A tumba de câmara apareceu na via Scarciglia, em Manduria, na região da Puglia, durante obra de novos trechos de esgoto conduzida pelo Acquedotto Pugliese. Operários e arqueólogos trabalhavam juntos no canteiro, e o achado revelou um complexo funerário do século IV a.C. com parede pintada de vermelho.
Uma vala aberta para instalar rede de esgoto na via Scarciglia, no município italiano de Manduria, terminou em descoberta arqueológica. Enquanto os operários avançavam com a obra do Acquedotto Pugliese, apareceu uma tumba de câmara do período helenístico, datada do século IV antes de Cristo, com cerca de 2.300 anos e pertencente à civilização messápica, povo que vivia na região antes da expansão de Roma. O anúncio foi feito em 8 de setembro de 2025 pela Superintendência de Arqueologia, Belas Artes e Paisagem das províncias de Brindisi, Lecce e Taranto, responsável pela direção científica do trabalho.
A sepultura integra um pequeno complexo funerário e se divide em dois ambientes. No primeiro deles, interpretado como antecâmara de acesso, apareceram vestígios de reboco pintado de vermelho com uma faixa horizontal branca em relevo correndo pelas paredes, além de numerosos objetos de cerâmica na posição em que foram depositados há mais de dois milênios. Entre eles estão vasos, lamparinas, unguentários e pratos, todos datáveis do mesmo século.
A vala de esgoto que virou escavação arqueológica

A obra não tinha nada de excepcional no papel. Tratava-se da implantação de novos trechos de rede de esgoto na via Scarciglia, em Manduria, município da província de Taranto, conduzida pela Acquedotto Pugliese, a companhia de saneamento que atende a região. Foi durante esse serviço que a estrutura enterrada apareceu.
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Aqui está o detalhe que muda a leitura da história e costuma sumir nas manchetes: os operários não estavam sozinhos. A escavação foi executada por uma empresa especializada, a Impact Soc. Coop., com assistência arqueológica em andamento ao longo da obra, sob direção científica da superintendência. Ou seja, existia um arqueólogo acompanhando o trabalho quando o solo abriu.
Essa diferença não é burocrática. Em canteiro sem acompanhamento, uma câmara funerária de dois mil e trezentos anos costuma ser destruída pela retroescavadeira antes que alguém entenda o que era aquilo. Com assistência em campo, a obra para, o registro é feito e o material sai do chão documentado.
Parede vermelha, faixa branca e uma antecâmara de acesso
O primeiro ambiente da tumba funciona como um corredor de entrada, o que os arqueólogos chamam de dromos ou antecâmara. Nele, o reboco ainda guarda traços de pintura vermelha, com uma faixa horizontal branca em relevo acompanhando as paredes do vão.
Cor não era decoração aleatória em um túmulo messápico. O vermelho aparece com frequência em contextos funerários do mundo antigo mediterrâneo e a combinação com o relevo branco sugere um espaço tratado com cuidado arquitetônico, não uma cova improvisada. Fragmentos desse reboco foram recolhidos pela equipe para estudo.
O estado de conservação também diz algo sobre o que os operários encontraram. Pigmento aplicado sobre reboco costuma ser a primeira coisa a desaparecer quando entra umidade, raiz ou ar. Que ainda existam traços de cor depois de mais de dois milênios significa que a câmara permaneceu razoavelmente fechada e estável durante quase todo esse tempo, apesar das interferências registradas no restante do complexo.
Vasos, lamparinas e potes de perfume exatamente onde foram deixados

A expressão técnica usada pelos arqueólogos que acompanhavam os operários é posição primária, e ela vale mais do que parece. Significa que os objetos foram encontrados no lugar em que alguém os colocou no século IV antes de Cristo, sem terem sido remexidos e reorganizados por saque ou por desabamento.
O conjunto reúne vasos, lamparinas a óleo, unguentários e pratos. Os unguentários são os potes que guardavam óleos e ungüentos perfumados, item recorrente em enxovais funerários da época, ligado ao ritual de preparação do corpo e à oferta ao morto. Não é tesouro no sentido de ouro e pedra preciosa, é algo mais raro: um retrato do gesto funerário congelado no lugar.
Cada um desses objetos ajuda a datar o conjunto e a entender a prática. Lamparina indica luz ritual, prato remete a oferenda de alimento, unguentário aponta para perfume e óleo. Lidos juntos e na posição original, eles descrevem uma cerimônia inteira.
A porta de pedra pintada de vermelho e o leito do morto
A entrada da câmara funerária propriamente dita era ornamentada por uma trabeação moldurada, elemento arquitetônico que corre acima da porta, e originalmente ficava fechada por uma porta de pedra de duas folhas, também rebocada e pintada de vermelho. Dela restaram fragmentos, recuperados durante a escavação.
Dentro da câmara, os arqueólogos identificaram encaixes retangulares na base, no lado sul do ambiente. A interpretação é que esses encaixes sustentavam um leito funerário, a estrutura onde o corpo era depositado. As paredes internas também preservam traços de reboco pintado.
