Duas estudantes da Noruega criaram o Gjenreis, um sistema modular que transforma tijolos reaproveitados em paredes desmontáveis. Sem argamassa, a estrutura usa encaixes de madeira e pode ser montada e remontada quantas vezes for preciso preservando as marcas e a história de cada peça.
E se uma parede pudesse ser desmontada e montada de novo, quantas vezes fosse necessário, sem quebrar um único bloco? Essa é a proposta do Gjenreis, sistema modular que transforma tijolos reaproveitados em divisórias flexíveis para ambientes internos, sem usar nem um pouco de argamassa. Segundo a revista Casa e Jardim, o projeto foi desenvolvido pelos estudantes Ariel Hammer e Åshild Limstrand, da Universidade Metropolitana de Oslo, na Noruega.
A lógica é quase a de um brinquedo de montar, mas com uma ambição bem séria por trás. No lugar do cimento que prende tudo para sempre, entram encaixes de madeira que seguram os blocos e podem ser soltos a qualquer momento permitindo reorganizar o espaço sem gerar entulho e sem destruir o material.
Uma parede de tijolos que se monta como Lego

A ideia central do projeto é simples de enunciar e difícil de executar. Trata-se de uma parede que pode ser montada, desmontada e reconstruída diversas vezes sem perder a sua função, algo impensável na alvenaria tradicional, em que quebrar significa perder.
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O sistema nasceu dentro da universidade. O Gjenreis foi desenvolvido como trabalho de conclusão do curso de Design de Produto da OsloMet, a Universidade Metropolitana de Oslo, por duas estudantes que decidiram encarar um dos maiores desperdícios da construção civil.
E o resultado foge do que se espera de um TCC. Em vez de um objeto ou de um móvel, elas atacaram o próprio sistema construtivo, propondo uma nova forma de usar um dos materiais mais antigos e mais comuns do mundo.
Gjenreis: “reconstruir” em norueguês
O nome do projeto já entrega a filosofia. Gjenreis significa “reconstruir” em norueguês, palavra que resume exatamente aquilo que o sistema permite fazer, indefinidamente, com os mesmos tijolos.
As próprias criadoras explicam o raciocínio. “Em nosso projeto de graduação desenvolvemos um sistema modular de tijolos reaproveitados, sem argamassa, com o intuito de projetar pensando na desmontagem, na adaptação e na preservação do valor estético e histórico do material”, dizem as designers.
Repare no detalhe mais importante dessa frase. Projetar pensando na desmontagem inverte a lógica da construção civil, que tradicionalmente projeta pensando apenas em levantar e deixa o problema do desmonte para o futuro, geralmente na forma de caçamba de entulho.
Como funciona sem argamassa: os encaixes de madeira

A parte técnica é o coração da invenção. No lugar da argamassa, o sistema utiliza componentes de madeira que mantêm os tijolos estáveis e garantem que a parede fique de pé sem nenhum tipo de colagem permanente.
É essa escolha que muda tudo. Como não há cimento endurecido entre os blocos, toda a estrutura pode ser desmontada e remontada sempre que necessário, sem trincar, lascar ou inutilizar as peças.
O ganho é duplo. Os tijolos saem inteiros e prontos para uso em outro lugar, e a madeira do encaixe também pode ser reaproveitada, o que aproxima o sistema do ideal de uma construção que não gera resíduo ao ser desfeita.
O prédio como fonte de material, não como entulho
Por trás da solução existe uma mudança de mentalidade. O projeto parte do princípio de enxergar edifícios existentes como fontes de materiais para novas construções, em vez de tratá-los como resíduos após reformas ou demolições.
É uma inversão radical de valor. O que hoje vira caliça e vai para a caçamba passa a ser visto como estoque de matéria-prima, disponível ali mesmo, na cidade, sem precisar produzir nada do zero.
Essa visão tem nome: economia circular. Em vez do ciclo linear de extrair, usar e descartar, a proposta é manter o material em circulação pelo maior tempo possível — e o tijolo, por ser durável, é um candidato quase perfeito para isso.
Para quem foi pensado: restaurantes, hotéis e escritórios
O sistema não foi criado para qualquer parede, e sim para as que vivem mudando de lugar. A solução foi pensada para ambientes que mudam com frequência, como restaurantes, lobbies de hotéis, escritórios de planta aberta e outros espaços comerciais.
A escolha faz todo sentido. Nesses lugares, a reorganização do layout costuma fazer parte da rotina, e cada mudança significa, na prática, derrubar divisórias que foram levantadas há pouco tempo.
É justamente aí que o desperdício aparece. Com o Gjenreis, a mesma parede que hoje divide um salão pode amanhã formar outro ambiente, sem custo de demolição, sem sujeira e sem descarte de material perfeitamente utilizável.
