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O lado oculto do ouro brasileiro: 134 trabalhadores foram resgatados de garimpos onde fiscais encontraram riscos de exposição ao mercúrio, inclusive na água usada para lavar o corpo

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 28/10/2026 às 14:45 Atualizado em 28/10/2026 às 15:20
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Dois garimpeiros anônimos vistos de costas perto de calhas de madeira e lagoas de água barrenta em clareira da floresta amazônica.
Trabalhadores em garimpo de ouro artesanal, em cena ilustrativa das condições precárias associadas à atividade. Crédito: Ilustração editorial.
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Uma investigação reuniu 11 fiscalizações em garimpos de ouro da Amazônia e revelou 134 trabalhadores resgatados entre 2020 e 2024, com risco de exposição ao mercúrio e até banho em água possivelmente contaminada.

Um garimpeiro foi encontrado lavando o corpo numa cratera aberta pela extração de ouro, com água possivelmente contaminada por mercúrio. O episódio ocorreu em Novo Mundo, no norte de Mato Grosso, e integra um conjunto de fiscalizações que retirou 134 pessoas de condições análogas à escravidão em garimpos da Amazônia Legal.

Os resgates aconteceram entre 2020 e 2024, no Pará, em Mato Grosso e no Amazonas. Os casos foram reunidos em uma investigação da Repórter Brasil publicada em 28 de outubro de 2026, baseada em 11 relatórios de inspeção do Ministério do Trabalho e Emprego. Em pelo menos oito operações, a extração mineral ocorria sem autorização ou de forma ilegal.

Trabalhador se lavava em cratera de garimpo sem instalações básicas de higiene

Em fevereiro de 2020, fiscais chegaram a uma área de mineração de ouro em Novo Mundo e resgataram duas pessoas. Uma delas tentava retirar a lama acumulada no corpo e nas roupas antes de comer, usando a água da própria cava aberta pela exploração mineral.

Os auditores classificaram a água como possivelmente contaminada por mercúrio. O alojamento era um barracão de madeira sem instalações sanitárias adequadas, enquanto os trabalhadores manuseavam a substância sem luvas, óculos e proteção respiratória apropriada.

A falta de banho seguro se somava à exposição ocupacional. Os fiscais registraram risco de contaminação das roupas e dos objetos pessoais por produtos tóxicos e apontaram condições degradantes suficientes para caracterizar trabalho análogo à escravidão naquele local.

Garimpeiros trabalham em mineração de ouro em Jacareacanga (PA) sem luvas ou capacetes de segurança; em 2020, cinco pessoas foram resgatadas do trabalho escravo no local (Foto: Reprodução/MTE)
Garimpeiros trabalham em mineração de ouro em Jacareacanga (PA) sem luvas ou capacetes de segurança; em 2020, cinco pessoas foram resgatadas do trabalho escravo no local (Foto: Reprodução/MTE)

No Pará, 31 trabalhadores foram resgatados em garimpo sem proteção adequada

Outras operações ocorreram no Pará. Em Rio Maria, quatro trabalhadores foram resgatados em maio de 2021. O relatório descreveu que o mercúrio empregado na separação do ouro escoava para águas acumuladas nas áreas de exploração, com risco de atingir solo, vegetação e animais.

Já em Jacareacanga, na bacia do Tapajós, 31 trabalhadores foram resgatados em outubro de 2020. A inspeção registrou manipulação de mercúrio, falta de acompanhamento médico ocupacional e riscos adicionais relacionados a máquinas pesadas, ruídos, quedas e desmoronamentos.

A precariedade aparecia até nos equipamentos mais simples. Parte das botas havia sido levada pelos próprios empregados ou comprada no estabelecimento. Faltavam equipamentos de proteção fornecidos gratuitamente para o trabalho.

Mercúrio utilizado para separar ouro também pode alcançar rios e peixes

O mercúrio é usado em determinadas modalidades de garimpo para reunir partículas de ouro presentes no material extraído. Durante a manipulação e o aquecimento da mistura, os vapores da substância podem atingir diretamente quem permanece perto do processamento.

Nos garimpos investigados, os relatórios identificaram situações de risco de intoxicação, sem apresentar um diagnóstico clínico confirmado para cada um dos 134 resgatados. A ausência de exames e de acompanhamento médico também dificulta dimensionar os possíveis danos já sofridos.

O metal pode alcançar sedimentos e cursos d’água, entrar na cadeia alimentar e atingir comunidades que consomem peixes dos rios amazônicos. Dependendo da forma e do nível de exposição, o mercúrio pode comprometer os rins e o sistema nervoso, com efeitos sobre movimentos, memória e equilíbrio.

Pesquisa com 863 garimpeiros encontrou jornadas de 12,5 horas e sinais de exploração

A vulnerabilidade dos trabalhadores aparece em outro levantamento, realizado na bacia do Tapajós pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e citado pela investigação. Entre 863 garimpeiros entrevistados, cerca de 40% apresentaram indicadores de possível tráfico de pessoas para fins de trabalho escravo, segundo os critérios do estudo.

Os entrevistados relataram jornadas médias de 12,5 horas por dia, durante seis dias e meio por semana. Mais da metade recebia menos do que o salário mínimo ou o pagamento combinado. Parte dos trabalhadores dependia de quem controlava o garimpo para transporte, alojamento e suprimentos.

Os percentuais refletem a amostra investigada no Tapajós, sem representar uma estimativa de quantas pessoas trabalham nessas condições em todos os garimpos do país.

Mercúrio clandestino entrou na mira do MPF enquanto fiscais cobram mais proteção

A circulação do metal também chegou à Justiça. Em agosto de 2026, o Ministério Público Federal informou que 14 pessoas passaram à condição de rés numa investigação sobre um esquema que movimentou cerca de 5,4 toneladas de mercúrio entre 2019 e 2022 para garimpos ilegais. É uma frente de apuração distinta dos 11 resgates trabalhistas.

Frascos de mercúrio ao lado de balança de precisão e munições apreendidas durante fiscalização em Maués/AM (Foto: Reprodução/MTE)
Frascos de mercúrio ao lado de balança de precisão e munições apreendidas durante fiscalização em Maués/AM (Foto: Reprodução/MTE)

A segurança na mineração é regida pela NR-22, que exige identificação dos perigos, medidas de proteção e suspensão das atividades diante de riscos graves. A fiscalização trabalhista também pode resgatar pessoas submetidas a condições degradantes, mesmo quando não há prisão física ou correntes.

Na Amazônia, a distância entre os locais de extração, as denúncias escassas e a falta de exames ocupacionais tornam as violações difíceis de identificar. Segundo os profissionais ouvidos pela Repórter Brasil, as equipes trabalhistas frequentemente chegam aos garimpos em operações conjuntas com órgãos ambientais e policiais.

Após o resgate, trabalhadores ainda enfrentam a dependência econômica do garimpo

O procurador do Trabalho Eduardo Serra, ouvido pela investigação, defende que o combate alcance também os financiadores da extração e ofereça alternativas de renda a quem foi resgatado. O controle de transporte e suprimentos pelos empregadores pode impedir que os garimpeiros deixem áreas isoladas por conta própria.

Os 134 resgates registrados nos 11 relatórios expõem dois riscos que se acumulam: exploração do trabalho e contato potencial com uma substância tóxica. As operações ocorreram de 2020 a 2024, e a investigação que as reuniu veio a público em outubro de 2026. O desafio é localizar as frentes de extração, proteger os trabalhadores e evitar que voltem às mesmas condições.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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