Thales Campos passou 11 anos trabalhando desde a infância, estudou em escolas públicas da periferia de Rio Branco e encontrou numa oficina de motos o caminho para a Polícia Militar; anos depois, tornou-se oficial do Bope e avançou para novas funções de comando
Antes da farda preta do Batalhão de Operações Especiais, das formações policiais e dos cargos de comando, Thales Freitas Campos vendia salgados, refrescos e latinhas nos ônibus de Rio Branco, no Acre. Ele começou a trabalhar aos 7 anos para ajudar a mãe no sustento de casa e manteve a rotina de trabalhos informais durante boa parte da infância e da adolescência.
Aos 19 anos, depois de concluir o ensino médio em escolas públicas da periferia da capital acreana, fez um curso de mecânica de motocicletas e conseguiu seu primeiro emprego formal. Foi dentro da oficina, enquanto consertava motos de policiais, que começou a considerar uma carreira que até então parecia distante da realidade de sua família.
O estudo para concursos entrou na rotina. Thales seria aprovado em quatro seleções para o serviço público, incluindo Polícia Militar do Acre, Corpo de Bombeiros, Polícia Civil e agente comunitário de saúde. Escolheu a PM e, depois de ingressar como soldado, avançou até o oficialato e chegou ao Bope.
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A história ganhou repercussão em outubro de 2022, quando o Governo do Acre publicou um perfil do então tenente, aos 33 anos, que comandava simultaneamente as companhias de Choque e de Operações Especiais do Bope. A carreira continuou depois daquela reportagem e, em 2026, Thales aparece em uma função diferente, como capitão e subcomandante do 6º Batalhão da Polícia Militar no Vale do Juruá.
Aos 7 anos, o trabalho já fazia parte da rotina entre a Baixada e o Terminal Urbano de Rio Branco
Thales cresceu na região da Baixada, em Rio Branco. Primogênito de três filhos, foi criado pela mãe junto com duas irmãs e começou ainda criança a participar do esforço para colocar dinheiro dentro de casa.
A família transportava mercadorias nos ônibus que circulavam entre a Baixada e o Terminal Urbano. Entre os produtos vendidos estavam salgados, refrescos e latinhas. O volume das mercadorias chamava atenção dentro do transporte coletivo e, segundo o relato posteriormente feito pelo policial, havia passageiros que demonstravam incômodo com as bolsas e produtos carregados pela família.
O dinheiro era contado. Thales chegou a pular a catraca do ônibus para economizar pequenos valores durante os deslocamentos, uma lembrança que ajuda a dimensionar a situação financeira daquele período. A rotina de trabalho iniciada aos 7 anos se estendeu por aproximadamente 11 anos, sem que ele abandonasse a escola.
A oficina de motos aproximou o jovem dos policiais e mudou o rumo que ele imaginava para a própria vida

Mesmo trabalhando, Thales continuou frequentando escolas públicas da periferia de Rio Branco e concluiu o ensino médio. Aos 19 anos, buscou uma profissão técnica e fez um curso de mecânica de motocicletas.
O emprego em uma oficina trouxe uma mudança inesperada. Diversos clientes eram policiais, e o contato frequente com esses profissionais fez o jovem observar o serviço público como uma possibilidade concreta de melhorar a renda da família e construir uma carreira.
Sem uma preparação estruturada, cursinho caro ou orientação especializada, passou a estudar para concursos e vestibulares enquanto trabalhava. O alvo não era inicialmente uma única corporação. Thales tentou diferentes caminhos dentro do serviço público.
O resultado apareceu em 2012. Ele foi aprovado para soldado da Polícia Militar do Acre e também conseguiu aprovação em seleções do Corpo de Bombeiros, Polícia Civil e para agente comunitário de saúde. A sequência de resultados mudou a percepção que tinha sobre as próprias possibilidades profissionais.
Depois de entrar como soldado, uma segunda aprovação abriu o caminho para o oficialato da Polícia Militar
A escolha foi pela Polícia Militar do Acre. Embora a aprovação no concurso tenha ocorrido em 2012, registros posteriores da própria trajetória funcional apontam Thales como integrante da turma de soldados de 2013.
Durante cerca de quatro anos, ele permaneceu na carreira de praça. Em seguida, prestou outro concurso, desta vez para se tornar oficial da própria corporação, e foi aprovado novamente.
Um registro oficial do processo de formação de oficiais mostra Thales Freitas Campos entre os convocados para o curso, que previa pelo menos 3.600 horas de formação e dedicação em tempo integral. Já documentos e registros posteriores da carreira situam seu ingresso no oficialato em 2017.