As imperfeições viraram parte da estética
Uma decisão do projeto chama atenção por contrariar o senso comum. Em vez de esconder marcas de uso, desgastes ou diferenças entre os tijolos, as estudantes decidiram transformá-las em parte da estética da proposta.
Para elas, o desgaste é currículo, não defeito. “A superfície de cada tijolo foi moldada pelo tempo, pelo uso e pelo lugar, e é justamente essa variação que confere ao material sua identidade e sua história”, afirmam as designers.
É uma leitura que valoriza o que normalmente seria descartado. O tijolo manchado, gasto ou irregular deixa de ser um problema a ser disfarçado e passa a ser o motivo pelo qual aquela parede é única — algo que nenhum material novo consegue oferecer.
Madeira nova e tijolo velho: um contraste proposital
O visual do sistema foi pensado nos mínimos detalhes. Os elementos estruturais de madeira foram desenhados para contrastar com a textura envelhecida dos blocos, criando um diálogo entre duas linguagens muito diferentes.
O efeito é intencional. A madeira limpa e precisa evidencia ainda mais a rusticidade do tijolo recuperado, valorizando a convivência entre o novo e o antigo em vez de tentar uniformizar tudo.
Essa escolha também tem função prática. Ao deixar claro o que é estrutura e o que é material reaproveitado, o sistema fica mais fácil de entender e de manusear na hora de montar ou desmontar a divisória.
“Um tijolo não é apenas mais um tijolo”
A maior lição do projeto, segundo a dupla, tem a ver com abandonar a padronização. Materiais reaproveitados não devem ser tratados como peças padronizadas, já que cada um chega com sua própria medida, cor e desgaste.
A frase que resume o aprendizado é direta. “Um tijolo não é apenas mais um tijolo”, dizem as estudantes, apontando para a diferença entre lidar com um produto de fábrica e com algo que já teve outra vida.
E há um recado embutido nisso. “Trabalhar com materiais recuperados significa abraçar suas imperfeições únicas”, completam ou seja, quem quiser reaproveitar precisa antes aceitar que a régua não será a mesma da indústria.
Do TCC à vitrine internacional em Copenhague
O projeto não ficou restrito à sala de aula. O Gjenreis foi apresentado durante a exposição Built by Design, realizada na edição de 2026 da 3daysofdesign, em Copenhague, um dos principais encontros de design da Europa.
O evento tem data e peso definidos. A 3daysofdesign 2026 aconteceu entre os dias 10 e 12 de junho, reunindo profissionais e estudantes de todo o mundo na capital dinamarquesa para discutir os rumos do design contemporâneo.
Foi uma vitrine e tanto para um trabalho de graduação. A mostra reuniu projetos desenvolvidos por estudantes da OsloMet que investigam novas possibilidades para materiais, sistemas construtivos e processos de fabricação sob a perspectiva da economia circular.
A exposição que colocou o material no centro
A Built by Design não tratou de móveis ou objetos decorativos, mas de algo mais estrutural. Com curadoria de Madeleine K. Wieser, a exposição reuniu experimentos com madeira, lã, alumínio, pedra natural, larvikita e tijolos reciclados.
A proposta era provocar uma reflexão específica. A mostra buscou discutir como o design pode contribuir para reduzir o desperdício de recursos e ampliar o ciclo de vida dos materiais na arquitetura, indo além da estética.
É um recorte pouco comum em eventos do tipo. Em vez de olhar para o produto final, os projetos olham para o que está por trás das paredes — os sistemas, as juntas e os processos que determinam se um edifício vira patrimônio ou entulho.
Por que a ideia importa para a construção civil
O que essas duas estudantes propõem vai muito além de uma divisória bonita. A obra tradicional é, por natureza, um caminho sem volta: o que é erguido com argamassa raramente volta a ser matéria-prima, e cada reforma tende a gerar uma montanha de resíduo.
Sistemas desmontáveis atacam justamente esse ponto. Ao permitir que a parede seja desfeita sem destruir os tijolos, o projeto transforma cada divisória em um estoque temporário de material — pronto para ser usado de novo em outro lugar, em outro formato.
E talvez esteja aí o maior mérito da proposta. O Gjenreis não inventa um material novo: ele reinventa o modo como usamos um material antiquíssimo, mostrando que boa parte da inovação em sustentabilidade está em repensar o óbvio.
E você, moraria numa casa de tijolos desmontáveis?
De um trabalho de conclusão de curso na Noruega a uma exposição em Copenhague, o Gjenreis mostra que até a mais antiga das paredes pode ser repensada desde que alguém se disponha a questionar por que o tijolo precisa ficar preso para sempre.
E você, toparia ter uma parede de tijolos que se monta e desmonta como Lego? Acha que soluções assim podem chegar às obras brasileiras? Conte nos comentários a sua opinião e marque aquele amigo que ama arquitetura e sustentabilidade.
