A Borehole Mining International (BHMI) desenvolveu uma técnica que perfura o leito submarino e aspira os minerais da rocha sem precisar de escavação: uma broca desce, injeta fluido pressurizador que dissolve e mobiliza o minério, e o material sobe pela tubulação — tudo isso sem que nenhuma máquina de grande porte precise tocar o fundo do oceano, e sem criar o crateras e a perturbação de sedimentos que tornam a mineração de fundo do mar tão controversa.
Como funciona a borehole mining e por que ela é diferente
A mineração convencional de fundo do mar — que empresas como a The Metals Company tentam fazer nos nódulos polimetálicos do Pacífico — usa coletores robotizados que varrem o leito oceânico, sugam os nódulos e criam plumas de sedimento que se espalham por centenas de quilômetros. A controvérsia ambiental é enorme, e vários países europeus se posicionaram contra antes mesmo de ter dados suficientes sobre o impacto.
A borehole mining funciona de forma radicalmente diferente. Um furo é perfurado no leito submarino, similar a um poço de petróleo ou de água. Dentro do furo, um sistema hidráulico injeta fluido sob pressão que fragmenta e dissolve o minério in situ. O material liquefeito é então bombeado de volta à superfície pela tubulação. Não há coleta de superfície, não há pluma de sedimento, não há maquinário varrendo o fundo.
A tecnologia não é nova em terra firme — borehole mining é usada há décadas para extrair sal, enxofre, potássio e urânio em terra. O que a BHMI fez foi adaptar a técnica para ambientes offshore, com pressões e profundidades que exigem engenharia completamente diferente.
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Quais minerais a técnica pode acessar
O leito oceânico guarda concentrações expressivas de minerais críticos para a transição energética — lítio, cobalto, manganês, níquel e fósforo aparecem em formações rochosas submersas em plataformas continentais que estão bem mapeadas pela indústria de petróleo e gás. A mesma sísmica usada para encontrar petróleo revela as formações minerais.
O fósforo submarino é particularmente interessante: as reservas terrestres de fósforo — essencial para fertilizantes — estão concentradas em poucos países, principalmente Marrocos. Depósitos submarinos de fosfato em plataformas continentais de países como Namíbia, Nova Zelândia e Brasil representam uma alternativa estratégica que a borehole mining pode tornar economicamente viável.
Para o lítio e o cobalto — os metais da bateria —, as formações de crosta ferromanganesiana em profundidades entre 800 e 2.500 metros nas zonas econômicas exclusivas de vários países têm concentrações documentadas que superam muitos depósitos terrestres. O desafio sempre foi extraí-los sem destruir o ecossistema. A borehole mining sugere um caminho.
O debate ambiental: menos impacto, mas não impacto zero
A borehole mining resolve o problema da perturbação de superfície, mas não elimina todos os riscos ambientais. O fluido injetado para dissolver o minério precisa ser tratado e não pode vazar no ambiente submarino. O furo em si cria um canal permanente no leito. E a extração de minerais de formações rochosas pode alterar a estrutura geológica e a composição química da água de fundo em raio menor, mas ainda significativo.
Ambientalistas são céticos, mas reconhecem que a abordagem é menos impactante do que coletores de superfície. Para as zonas econômicas exclusivas de países que têm esses depósitos — incluindo o Brasil, com sua vasta plataforma continental no Atlântico Sul —, a técnica pode representar acesso a minerais estratégicos sem o custo reputacional de destruir ecossistemas submarinos.
A International Seabed Authority, que regula a exploração mineral em águas internacionais, ainda não tem quadro regulatório específico para borehole mining offshore — o que representa tanto uma oportunidade (menos burocracia imediata) quanto um risco (regras podem mudar).
O que isso significa para o Brasil e a plataforma continental
O Brasil tem uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo — 3,5 milhões de quilômetros quadrados —, com plataforma continental que se estende por centenas de quilômetros no Atlântico Sul. A Amazônia Azul, como é chamada, foi mapeada em parte pela Petrobras na busca por petróleo — e esse mapeamento revela formações que podem conter minerais estratégicos.
A CPRM (Serviço Geológico do Brasil) tem dados de plataforma continental que estão sendo reavaliados sob a ótica de minerais críticos. Se a borehole mining offshore se provar economicamente viável — o que a BHMI afirma que está chegando perto —, o Brasil tem território e dados para ser um dos primeiros países a avaliar sua aplicação.
A transição energética não é um desafio apenas de energia — é um desafio de minerais. E o oceano pode guardar parte da resposta para uma extração com menos impacto do que qualquer alternativa terrestre disponível hoje.
Um detalhe técnico importante da borehole mining é que ela funciona melhor em formações geológicas específicas — essencialmente em rochas que respondem ao tratamento hidráulico com fragmentação e mobilização adequadas. Nem todo depósito mineral submarino é acessível com essa técnica. As plataformas carbonatadas, os depósitos evaporíticos e certas formações de fosfato são mais adequadas do que nódulos polimetálicos duros ou crostas ferromanganesianas. Isso significa que a borehole mining não é a solução universal para toda a mineração de fundo do mar — é uma ferramenta complementar que funciona muito bem em contextos específicos. A BHMI identificou depósitos de fosfato na plataforma continental da Namíbia, da Austrália e do México como alvos prioritários para testes de viabilidade. Para o Brasil, a Petrobras já tem mapeadas formações carbonáticas na plataforma do Espírito Santo e da Bahia que poderiam ser avaliadas como potenciais alvos para a técnica — um uso adicional da infraestrutura de perfuração que já existe para o pré-sal.
Se o oceano guarda os minerais que o mundo precisa para a transição energética, o Brasil vai usar seus 3,5 milhões de km² de Amazônia Azul para se tornar potência de minerais críticos ou vai deixar outros países chegarem primeiro?
