Filho de trabalhadores rurais do interior do Piauí, Evando Lustosa começou a trabalhar cedo e só iniciou sua trajetória nos concursos já adulto. A estratégia foi subir degrau por degrau, passando por cargos menores enquanto continuava estudando até chegar a aprovações no Ministério da Fazenda, Banco do Brasil e DNIT.
Antes de aparecer em listas de aprovados de órgãos federais, Evando Vaz Lustosa carregou material de construção, trabalhou como servente de pedreiro, camelô, vendedor, cobrador e ajudou o pai na roça. Filho de trabalhadores rurais de Barras, no interior do Piauí, ele perdeu a mãe aos seis anos e estudou durante toda a formação básica na rede pública.
A virada não aconteceu de uma vez. Evando fez o primeiro concurso em 2001, conseguiu o primeiro lugar para técnico em contabilidade na Prefeitura de Barras, mas não foi nomeado. No ano seguinte, entrou no bacharelado em Ciências Contábeis da Universidade Estadual do Piauí, a UESPI, e passou a conciliar emprego durante o dia e estudo à noite.
Segundo entrevista concedida por Evando ao Estratégia Concursos e publicada em 19 de agosto de 2015, a rotina acabaria levando a mais de dez aprovações em concursos e processos seletivos, além de diferentes nomeações ao longo dos anos. Entre os resultados relatados por ele estão três primeiros lugares consecutivos em seleções do IBGE e aprovações no Banco do Brasil, Ministério da Fazenda e DNIT.
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Aos 10 anos, filha de pedreiro acompanhava o pai nos canteiros de obras e decidiu que um dia seria engenheira; depois de estudar a vida inteira em escola pública, conquistou uma vaga em Engenharia Civil na Poli-USP aos 18 anos e fez o pai parar o carro e chorar ao receber a notícia da aprovação
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Depois de começar a trabalhar como camelô aos 7 anos, vender salgados, refrescos e latinhas nos ônibus de Rio Branco e até pular catraca para economizar os poucos trocados da família, acreano estuda em escola pública, vira mecânico, passa em quatro concursos e aos 33 anos chega ao comando de duas companhias do Bope
A trajetória, porém, teve uma característica que explica boa parte dos resultados e também o custo pessoal da preparação. Como precisava trabalhar para sustentar a casa, Evando reservava justamente o período em que a maioria das pessoas dormia para estudar. Em condições normais, começava por volta das 20h e seguia até as 2h da manhã.
O primeiro lugar em 2001 veio acompanhado da primeira grande frustração
O primeiro concurso de Evando foi realizado em 2001, quando ele ainda tinha como formação profissional o curso técnico em contabilidade. Ele conseguiu a primeira colocação para um cargo de técnico na prefeitura de sua cidade, mas afirmou que não chegou a ser chamado.
O episódio poderia ter encerrado ali a tentativa de entrar no serviço público. Em vez disso, em 2002 ele prestou vestibular para Ciências Contábeis na UESPI e foi aprovado. A partir daí, passou a trabalhar durante o dia em uma rede de supermercados e frequentar a universidade à noite.
A preparação mais intensa para concursos viria alguns anos depois. Em 2006, Evando voltou às seleções públicas e afirmou ter terminado em primeiro lugar em um processo seletivo simplificado do IBGE. Nos dois processos seguintes do instituto, segundo seu relato, voltou a alcançar a primeira posição.
A história também foi repercutida em 2015 pelo portal MeioNews, que registrou a origem de Evando em Barras e os diferentes trabalhos exercidos antes de sua sequência de aprovações. O relato mostra que a preparação aconteceu paralelamente à necessidade permanente de trabalhar, e não em um período exclusivo de estudos.
Para continuar estudando, ele decidiu prestar concurso para vigilante

Em 2007, Evando mudou a maneira de encarar os concursos. Ele queria chegar a cargos mais disputados, mas avaliava que ainda não tinha renda e tempo suficientes para manter uma preparação de longo prazo.
A solução foi criar uma espécie de “escada” dentro do serviço público. Naquele ano, decidiu disputar uma vaga de vigilante em concurso da Secretaria de Administração do Estado do Piauí. A ideia era conquistar renda estável para ele e a esposa e, ao mesmo tempo, abrir espaço na rotina para continuar estudando.
Evando afirmou ter ficado novamente em primeiro lugar em sua cidade. A partir daquele ponto, as provas passaram a fazer parte constante da rotina, com resultados positivos e também eliminações por margens muito pequenas.
Entre as tentativas que não terminaram em nomeação estavam concursos para auditor da Secretaria da Fazenda do Piauí, para a Controladoria-Geral do Estado do Piauí e outros cargos. Em um deles, relatou ter sido eliminado na disciplina de Estatística por diferença de uma questão.
