Um jornalista britânico transformou uma ilha abandonada nas Seychelles em área protegida ao longo de décadas, com reflorestamento e manejo de fauna, em um processo que envolveu trabalho manual, disputas por preservação e reconhecimento oficial como parque nacional.
Em 1962, o jornalista britânico Brendon Grimshaw comprou a ilha de Moyenne, no arquipélago das Seychelles, por 8.000 libras esterlinas e iniciou um projeto de recuperação ambiental que se estendeu por décadas.
Ao lado do seichelense René Lafortune, ele liderou o plantio manual de 16 mil árvores, abriu trilhas e promoveu ações para favorecer o retorno de animais à área.
Anos depois, o governo das Seychelles reconheceu Moyenne como parque nacional, o que reforçou a proteção legal do território.
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Brendon Grimshaw e a decisão de comprar Moyenne
Antes de se estabelecer em Moyenne, Grimshaw trabalhou como jornalista e editor fora do Reino Unido, com passagem por redações na África, segundo registros locais sobre sua trajetória.
A compra da ilha ocorreu durante uma visita às Seychelles, quando ele decidiu investir em um terreno de cerca de nove hectares e transformá-lo em um projeto de longo prazo.

A mudança definitiva para Moyenne é descrita em arquivos do Seychelles Nation como tendo ocorrido em 1973, quando Grimshaw passou a viver na ilha para conduzir o trabalho de forma contínua.
Até então, o local estava sem ocupação permanente havia décadas, com relatos de presença de muitos ratos e de uma vegetação fechada que dificultava a circulação.
Vegetação densa e o cenário inicial na ilha
Relatos sobre a condição inicial de Moyenne apontam para um ambiente tomado por vegetação densa, com poucos caminhos abertos e baixa presença de aves.
No documentário A Grain of Sand, Grimshaw descreveu o grau de obstrução da mata ao comentar que o nível de cobertura era tão alto que frutos caíam sem alcançar o solo.
“A vegetação era tão densa que um coco que caía de uma árvore nem sequer chegava ao chão.”
A frase é usada em diferentes reconstruções dessa história para ilustrar o ponto de partida.
Ainda assim, registros públicos disponíveis não trazem medições técnicas detalhadas dessa densidade, apenas descrições do próprio Grimshaw e de materiais baseados em seu relato.

Reflorestamento com 16 mil árvores e abertura de trilhas
A intervenção na ilha ocorreu de forma gradual.
Em vez de obras de grande porte, o trabalho se concentrou em limpeza controlada, reintrodução de espécies vegetais e criação de rotas de acesso.
Segundo o Seychelles Nation, Grimshaw e Lafortune plantaram 16.000 árvores manualmente, com menção a espécies como mogno e palmeiras, além de outras plantas consideradas importantes para recompor a cobertura vegetal.
A abertura de trilhas também aparece como parte central do processo.
Registros locais citam cerca de 4,8 quilômetros de caminhos na ilha, usados para permitir deslocamento, manejo do território e acompanhamento do que estava sendo replantado.
Com os trajetos definidos, a circulação deixou de depender de passagem improvisada em meio à mata.
Com o avanço do reflorestamento, fontes locais relatam aumento de aves na ilha ao longo dos anos, associando o movimento à oferta de abrigo e alimento.
Um dos números citados pelo Seychelles Nation é o de cerca de 2.000 novas aves atraídas para Moyenne com a recuperação.
O material, porém, não detalha metodologia de contagem nem o recorte temporal exato do levantamento.
Tartarugas gigantes em Moyenne e monitoramento da fauna
A presença de tartarugas gigantes também passou a ser usada como um dos indicadores mais visíveis da transformação do local.
Em reportagens relacionadas ao reconhecimento de Moyenne como parque nacional, autoridades e o próprio Grimshaw mencionaram a introdução de 110 tartarugas gigantes na ilha.

