Consórcio europeu recebeu 48,18 milhões de euros do Fundo de Inovação da União Europeia para erguer em Navarra uma planta capaz de produzir 160 jogos completos de pás por ano, feitas de madeira laminada em vez de fibra de vidro.
A energia eólica tem um problema que ela mesma criou e ainda não resolveu: o que fazer com a pá da turbina quando ela chega ao fim da vida útil. Um consórcio europeu acaba de receber 48,18 milhões de euros para atacar esse ponto pela origem, trocando o material da peça.
O dinheiro vem do Fundo de Inovação da União Europeia e vai financiar a construção da primeira fábrica comercial do mundo dedicada exclusivamente a pás eólicas de madeira. A planta será erguida em Navarra, no norte da Espanha, e recebeu o nome de VB1F.
A pá de fibra de vidro é a peça mais difícil de reciclar de uma turbina
Torre, gerador e caixa de engrenagens de um aerogerador são feitos essencialmente de aço e cobre, materiais com cadeia de reciclagem consolidada e valor de revenda.
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A pá é a exceção. Ela é construída com fibra de vidro, resinas e, em alguns modelos, fibra de carbono, combinados em um compósito que foi desenhado justamente para não se separar. Essa qualidade estrutural vira um obstáculo quando a peça precisa ser descartada.
O resultado é que boa parte das pás retiradas de operação termina cortada em pedaços e enterrada em aterros, uma solução que a indústria sempre tratou como provisória e que segue em uso há décadas.
O volume tende a crescer nos próximos anos. Os primeiros grandes parques eólicos instalados na Europa e nos Estados Unidos estão chegando ao fim do ciclo de projeto, calculado em torno de 20 a 25 anos, e a fila de pás para descarte aumenta junto.
Madeira laminada no lugar do compósito
A proposta da Voodin Blade Technology, empresa alemã que lidera a parte técnica do projeto, é substituir grande parte desse compósito por madeira laminada, material formado por lâminas finas coladas em camadas.
Não se trata de madeira bruta. É um produto de engenharia, com fibras orientadas de propósito para suportar esforço em direções específicas, técnica já usada em vigas de grandes vãos na construção civil.
Há também um ganho na origem. A madeira usada vem de floresta plantada e absorve carbono enquanto cresce, enquanto a fibra de vidro depende de fusão de sílica em fornos de altíssima temperatura, etapa intensiva em energia.
A vantagem no fim da vida útil é direta. A peça pode ser triturada e reaproveitada, ou queimada para geração de energia, sem o passivo do compósito que não se decompõe nem se separa.
A fábrica troca o molde gigante por usinagem guiada por arquivo digital
A mudança mais interessante do projeto talvez não esteja no material, e sim no processo. Uma pá convencional é fabricada dentro de um molde enorme, feito sob medida para aquele modelo específico.
Esse molde custa caro, ocupa um galpão inteiro e só serve para uma versão da peça. A fábrica espanhola vai operar sem molde, usinando a madeira com máquinas de alta precisão guiadas por um modelo digital.
Na prática, mudar o tamanho ou o desenho da pá deixa de exigir a construção de uma ferramenta nova e passa a ser uma questão de trocar o arquivo que comanda a máquina.
Sem molde, uma pá danificada pode ser refeita anos depois
Esse detalhe resolve um problema silencioso do setor. Quando um fabricante encerra a produção de um modelo de pá, os moldes costumam ser descartados por ocuparem espaço.
Se anos depois uma pá daquele modelo quebra em campo, encontrar reposição vira um transtorno, e não é raro que o operador precise trocar o conjunto inteiro por causa de uma única peça.
Com o processo baseado em arquivo digital, basta recuperar o desenho e usinar novamente a peça exata, mesmo muito tempo depois de o modelo ter saído de linha.
160 jogos de pás por ano e cerca de 450 empregos
A planta foi dimensionada para produzir até 160 jogos completos de pás por ano. Cada jogo equipa uma turbina, já que o aerogerador de eixo horizontal usado hoje leva três pás.
A estimativa do consórcio é que a produção dê suporte a turbinas capazes de gerar cerca de 13,5 milhões de megawatt-hora ao longo de dez anos, e que a operação em capacidade plena crie por volta de 450 empregos locais.
O consórcio reúne a Voodin Blade Technology e a Anker-Tec, da Alemanha, ao lado da VMG Wood Invest e da VMG Technics, da Lituânia, que coordenam o projeto.
A operação só começa em 2031
Também pesa a exigência dos clientes. Nenhum fabricante de turbina troca um componente estrutural sem histórico de desempenho comprovado, porque uma falha de pá em operação pode destruir a máquina inteira e parar o parque.
Apesar do anúncio do financiamento, a fábrica ainda não existe. A previsão é que a planta entre em atividade em 2031, prazo que inclui construção, instalação das máquinas e qualificação do produto junto aos fabricantes de turbina.
Esse intervalo é comum em projetos industriais de energia, porque uma pá precisa passar por ensaios estruturais longos antes de ser autorizada a operar em campo, expostas a vento, chuva e fadiga por décadas.
O apoio faz parte de um pacote europeu para fabricação eólica
O aporte à fábrica espanhola não foi isolado. A Comissão Europeia selecionou quatro projetos ligados à manufatura eólica na mesma rodada do Fundo de Inovação, em um esforço para reconstruir na Europa uma cadeia industrial que vinha perdendo espaço.
Entre os contemplados está também a sueca Modvion, que trabalha em outra frente do mesmo raciocínio, aplicando madeira laminada às torres dos aerogeradores em vez das pás.
Por ora, o que está confirmado é o financiamento de 48,18 milhões de euros, a localização em Navarra, a capacidade de 160 jogos de pás por ano e a data de partida marcada para 2031.