A partir daí, passou por unidades territoriais até ser transferido, em 2019, para o Batalhão de Operações Especiais. A mudança trouxe outro desafio. Embora já fosse oficial, ele ainda não havia concluído algumas das formações operacionais associadas às unidades especializadas.
No Bope, a falta de cursos operacionais virou uma sequência de treinamentos de alta exigência
Pouco depois de chegar ao Bope, Thales iniciou a formação voltada ao controle de distúrbios civis e passou a integrar o grupo de policiais especializados em Choque. Ao concluir a capacitação, recebeu a missão de comandar a Companhia de Choque.
Em 2021, enfrentou outra etapa. Thales viajou ao Piauí para participar do Curso de Operações Especiais da Polícia Militar daquele estado, conhecido no meio policial pela formação dos chamados “caveiras”.
A seleção ajuda a mostrar o nível de exigência. De acordo com o Conselho Nacional de Comandantes-Gerais das Polícias Militares, 60 profissionais participaram inicialmente do processo, 33 chegaram à aula inaugural e apenas 15 concluíram a formação, entre eles Thales Campos e outro policial militar do Acre. O curso durou mais de quatro meses e envolveu etapas físicas, psicológicas e técnicas.
Depois de retornar ao Acre, ele também assumiu a Companhia de Operações Especiais. Em 2021 concluiu uma formação em operações rurais e, no ano seguinte, passou por capacitação em negociação de crises realizada pela Polícia Militar do Paraná.
A carreira não parou nas duas companhias do Bope e ganhou novas responsabilidades nos anos seguintes
O retrato de Thales aos 33 anos corresponde a um momento específico da carreira. Na época da publicação do perfil pelo governo estadual, em 2022, ele era tenente e comandava as companhias de Choque e de Operações Especiais do Bope.
Nos anos seguintes, foi promovido a capitão e continuou acumulando experiência em unidades especializadas. Em maio de 2025, ao assumir a Companhia de Policiamento Especializado do 6º BPM, em Cruzeiro do Sul, seu histórico funcional registrava seis anos de atuação no Bope, com passagens por comandos da COE, Choque, Rotam, Giro e Canil, além de períodos em que exerceu o subcomando do batalhão. Em 2023, havia acrescentado ao currículo uma formação de atirador designado promovida pela Polícia Rodoviária Federal.
A mudança levou o oficial de Rio Branco para o Vale do Juruá. A Companhia de Policiamento Especializado reúne estruturas como policiamento ambiental, trânsito, operações especiais, Rotam, Giro e grupamento com cães, ampliando a área de responsabilidade em relação às funções que havia desempenhado anteriormente.
O avanço continuou. Em julho de 2026, Thales já era apresentado como subcomandante do 6º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento em municípios do Vale do Juruá. Naquele mês, ele divulgou um balanço do primeiro semestre com 847 operações policiais, quase 35 mil abordagens, 641 prisões, 120 mandados de prisão cumpridos, 31 armas apreendidas e 22 veículos recuperados na região.
O cargo atual muda um detalhe relevante da história que circulou originalmente em 2022. Thales não permanece hoje comandando as mesmas duas companhias do Bope. A passagem pelo comando das duas unidades faz parte da trajetória que o levou a funções posteriores dentro da Polícia Militar do Acre.
De camelô na infância a oficial responsável por operações policiais no Vale do Juruá
Há uma distância de décadas entre o menino que percorria ônibus de Rio Branco carregando mercadorias e o oficial que hoje participa da gestão operacional de um batalhão no interior do Acre. O caminho passou por escola pública, trabalho informal, uma oficina de motocicletas, sucessivas provas de concurso e cursos policiais realizados dentro e fora do estado.
O próprio Thales associou essa mudança principalmente à educação. Quando contou sua história em 2022, explicou que enxergava o estudo como a alternativa disponível para alguém que havia crescido numa família com poucos recursos e poucas oportunidades.
A trajetória também evita uma leitura simplista de sucesso repentino. Foram cerca de 11 anos trabalhando desde a infância, seguidos por formação profissional, ingresso como soldado, novo concurso para o oficialato, dois anos de formação e uma sequência de especializações até chegar às unidades operacionais mais exigentes da corporação.
Da venda de salgados e latinhas nos ônibus aos cargos de comando na Polícia Militar do Acre, a história de Thales Campos chama atenção pela quantidade de etapas atravessadas. E para você, qual parte dessa trajetória mais surpreende: começar a trabalhar aos 7 anos, conseguir quatro aprovações em concursos ou chegar ao comando de unidades especializadas da PM? Deixe sua opinião nos comentários.

