiamento para qualquer reposição de estoque.

Esses comportamentos indicam que o negócio pode estar perdendo capacidade de gerar caixa suficiente para funcionar sozinho.

Saldo bancário não mostra situação completa

Olhar apenas quanto dinheiro existe na conta pode levar a uma percepção errada.

Parte daquele valor pode estar comprometida com despesas que ainda não venceram.

Maciel recomenda acompanhar pelo menos quatro grupos de informações:

  • resultado do negócio depois de custos e despesas;
  • dinheiro disponível para manter a operação;
  • total de dívidas, parcelas e juros;
  • recursos parados em mercadorias e prazos para receber de clientes e pagar fornecedores.

Essa visão permite identificar se o problema vem da operação, das retiradas pessoais ou do próprio modelo de vendas.

Empresa pode vender mais e continuar com dificuldade

Aumento de vendas não garante automaticamente melhora financeira.

Um negócio pode faturar mais e ainda perder dinheiro se os preços cobrados não cobrrem os custos.

Também pode apresentar lucro contabilmente, mas ficar sem caixa porque clientes demoram a pagar.

Outra possibilidade é o empreendedor retirar recursos em excesso.

Por isso, a origem da dificuldade precisa ser identificada antes da renegociação da dívida.

Caixa negativo antes das retiradas aponta problema no negócio

A localização do déficit ajuda a orientar a solução.

Se a empresa consegue cobrir seus custos e só fica sem dinheiro depois das retiradas pessoais, o desequilíbrio pode estar mais ligado ao orçamento familiar.

Se o caixa já é insuficiente antes dessas transferências, a análise deve se concentrar no próprio negócio.

Preço, custos, volume de vendas e prazos de recebimento precisam ser revistos.

Essa diferença evita tratar todos os endividamentos da mesma maneira.

Renegociação precisa considerar custo total, não só a parcela

— Foto: Arte/g1
— Foto: Arte/g1

Quando a dívida já existe, o empreendedor precisa comparar propostas com cuidado.

Uma prestação menor não significa necessariamente que o acordo seja mais barato.

Maciel apresenta outro exemplo hipotético.

Um acordo com 12 parcelas de R$ 320 custa R$ 3.840 no total.

Outro, com 24 parcelas de R$ 230, parece mais leve mensalmente, mas chega a R$ 5.520.

O prazo maior reduz o valor da prestação, mas eleva o total pago.

CET ajuda a comparar empréstimos

Um dos indicadores importantes é o Custo Efetivo Total, o CET.

Ele reúne juros, tarifas, impostos, seguros e outros custos relacionados ao crédito.

Comparar apenas a taxa de juros anunciada pode esconder diferenças relevantes.

Além do CET, o empreendedor precisa observar:

  • valor total a pagar;
  • prazo;
  • tamanho das parcelas;
  • relação entre a prestação e o caixa disponível.

A dívida só deve ser assumida se o negócio tiver capacidade real de pagamento.

Obrigações essenciais precisam de prioridade

Ao renegociar contas, também é necessário avaliar as consequências de cada atraso.

Tributos e salários, quando houver empregados, exigem atenção.

O mesmo vale para dívidas cujo não pagamento possa levar à perda de um equipamento essencial ou à interrupção de um fornecimento necessário para as vendas.

Nem toda dívida tem o mesmo impacto operacional.

Organizar prioridades pode evitar que um problema financeiro paralise a atividade.

Cheque especial e rotativo não devem virar financiamento permanente

Os especialistas também alertam para modalidades de crédito que podem se tornar especialmente caras quando usadas por longos períodos.

Cheque especial e rotativo do cartão são exemplos.

Recorrer ocasionalmente a crédito é diferente de depender dele todos os meses para cobrir prejuízo operacional.

Quando isso acontece, os juros passam a consumir parte crescente do dinheiro gerado pela empresa.

Nesse estágio, uma renegociação isolada pode apenas adiar o problema.

Perdão pode abrir espaço para reorganização

O projeto aprovado pelo Congresso pode oferecer uma oportunidade importante para milhões de MEIs reorganizarem as contas.

Ao eliminar débitos abrangidos pela proposta, parte dos empreendedores pode recuperar capacidade de planejamento e reduzir compromissos acumulados.

Mas o efeito depende do que acontece depois.

Se a estrutura financeira permanecer igual, o negócio pode voltar ao mesmo ponto.

Por isso, especialistas tratam o perdão como uma oportunidade de reorganização e não como solução permanente para todos os problemas.

Projeto também altera regras do MEI

Congresso aprova aumento do teto do MEI e perdão de dívidas
video: G1

Além do perdão das dívidas, a proposta mencionada na reportagem traz outras mudanças para a categoria.

O texto amplia o limite anual de faturamento e permite a contratação de até dois funcionários em determinadas condições.

Essas alterações ampliam o alcance econômico do regime.

Ao mesmo tempo, negócios maiores exigem controle financeiro ainda mais rigoroso sobre folha, impostos, estoque e fluxo de caixa.

3,6 milhões podem ter alívio, mas próximo passo será decisivo

A dimensão da medida é relevante: aproximadamente 3,6 milhões de MEIs, com débitos estimados em R$ 12,6 bilhões, podem ser alcançados pelo perdão previsto para dívidas contraídas até 13 de outubro de 2026.

O alívio financeiro pode ser imediato.

O desafio seguinte é evitar que a falta de planejamento, a retirada excessiva de dinheiro da empresa e a dependência de crédito caro reconstruam o endividamento.

Como resume a análise apresentada pelos especialistas, uma renegociação só se transforma em recuperação quando vem acompanhada de aumento real da capacidade de pagamento e correção dos problemas de gestão que produziram a dívida.

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Bruno Teles

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