Com usinas solares flutuantes instaladas sobre reservatórios hidrelétricos, as Filipinas combinam geração renovável, redução da evaporação da água, aumento da eficiência energética e aproveitamento inteligente da infraestrutura já existente no país.
Segundo a PV Magazine, a empresa NKS Solar One — joint venture entre a Blueleaf Energy Philippines e a NKS Energy Utilities, com investimento de US$ 1,5 bilhão do grupo australiano Macquarie — está construindo dois parques solares flutuantes nas Filipinas: 162 MW no Lago Caliraya e 88 MW no Lago Lumot, ambos na província de Laguna, a sudeste de Manila. Juntos, os dois projetos somam 250 MW de capacidade com operação comercial prevista para o segundo trimestre de 2026. O que distingue o NKS Solar One de qualquer parque solar convencional não é apenas a localização sobre a água.
É o conjunto de benefícios simultâneos que os painéis flutuantes produzem para os mesmos reservatórios que os sustentam: redução de até 70% na taxa de evaporação da água, supressão de florações de algas que degradam a qualidade da água, resfriamento dos painéis pela proximidade com a água que aumenta a eficiência de geração, e produção de energia limpa sem ocupar nenhum hectare de terra firme em um país que, com 115 milhões de habitantes e 7.100 ilhas, tem terra disponível como um dos recursos mais disputados.
O NREL — Laboratório Nacional de Energia Renovável dos Estados Unidos — identificou 584 instalações de solar flutuante ao redor do mundo com capacidade total de 10 GW em setembro de 2024. Em menos de uma década, a tecnologia passou de experimento a indústria.
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Por que reservatórios de hidrelétricas perdem água — e como os painéis ajudam
A evaporação de reservatórios é uma das perdas de recursos naturais menos discutidas na geração hidrelétrica — e uma das mais relevantes em regiões tropicais como o Brasil e as Filipinas, onde temperatura e radiação solar intensa combinam para evaporar volumes significativos de água ao longo do ano.
Em reservatórios tropicais, a perda por evaporação pode representar entre 5% e 15% do volume total de água disponível para geração anualmente. Em anos de seca, quando o nível dos reservatórios já está comprometido, essa perda adicional tem impacto direto na capacidade de geração. O reservatório de Itaipu, por exemplo, tem superfície de aproximadamente 1.350 km² — uma área em que a evaporação anual pode representar bilhões de litros de água que nunca passarão pelas turbinas.
Os painéis flutuantes resolvem esse problema bloqueando a radiação solar direta que aquece a superfície da água. Segundo dados da Power Prognosis, a cobertura parcial de um reservatório com painéis reduz a temperatura da água e a taxa de evaporação em até 70% nas áreas cobertas. Isso não apenas conserva a água para a geração hidrelétrica, mas melhora a confiabilidade do reservatório durante períodos de escassez hídrica — exatamente quando a geração é mais crítica.
O resfriamento pela água que aumenta a eficiência dos painéis
Uma das vantagens físicas do solar flutuante que raramente aparece nos resumos técnicos — mas que tem impacto mensurável na produção de energia — é o efeito de resfriamento que a superfície da água exerce sobre os painéis instalados acima dela.
Painéis fotovoltaicos perdem eficiência com o aumento da temperatura. Um painel operando a 65°C produz aproximadamente 12% a 20% menos energia do que o mesmo painel operando a 25°C — uma degradação térmica que afeta diretamente qualquer instalação em ambiente tropical exposto ao sol direto. Em parques terrestres no verão filipino ou brasileiro, essa perda de eficiência é rotineira e inevitável.
Painéis flutuantes operam em ambiente permanentemente mais fresco porque a superfície de água sob eles evapora continuamente, absorvendo calor por evaporação e mantendo o microclima local mais frio do que em terra. A eficiência adicional estimada para instalações flutuantes em relação a instalações terrestres equivalentes varia entre 5% e 15%, dependendo da temperatura ambiente e da velocidade do vento sobre a superfície do lago. Em termos de produção anual, essa diferença pode representar dezenas de gigawatt-hora adicionais sem nenhum custo de capital extra.
NKS Solar One: o projeto de US$ 1,5 bilhão e o primeiro grande FPV das Filipinas
O NKS Solar One é o primeiro grande projeto de solar flutuante das Filipinas — e um dos mais complexos da região asiática por envolver dois lagos em municípios diferentes conectados a uma única subestação de transmissão.
O Lago Caliraya receberá o maior dos dois parques, com 162 MW de capacidade. O Lago Lumot receberá 88 MW. Os dois projetos totalizam 220 MWp de capacidade máxima de saída, segundo Rafael Macabiog, gerente de projetos da Blueleaf. A conexão à rede será feita via linha de transmissão de 230 kV de 6 km até a subestação de Lumban da NGCP — a companhia nacional de transmissão das Filipinas. O custo total do projeto é estimado em PHP 15 bilhões, equivalente a aproximadamente US$ 260 milhões apenas para o NKS Solar One, parte do portfolio total de US$ 1,5 bilhão que a Blueleaf está investindo nas Filipinas.
