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Paulista viu uma prancha numa revista aos 9 anos, desmontou uma tábua de passar para improvisar a sua, mudou-se para Florianópolis e fez da Tropical Brasil uma líder nacional na fabricação de pranchas de surfe

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 27/02/2026 às 21:04
paulista leva a Tropical Brasil de Florianópolis à liderança na fabricação de pranchas de surfe, com foco, escala e retorno às origens.
paulista leva a Tropical Brasil de Florianópolis à liderança na fabricação de pranchas de surfe, com foco, escala e retorno às origens.
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O paulista Avelino Bastos saiu da curiosidade de infância em Paranaguá, passou por Santos, fundou a Tropical Brasil em Florianópolis em 1981 e, após apostar em surfistas vencedores, diversificar demais e voltar às origens em 2012, consolidou uma marca que lidera o setor brasileiro de pranchas de surfe no país.

O paulista Avelino Bastos entrou no surfe antes mesmo de encostar em uma prancha real. Aos 9 anos, ao ver a imagem de uma peça em uma edição da Reader’s Digest, decidiu desmontar uma velha tábua de passar roupas para improvisar seu próprio modelo, num impulso que mais tarde desembocaria em uma das marcas mais conhecidas do setor.

A cena tem algo de artesanal e de obsessivo ao mesmo tempo. Não era ainda um negócio, nem uma carreira desenhada com clareza, mas já havia ali um traço que seguiria adiante: a insatisfação com o que existia e a vontade de fazer com as próprias mãos. Décadas depois, esse impulso ajudaria a levar a Tropical Brasil a uma posição de liderança nacional na fabricação de pranchas.

A infância inventiva que virou método de trabalho

paulista leva a Tropical Brasil de Florianópolis à liderança na fabricação de pranchas de surfe, com foco, escala e retorno às origens.

A primeira imagem da prancha surgiu para Bastos em Paranaguá, no litoral do Paraná, quando ele ainda era menino.

O objeto, visto numa revista, parecia estranho o bastante para despertar curiosidade imediata.

Em vez de apenas admirar, ele tentou reproduzir o formato a partir do que tinha por perto, usando a tábua de passar como matéria-prima para um protótipo improvisado.

O gesto pode parecer pequeno, mas ajuda a explicar muita coisa do que veio depois.

A lógica do fundador já era a de desmontar, observar, testar e refazer, um comportamento que costuma aparecer em quem mais tarde transforma produção manual em linguagem de negócio.

A primeira prancha foi um esboço mal resolvido, mas também foi a primeira de milhares.

Alguns anos depois, já morando em Santos, no litoral de São Paulo, Bastos viu uma prancha de verdade pela primeira vez.

E quando finalmente ganhou a sua, a reação não foi encantamento pleno. Ele ficou desapontado. A peça não correspondia ao que havia imaginado. Essa frustração, em vez de afastá-lo, empurrou o paulista para mais perto do ofício.

Foi nos fundos de casa, trabalhando com fibra de vidro, que ele começou a fazer uma prancha própria. Antes mesmo de concluir aquela unidade, um amigo surfista já queria comprá-la.

A partir daí, a cadeia foi se formando de maneira orgânica: um amigo indicava para outro, o consumo próprio virava encomenda e a habilidade manual começava a ganhar valor de mercado.

Florianópolis, campeonatos e a construção de uma marca brasileira

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A Tropical Brasil nasceu em 1981, em Florianópolis, cidade para onde Bastos se mudou com o objetivo de cursar faculdade. A mudança de geografia foi decisiva.

A capital catarinense oferecia proximidade com o mar, circulação de surfistas e um ambiente favorável para transformar uma produção ainda artesanal em empresa. Foi ali que o improviso ganhou estrutura.

Desde o começo, Bastos dizia querer criar um produto original, brasileiro. A ambição não era apenas fabricar mais uma prancha, mas construir uma marca ligada a desempenho e identidade própria.

A estratégia inicial foi simples e arriscada ao mesmo tempo: colocar as pranchas nas mãos de jovens surfistas em campeonatos, apostando que o resultado nas ondas faria propaganda melhor do que qualquer campanha tradicional.

A escolha deu certo com velocidade. Os atletas patrocinados venceram torneios importantes e ajudaram a projetar a Tropical Brasil no mercado. Entre eles estavam Teco Padaratz, que conquistaria dois títulos mundiais, e David Husadel, nome forte do surfe catarinense.

Quando os resultados apareceram, a marca ganhou reputação, e Bastos resumiu esse papel de maneira quase informal: virou um coach.

Esse crescimento não foi apenas simbólico. A empresa fundada pelo paulista passou a faturar R$ 3,5 milhões e se consolidou como líder do setor no país.

A combinação entre produto competitivo, presença em campeonatos e leitura correta do ambiente de Florianópolis fez da Tropical Brasil um caso raro em que marca, atleta e narrativa cresceram quase ao mesmo tempo.

Quando crescer demais quase fez a empresa morrer na praia

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Nos anos 1990, Padaratz e Husadel se tornaram sócios da Tropical Brasil, e a empresa entrou numa nova fase. A marca começou a diversificar por licenciamento, estampando roupas, cosméticos, óculos e acessórios.

