Sem produzir os próprios chips, o país já parou fábricas quando o fornecimento secou, e agora aposta numa microfábrica universitária para mudar essa dependência
O Brasil descobriu, da pior forma, o quanto depende de um produto minúsculo que não fabrica: o chip. Os semicondutores estão dentro de tudo, do carro ao celular, do trator à geladeira, e o país compra praticamente todos eles de fora. Quando o fornecimento global trava, a indústria nacional simplesmente para.
A conta dessa dependência é alta. O Brasil consome perto de US$ 50 bilhões em chips embarcados em aparelhos eletrônicos por ano, e quase nada disso é produzido aqui. Agora, universidades, empresas e governo correm para mudar esse cenário e colocar o país, enfim, no mapa mundial dos semicondutores.
US$ 50 bilhões em chips importados por ano
O tamanho da dependência assusta. Segundo o Jornal da USP, o Brasil consumiu em 2025 cerca de US$ 50 bilhões em chips dentro de dispositivos eletrônicos, praticamente todos importados.
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Comprar tudo de fora deixa o país refém de crises lá longe. Uma briga comercial entre potências, um terremoto em Taiwan ou uma pandemia podem cortar o fornecimento da noite para o dia. Depender 100% de chips importados é como construir uma casa inteira sobre um terreno que pertence a outra pessoa, e foi essa fragilidade que ficou exposta nos últimos anos.
Quando os chips faltam, o país para

A teoria virou realidade dolorosa. Conforme o Jornal da USP, durante a pandemia 80% das empresas brasileiras que dependem de chips relataram falta do componente, e cerca de 300 mil trabalhadores ficaram temporariamente sem poder trabalhar por causa da escassez.
E não foi um caso isolado. Segundo Jornal da USP, em outubro de 2025, uma nova disputa comercial entre o Ocidente e a China voltou a travar o fornecimento de chips automotivos. Cada vez que o mundo espirra no mercado de semicondutores, a indústria brasileira pega uma pneumonia, e é justamente esse risco recorrente que acendeu o alerta para produzir em casa.
A microfábrica da USP que aposta no diferente
A resposta mais criativa veio da universidade. O Jornal da USP detalha o projeto PocketFab, uma microfábrica de chips desenvolvida na Escola Politécnica da USP, sob coordenação do professor Marcelo Zuffo, com capacidade para produzir 60 milhões de chips por ano.
As primeiras versões são esperadas para abril de 2026, e o foco são os chiplets, componentes essenciais para supercomputadores de inteligência artificial e até chips quânticos. Em vez de tentar copiar as gigantes asiáticas, o Brasil aposta em fábricas menores e flexíveis, uma jogada de Davi contra Golias no mundo dos semicondutores.
Por que uma fábrica pequena pode dar certo
A lógica por trás da microfábrica é esperta. Montar uma mega-fábrica tradicional de chips, segundo o Jornal da USP, custa entre US$ 2 bilhões e US$ 10 bilhões, um investimento que o Brasil dificilmente bancaria do zero contra concorrentes décadas à frente.
A microfábrica inverte essa lógica. Ela é mais barata, flexível e capaz de produzir vários tipos de chip em pequena escala, atendendo nichos como automotivo, aeroespacial, energia e agronegócio. Brigar onde dá para vencer, e não onde os outros já são gigantes, é a estratégia mais realista para o país, que tem o projeto apoiado por instituições como SENAI e FIESP.
O mercado de semicondutores que mira US$ 15 bilhões
O potencial econômico justifica a corrida. De acordo com a Gazeta do Povo, o mercado brasileiro de semicondutores faturou cerca de US$ 1 bilhão em 2024 na etapa de encapsulamento e testes, e tem projeção de chegar a US$ 15 bilhões até 2033, segundo a associação do setor.
Esse segmento já emprega cerca de 2.500 pessoas e processou mais de 200 milhões de chips. O salto projetado mostra que há espaço de sobra para crescer. Sair de US$ 1 bilhão para US$ 15 bilhões em menos de uma década é o tipo de oportunidade que poucos setores oferecem, e explica o interesse de empresas estrangeiras em investir por aqui.
A CEITEC e os chips para carros elétricos

A indústria nacional tem uma peça antiga nesse tabuleiro. A Gazeta do Povo lembra que a fábrica CEITEC está sendo revitalizada para produzir chips de potência, justamente os usados em painéis solares e veículos elétricos, casando a produção nacional com a transição energética.
Esse foco é estratégico. Em vez de disputar os chips de computador mais avançados, onde o atraso é enorme, o Brasil mira componentes ligados à energia limpa, um mercado em plena expansão. Apostar nos chips da transição energética é encontrar uma porta de entrada onde o país tem demanda e vocação, em vez de brigar de igual para igual com Taiwan.
40 anos de atraso para recuperar
A dose de realismo também está nos números. A Gazeta do Povo aponta que o Brasil está cerca de 40 anos atrasado nas etapas mais nobres, o desenho e a fabricação dos chips, frente a líderes como Taiwan, Coreia do Sul e China. Recuperar esse tempo não acontece da noite para o dia.
Há ainda dinheiro estrangeiro entrando, como o investimento de R$ 650 milhões da Zilia em unidades em São Paulo e Manaus. Atrair fabricantes de fora e formar gente em casa ao mesmo tempo é a única forma de encurtar quatro décadas de distância, e essa combinação começou a se desenhar agora.
Por que isso é estratégico para o Brasil
No fundo, a corrida pelos semicondutores é uma questão de soberania. Um país que não fabrica chips fica vulnerável a embargos, crises e ao humor das potências, exatamente como ficou o Brasil quando as linhas de montagem pararam. Produzir ao menos parte do que consome reduz esse risco.
A pergunta que fica é se o Brasil vai manter o fôlego para sustentar essa aposta de longo prazo ou se vai desistir no meio do caminho, como já aconteceu antes. Você sabia que quase todos os chips dos aparelhos da sua casa vêm de fora, e que faltar um deles pode parar uma fábrica inteira no Brasil?