Já em textos posteriores, o mesmo jornal registrou que Grimshaw cuidava de 120 tartarugas gigantes, o que sugere aumento do grupo ao longo do tempo.
Os registros disponíveis descrevem que parte desses animais foi marcada e acompanhada, mas não apresentam, nos trechos públicos consultados, informações completas sobre protocolos de monitoramento ou instituições responsáveis por auditoria desse acompanhamento.
O que aparece com mais frequência é a caracterização do manejo como um esforço contínuo, realizado em conjunto com a rotina de manutenção da ilha.
Oferta de compra e disputa por preservação nas Seychelles
A trajetória de Moyenne se desenvolveu em paralelo ao crescimento do interesse turístico pelas Seychelles, especialmente a partir da segunda metade do século 20.
Dentro desse contexto, Grimshaw passou a defender que a ilha tivesse proteção oficial para evitar mudanças de uso do solo que alterassem seu perfil ambiental.
Nos anos 1980, Brendon Grimshaw viu sua convicção ser testada de forma direta.
Com a valorização das Seychelles e o avanço do interesse de investidores internacionais, Moyenne passou a despertar a cobiça de milionários.
Segundo a BBC, um príncipe saudita teria oferecido até US$ 50 milhões pela ilha, mas o jornalista britânico recusou a proposta sem hesitar.
Para Grimshaw, o território não era um ativo de luxo, e sim um projeto de vida ligado à recuperação ambiental e à preservação.
A resposta foi categórica: a ilha não estava à venda.
Sem herdeiros e já sentindo o peso da idade, ele passou a se preocupar cada vez mais com o destino de Moyenne após sua morte.
Em vez de negociar a propriedade, concentrou esforços para garantir que seu legado sobrevivesse e que a ilha permanecesse protegida, longe da especulação imobiliária e da transformação em resort de alto padrão.
Parque nacional: as datas e a formalização da proteção
A formalização da proteção de Moyenne aparece em registros oficiais e reportagens locais, mas com datas descritas de maneiras diferentes.
Uma reportagem do Seychelles Nation publicada em 28 de julho de 2009 relata um evento na ilha em que Grimshaw afirmou que havia completado um ano desde a assinatura de um acordo com o então ministro responsável pela área ambiental para designar Moyenne como parque nacional.
O mesmo texto informa que houve uma declaração final assinada em 22 de maio de 2009, tratada como marco de consolidação.
Em outro registro do Seychelles Nation sobre a morte de Grimshaw, publicado em 2012, a ilha é descrita como declarada parque nacional em junho de 2008.

A diferença sugere que o processo pode ter ocorrido por etapas, com anúncio, acordo e formalização em momentos distintos, algo comum em mudanças de status legal.
Os documentos públicos citados não apresentam, nos trechos consultados, uma linha do tempo única e fechada que elimine a divergência.
Moyenne hoje e o documentário A Grain of Sand
Atualmente, Moyenne é divulgada em materiais turísticos oficiais como uma área protegida de pequena extensão, frequentemente descrita como um dos menores parques nacionais do mundo.
As informações públicas associam a ilha a uma gestão vinculada a uma fundação e à inserção em uma região marinha protegida próxima, embora a organização exata da administração e suas atribuições apareçam de forma resumida nos textos de divulgação.
O trabalho de Grimshaw também foi registrado no documentário A Grain of Sand, filmado entre 2007 e 2008, que mostra o cotidiano na ilha e a continuidade do projeto nos anos finais de sua atuação direta.
Grimshaw morreu em julho de 2012, segundo o Seychelles Nation, e deixou uma área que, pelos registros disponíveis, passou de terreno abandonado para parque nacional ao longo de décadas.
A experiência de Moyenne tem sido citada como exemplo de recuperação conduzida por iniciativa individual, mas a extensão dessa replicabilidade depende de condições locais, apoio institucional e regras ambientais de cada país, segundo análises que costumam acompanhar debates sobre conservação.

