Thamiris Oliveira conheceu ainda criança o trabalho da construção civil ao lado do pai pedreiro, estudou toda a educação básica na rede pública e chegou aos 18 anos à Engenharia Civil da Escola Politécnica da USP. A aprovação transformou em realidade uma escolha feita cerca de oito anos antes, dentro dos canteiros de obras.
Quando tinha aproximadamente 10 anos, Thamiris Oliveira acompanhava o pai pedreiro em algumas obras e observava as casas ganharem forma. Foi naquele ambiente, entre materiais de construção e o trabalho diário do pai, que a paulistana começou a imaginar uma profissão para o futuro.
A escolha foi Engenharia Civil. O caminho até uma das escolas de engenharia mais conhecidas do país, porém, seria percorrido integralmente a partir da rede pública de ensino.
Aos 18 anos, Thamiris conseguiu entrar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Poli-USP. Quando o pai recebeu a notícia da aprovação enquanto dirigia, parou o carro e começou a chorar, segundo relato da própria jovem publicado pela BBC News Brasil no UOL. Na época da reportagem, ela tinha 20 anos e estava no terceiro ano da graduação.
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Para a família, a cena dentro do carro fechava um ciclo iniciado anos antes. O pai que levava a filha para perto dos canteiros agora via aquela criança transformar a curiosidade pelas construções em uma vaga numa universidade pública.
Aos 10 anos, as obras do pai já indicavam o curso que ela escolheria anos depois
A ligação de Thamiris com a Engenharia Civil não surgiu às vésperas do vestibular. Quando acompanhava o pai, ela se interessava principalmente pelo processo de ver uma construção começar e, pouco a pouco, tomar forma.
O ambiente que representava o trabalho do pai acabou servindo de referência profissional para a filha. Em vez de enxergar somente paredes sendo levantadas, ela passou a se interessar por quem projetava, calculava e acompanhava tecnicamente aquelas construções.
Uma dissertação apresentada à Universidade Federal de Sergipe em 2022, ao analisar trajetórias de estudantes e acesso ao ensino superior, também cita o caso de Thamiris. O trabalho registra que ela é filha de pai pedreiro e mãe dona de casa, fez a educação básica em escola pública e ingressou aos 18 anos em Engenharia Civil na USP.
Depois de uma vida inteira em escola pública, a aprovação chegou aos 18 anos

A entrada na USP colocou Thamiris em um curso cuja formação exige uma rotina extensa. No projeto pedagógico mais recente da Poli-USP, a graduação em Engenharia Civil é presencial, funciona em tempo integral e tem duração prevista de cinco anos, distribuídos em dez semestres.
Isso ajuda a dimensionar o tamanho da mudança entre a educação básica e a universidade. A menina que conheceu a construção civil acompanhando o pai passou a estudar formalmente áreas ligadas a estruturas, construção, geotecnia, transportes, hidráulica e outros campos da engenharia.
O momento mais marcante da aprovação, porém, aconteceu longe das salas de aula. Ao descobrir que a filha havia conseguido entrar na USP, o pai precisou interromper o que estava fazendo para absorver a notícia.
Para Thamiris, a reação mostrava o peso que aquele resultado tinha dentro de casa. Não era apenas a escolha de uma carreira que começava a se concretizar. Era também a transformação de uma experiência familiar, o ofício exercido pelo pai, em ponto de partida para uma formação universitária.
A chegada de estudantes da rede pública à USP avançava justamente naquele período
A entrada de Thamiris ocorreu durante um período de mudança no perfil dos estudantes da Universidade de São Paulo. Em 2019, quando sua história ganhou repercussão nacional, 41,8% dos novos alunos da USP haviam cursado todo o ensino médio em escolas públicas, de acordo com dados divulgados pela própria universidade.
A instituição também estava ampliando gradualmente a reserva de vagas. O sistema aprovado pelo Conselho Universitário começou a valer no ingresso de 2018, inicialmente com 37% das vagas de cada unidade reservadas; o percentual passou a 40% em 2019, 45% em 2020 e chegou a 50% por curso e turno a partir de 2021.
Esses números colocam a história individual de Thamiris dentro de uma mudança maior. Alunos vindos da escola pública, antes proporcionalmente menos presentes na universidade, passaram a ocupar uma parcela crescente das vagas.
A tendência continuou nos anos seguintes. Em 2023, a USP informou que 54,1% dos 10.662 estudantes que ingressaram naquele ano eram provenientes de escolas públicas, o maior percentual registrado pela instituição até então.
Entrar na universidade, porém, não encerra as diferenças enfrentadas por quem vem da periferia
A reportagem em que a trajetória de Thamiris apareceu tratava justamente de uma questão que vai além da aprovação no vestibular. Para estudantes de baixa renda, chegar à universidade pode representar apenas uma das etapas de um percurso que envolve transporte, alimentação, necessidade de trabalhar, diferenças na formação anterior e adaptação à rotina acadêmica.
Por isso, histórias como a dela não podem ser reduzidas à ideia simples de que qualquer pessoa consegue alcançar o mesmo resultado apenas com esforço individual. As condições de partida, a qualidade da educação disponível e o apoio necessário para permanecer estudando são diferentes para cada aluno.
No caso de Thamiris, há uma coincidência difícil de ignorar. A profissão do pai colocou a construção civil diante dela ainda na infância, mas de uma posição completamente diferente daquela que ela ocuparia anos depois.
Aos 10 anos, ela observava o pai levantar casas. Aos 18, atravessou os portões da Poli-USP para aprender a projetar e compreender tecnicamente essas construções. E, entre esses dois momentos, a notícia da aprovação produziu uma cena que a família não esqueceu: o pai pedreiro parando o carro e chorando ao saber que a filha havia chegado à Engenharia da USP.
Você acredita que conhecer de perto o trabalho dos pais pode influenciar a escolha profissional dos filhos? Conte nos comentários o que mais chamou sua atenção na trajetória de Thamiris Oliveira e se você conhece outra história de alguém que saiu da escola pública e conquistou uma vaga em uma universidade disputada.