Quando surgia um edital, as noites ficavam ainda mais longas
A preparação não significava isolamento completo. Evando contou que mantinha o convívio com familiares e amigos sempre que conseguia durante o dia e nos fins de semana. O sacrifício maior acontecia à noite.
Como trabalhava e estudava simultaneamente, reservava o intervalo entre 20h e 2h para os livros e materiais de concurso. Quando se inscrevia para uma prova, aumentava a carga de estudos e também ocupava parte dos fins de semana com leitura e revisão.
O método não era sofisticado. A lógica era acumular conhecimento ao longo do tempo e continuar fazendo provas relacionadas às áreas em que já vinha estudando. Anos depois, o próprio Evando reconheceu que prestar concursos de conteúdos muito diferentes podia atrasar o objetivo principal.
Por isso, depois de alcançar maior estabilidade financeira, passou a defender uma preparação mais concentrada. A meta declarada na entrevista de 2015 era continuar estudando para a área fiscal, especialmente para concursos de auditor.
Aprovação nem sempre significou nomeação e algumas vagas escaparam por pouco
A relação apresentada por Evando ajuda a separar dois conceitos que frequentemente aparecem misturados nas histórias de concurseiros. Ser aprovado ou classificado não significa necessariamente ser nomeado, já que a convocação depende da posição, do número de vagas, da validade do concurso e das regras previstas no edital.
Ele relatou, por exemplo, duas aprovações em nono lugar nos Correios, para carteiro e atendente, sem nomeação. Na Caixa Econômica Federal, ficou em 42º para Teresina e afirmou que apenas 18 candidatos foram chamados.
No concurso do INSS para Batalha, no Piauí, teria alcançado o sétimo lugar, enquanto as convocações chegaram ao sexto colocado. Também apareceram em sua lista resultados para contador no IFMA e no Ministério Público da União, além de outras seleções.
Essas experiências ajudam a entender por que a trajetória não pode ser resumida apenas ao número de aprovações. Foram anos alternando resultados próximos, classificações sem convocação e concursos efetivamente convertidos em emprego público.
Ministério da Fazenda, Banco do Brasil e DNIT passaram a integrar a lista
Uma das nomeações mais fáceis de verificar documentalmente ocorreu em 2011. O Diário Oficial da União de 6 de julho daquele ano publicou portaria do Ministério da Fazenda nomeando candidatos aprovados para o cargo de Assistente Técnico-Administrativo, e Evando Vaz Lustosa aparece na relação de Minas Gerais na classificação 386.
No relato feito quatro anos depois, Evando também informou ter sido nomeado no Banco do Brasil em 2011, após obter a 11ª colocação no Piauí. A lista apresentada por ele incluía ainda o cargo de fiscal de tributos municipais em Campo Maior, seleções do IBGE em 2006, 2008 e 2010 e a Secretaria de Administração do Piauí.
O passo seguinte foi o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Documentação oficial do concurso do DNIT publicada em maio de 2013 registra Evando Vaz Lustosa entre os classificados no Piauí, com nota final de 147 pontos e quarta posição na relação apresentada pelo órgão.
Na entrevista de 2015, ele informou que havia sido nomeado naquele ano para o DNIT e que então exercia o cargo de analista administrativo na área contábil. Como esse dado descreve a situação declarada por Evando em 2015, ele não deve ser interpretado como confirmação de que permaneça atualmente no mesmo cargo.
Da roça e das obras públicas ao Diário Oficial, a estratégia foi avançar um cargo de cada vez
O que diferencia a trajetória de Evando não é uma aprovação isolada. O percurso começou com empregos de baixa remuneração, passou pelo primeiro lugar que não resultou em nomeação em 2001 e seguiu por uma sequência de concursos em diferentes níveis.
Também não houve uma fase em que ele simplesmente abandonou o trabalho para estudar. O tempo de preparação foi retirado principalmente das noites, enquanto a renda dos empregos e, depois, dos primeiros cargos públicos sustentava o próximo passo.
A própria estratégia mudou conforme as condições financeiras melhoraram. No início, Evando fazia concursos que poderiam proporcionar estabilidade suficiente para continuar estudando. Mais tarde, já com uma posição profissional melhor, passou a concentrar os esforços em cargos de maior complexidade e na área fiscal.
A história também mostra um lado menos visível dos concursos públicos. Entre uma nomeação e outra aparecem candidatos que passam, ficam fora das vagas imediatas, esperam convocações ou perdem a classificação por diferenças mínimas. No caso de Evando, foram justamente esses resultados acumulados durante anos que antecederam as nomeações que mudaram sua trajetória profissional.
E você, conseguiria manter uma rotina de trabalho durante o dia e estudar das 20h às 2h por anos para buscar uma vaga no serviço público? Deixe nos comentários o que mais chamou sua atenção na trajetória de Evando Lustosa e se você também conhece alguma história de quem mudou de vida por meio dos estudos e dos concursos públicos.