O projeto recebeu certificação de Projeto Energético de Significância Nacional pelo governo filipino — uma classificação que agiliza aprovações regulatórias e simplifica o processo de licenciamento. A China Energy Engineering Corporation International assinou contrato EPC para o projeto do Lago Caliraya, enquanto a Xian Electric ficará responsável pela subestação. A produção esperada é de aproximadamente 200 milhões de kWh por ano para o componente do Caliraya isoladamente, suficiente para abastecer mais de 165 mil residências filipinas com consumo médio.
O que a supressão de algas tem a ver com o custo da energia
Um dos benefícios do solar flutuante que aparece apenas nos estudos técnicos mais detalhados — raramente nos comunicados de projeto — é a supressão de florações de algas nos reservatórios cobertos pelos painéis.
Florações de algas em reservatórios são um problema crescente em regiões tropicais, onde temperatura da água elevada combinada com nutrientes da drenagem agrícola cria condições ideais para o crescimento acelerado de cianobactérias e outras algas. O impacto vai além do ambiental: florações intensas contaminam a água com toxinas, aumentam drasticamente os custos de tratamento para abastecimento humano e podem reduzir o oxigênio dissolvido no reservatório a ponto de matar peixes em escala comercial.
Os painéis flutuantes bloqueiam a radiação solar que alimenta o crescimento das algas, criando zonas de sombra onde as florações não conseguem se estabelecer. A supressão de algas reduz os custos de tratamento de água dos reservatórios que atendem populações ribeirinhas, melhora a qualidade da água disponível para a própria usina hidrelétrica — porque algas em excesso danificam turbinas e sistemas de filtragem — e preserva o ecossistema aquático que a comunidade pesqueira local depende.
Os 1.300 reservatórios brasileiros e o potencial inexplorado
O Brasil tem 1.300 reservatórios de hidrelétricas com superfície total que representa um dos maiores potenciais mundiais para solar flutuante — e esse potencial permanece praticamente inexplorado.
Estimativas conservadoras de pesquisadores brasileiros indicam que cobrir apenas 5% da superfície dos principais reservatórios do Brasil com painéis flutuantes geraria mais de 100 GW de capacidade solar — sem ocupar nenhuma terra firme e com todos os benefícios secundários de redução de evaporação, supressão de algas e resfriamento natural. Para contexto: toda a capacidade instalada de geração elétrica do Brasil somava 215 GW em 2024. Solar flutuante em 5% dos reservatórios adicionaria quase metade disso.
O reservatório de Balbina, no Amazonas — criado por uma hidrelétrica que hoje é considerada um dos maiores erros ambientais da história energética brasileira, por inundar 2.360 km² de floresta para gerar apenas 250 MW — tem superfície que sozinha poderia abrigar dezenas de gigawatts de solar flutuante. Itaipu, Tucuruí, Serra da Mesa e Furnas têm superfícies comparáveis às Filipinas inteiras. O modelo que a Blueleaf, a NKS Solar One e a CEEC estão implantando nos lagos de Laguna em 2026 é o mesmo que poderia transformar os passivos ambientais das hidrelétricas brasileiras em ativos energéticos sem construir uma única nova represa.
584 instalações e 10 GW: a indústria que cresceu sem fazer barulho
A solar flutuante passou de curiosidade de laboratório para indústria global em menos de quinze anos. O NREL documentou 584 instalações com capacidade total de 10 GW em setembro de 2024 — número que não existia como categoria de geração em 2015.
A China domina o mercado, com o maior parque de solar flutuante do mundo: a usina de Huainan, em Anhui, com 150 MW instalados sobre uma mina de carvão alagada — outro exemplo de dupla utilidade de infraestrutura de passivo ambiental. O Japão tem dezenas de instalações em reservatórios de usinas nucleares desativadas e de hidrelétricas. A Coreia do Sul, a Holanda e a Índia têm projetos em diferentes estágios. O mercado global de solar flutuante foi avaliado em mais de US$ 3 bilhões em 2023 com projeções de crescimento acima de 20% ao ano até 2030, segundo a Allied Market Research.
O que une todos esses projetos — do Lago Caliraya nas Filipinas ao reservatório de Huainan na China, do potencial inexplorado de Balbina no Amazonas à hidrelétrica de Cirata na Indonésia, inaugurada em novembro de 2023 com 192 MW — é a mesma lógica que a pauta da Índia cobrindo canais de irrigação com painéis solares articula: a infraestrutura hídrica que foi construída para um único propósito pode gerar energia, economizar água e melhorar o ecossistema ao mesmo tempo, desde que alguém decida instalar painéis onde antes havia apenas superfície refletindo sol para o céu.

Aqui no Brasil isso não vai pra frente porquê os empresários das usinas termoelétricas precisam de dinheiro.