Em determinado momento, o portfólio chegou a mais de 400 itens, um número que mostra como a Tropical tentou se transformar em algo maior do que uma fabricante de pranchas.

À primeira vista, a expansão parecia lógica. Uma marca forte no surfe poderia ocupar várias frentes de consumo e capturar uma fatia mais ampla de faturamento.

E de fato esses produtos representavam uma parte importante da receita. O problema apareceu na complexidade do negócio.

Moda não operava com a mesma previsibilidade da prancha, e Bastos percebeu isso perdendo muito dinheiro.

A conclusão foi dura, mas objetiva. O empresário entendeu que estava se afastando do centro do que sabia fazer melhor. Em 2012, as operações de roupas e acessórios foram vendidas ao Grupo Eixo.

Nesse processo, alguns sócios deixaram a empresa, e Bastos decidiu concentrar a Tropical Brasil novamente naquilo que havia sustentado sua reputação desde o começo.

A decisão de recuo não foi apresentada como derrota, e sim como reenquadramento.

Ele próprio resumiu a escolha como uma renúncia aos negócios em que era coadjuvante, mesmo quando geravam faturamento, para focar no que realmente gostava e dominava: produzir pranchas.

Foi um corte estratégico para salvar a identidade da empresa.

O retorno às origens e a tentativa de escalar sem perder o artesanal

Depois da venda das operações paralelas, Bastos voltou a ocupar o lugar que tinha nos primórdios: o de designer e pensador da marca. A mudança de função é relevante porque mostra que a Tropical Brasil não abandonou a ambição de crescer, mas trocou o eixo da expansão.

Em vez de licenciar mais categorias, a empresa passou a buscar novas formas de produzir pranchas em escala com mais funcionalidade e menor custo.

Esse ponto é central para entender a fase mais recente da empresa. Bastos quer baratear e ampliar a produção sem apagar aquilo que faz diferença no mercado de pranchas: o toque artesanal e customizado.

A fórmula desejada é delicada, porque exige tecnologia suficiente para escalar e sensibilidade suficiente para não transformar o produto em peça indiferenciada.

Com cerca de 100 mil pranchas produzidas ao longo da trajetória, algumas delas feitas pelas próprias mãos, o fundador e seu sócio Nelson Mendes planejam a construção de uma nova fábrica.

A futura unidade deve ficar em Santa Catarina, embora não necessariamente em Florianópolis. A decisão mostra que o vínculo com o estado permanece forte, mesmo que o mapa da expansão mude.

Há algo simbólico nesse movimento. A empresa nasceu, cresceu e apareceu em Florianópolis, mas agora pode buscar outra praia, inclusive uma praia distante do mar.

O que começou com uma tábua de passar desmontada termina, ao menos por enquanto, com uma indústria tentando aumentar escala sem perder alma.

Liderança, identidade e o peso de uma escolha rara

O caso da Tropical Brasil escapa da leitura simplista de “empreendedor visionário” porque a trajetória inclui erro, excesso, recuo e recomeço.

O paulista que improvisou uma prancha aos 9 anos não chegou à liderança apenas por insistir; chegou também por reconhecer quando o desvio era grande demais e quando o negócio já não parecia consigo mesmo.

Isso ajuda a explicar por que a marca resistiu onde outras poderiam ter se diluído.

Ao abrir mão de frentes que davam faturamento, mas afastavam a empresa de sua competência principal, Bastos trocou expansão ampla por profundidade técnica.

Nem toda empresa aceita encolher para continuar relevante, e esse parece ter sido um dos movimentos mais decisivos da Tropical Brasil.

Também pesa o fato de a empresa ter se apoiado em atletas vencedores num momento em que reputação técnica valia quase tanto quanto publicidade.

Em vez de vender apenas estilo, a Tropical vinculou seu nome a performance e resultado. Isso criou uma base mais resistente do que uma moda passageira, especialmente num setor em que o produto precisa responder na água, não apenas na vitrine.

No fim, a história do paulista Avelino Bastos é menos sobre uma “ideia genial” e mais sobre continuidade. Ver, improvisar, fabricar, corrigir, crescer, errar, recuar e refazer.

A prancha que ele não gostou quando jovem parece ter servido como gatilho permanente para uma pergunta incômoda e produtiva: e se desse para fazer melhor?

A trajetória que levou o paulista de uma revista à liderança nacional na fabricação de pranchas mostra que o negócio não nasceu de capital abundante nem de planejamento perfeito, mas de repetição, observação e foco.

Entre Paranaguá, Santos e Florianópolis, a Tropical Brasil foi moldada por decisões que aproximaram a marca de sua origem sempre que ela corria o risco de se perder.

Se você estivesse no lugar de Bastos, em que momento teria mudado de direção: quando a diversificação começou a crescer demais, ou só depois de ver que o faturamento não compensava o desgaste? E, olhando para marcas brasileiras que nasceram de um ofício muito específico, você acha mais difícil crescer mantendo identidade ou perceber a hora certa de voltar ao que realmente sustenta o negócio?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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