Tudo isso desenha um tipo específico de sepultura. A tumba de câmara não é uma cova aberta no chão, e sim um pequeno cômodo subterrâneo, com porta, moldura e mobiliário, pensado para receber visitas e novas deposições ao longo do tempo. É arquitetura, não buraco. Esse formato costuma indicar família com posses e status dentro da comunidade, embora o material recolhido no canteiro ainda precise ser estudado antes de qualquer conclusão sobre quem foi enterrado ali.
A segunda tumba, os saqueadores da Antiguidade e uma moeda romana
O complexo tem mais de uma sepultura, e a segunda conta uma história diferente. Segundo o anúncio da superintendência, ela estava lacrada, mas vazia de enxoval funerário, sinal de que já havia sido saqueada muito tempo atrás.
O sítio apresentava marcas de perturbação antiga. A avaliação é que saqueadores da própria Antiguidade perfuraram paredes para alcançar sepulturas vizinhas, prática comum em necrópoles conhecidas da população local. Roubo de túmulo não é invenção moderna, é atividade tão antiga quanto os próprios túmulos.
E foi justamente no material de preenchimento dessa segunda sepultura que apareceu o objeto mais inesperado: um denário republicano, moeda romana. A presença dela indica que a área continuou sendo usada e frequentada já no período romano, séculos depois do sepultamento messápico original.
Moeda encontrada em entulho vale como marcador de tempo. O denário da República romana circulou aproximadamente entre o fim do século III e o fim do século I antes de Cristo, ou seja, bem depois da câmara messápica ter sido fechada. Ele não pertence ao enxoval original, chegou ali junto com o material que preencheu a sepultura violada, e é essa mistura de camadas que os operários acabaram expondo ao abrir a vala.
Quem eram os messápios e por que Manduria entra nessa conta
Muito antes dos operários e das tubulações, os messápios ocupavam o extremo sul da península itálica, na região que hoje corresponde à Puglia, e formavam uma cultura própria, anterior ao domínio romano, com língua e alfabeto próprios. Não eram gregos nem romanos, embora convivessem e negociassem com ambos.
Manduria era um dos centros messápicos mais importantes, e a cidade guarda até hoje o Parque Arqueológico das Muralhas Messápicas, com estruturas defensivas erguidas entre os séculos V e III antes de Cristo. É uma cidade construída literalmente por cima da própria antiguidade, o que explica por que uma obra de saneamento tem chance real de esbarrar em sepultura.
Segundo a tradição histórica, foi nas cercanias de Manduria que Arquidamo III, rei de Esparta e aliado de Tarento, morreu em combate contra os messápios em 338 antes de Cristo. O episódio dá a dimensão do peso militar daquela gente, frequentemente reduzida a nota de rodapé na história de Roma.
Não é a primeira vez que essa mesma rua entrega sepulturas
A descoberta confirmou algo que os arqueólogos já suspeitavam sobre aquele trecho da cidade. No fim de 2024, a mesma via Scarciglia havia revelado onze sepulturas em fossa, também durante obras. O achado de 2025 reforça a vocação funerária do setor.
Não foi um caso isolado no município. No início de 2025, uma pequena necrópole messápica com cerca de uma dezena de tumbas apareceu no bairro de Sant’Antonio, igualmente durante trabalhos de assentamento de rede de esgoto do Acquedotto Pugliese, a poucos centímetros do nível da rua. Em Manduria, o passado está literalmente logo abaixo do asfalto, e cada vala aberta por operários vira uma sondagem involuntária.
Modelo em 3D e o que a descoberta acrescenta
Depois do registro em campo, o destino do material passa pelo estudo e pela documentação. As autoridades italianas informaram que trabalham no desenvolvimento de um modelo digital tridimensional da tumba, com o objetivo de permitir acesso futuro por meio de tecnologias digitais, algo que viabiliza visita virtual e consulta acadêmica sem expor a estrutura original.
Do ponto de vista científico, o balanço declarado pela superintendência é direto: a escavação permitiu acrescentar elementos novos ao conhecimento sobre as práticas funerárias do centro messápico de Manduria na época helenística. Não é uma descoberta que reescreve a história, é o tipo de achado que preenche lacunas e que, somado a outros, permite entender como aquela sociedade tratava seus mortos.
Há ainda um aspecto prático que interessa a quem mora perto de qualquer obra pública. Descoberta desse porte costuma parar o serviço, mudar traçado de tubulação e esticar prazo, e é comum que a vizinhança reclame do transtorno sem saber o motivo. Neste caso, a superintendência e a companhia de saneamento apresentaram o episódio como resultado de trabalho conjunto, com os operários seguindo o cronograma da obra sob orientação técnica em vez de simplesmente tocar a escavação e torcer para não achar nada.
No fim, a história tem dois personagens improváveis. De um lado, os operários que abriam uma vala comum de saneamento e acabaram diante de uma câmara funerária de 2.300 anos. Do outro, um saqueador anônimo que, séculos antes de Cristo terminar de nascer para o calendário, já furava paredes atrás do enxoval alheio e deixou a segunda tumba vazia. Entre um e outro, sobraram vasos, lamparinas, potes de perfume, parede vermelha e uma moeda romana perdida no entulho.
E você, acha que obras urbanas deveriam sempre ter acompanhamento arqueológico obrigatório, mesmo que isso atrase o serviço e encareça a conta? Se fosse na sua cidade, você toparia esperar meses por uma rede de esgoto para preservar uma descoberta assim? Conta nos comentários o que você faria.
