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O alerta escondido no fundo da Antártida volta ao centro da crise climática: cientistas identificam na circulação profunda do Oceano Austral o mecanismo que liberou CO₂ no fim da última era glacial e agora pode transformar o próprio oceano em amplificador do aquecimento global

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 30/04/2026 às 18:18
Atualizado em 30/04/2026 às 18:38
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Estudo de 2025 mostra que oceano profundo liberou CO₂ no fim da era glacial e pode repetir o processo no aquecimento global
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Estudo de 2025 mostra que oceano profundo liberou CO₂ no fim da era glacial e pode repetir o processo no aquecimento global atual.

Segundo o GEOMAR Centro Helmholtz de Pesquisa Oceânica de Kiel, um estudo publicado em 2 de dezembro de 2025 na revista Nature Geoscience reconstruiu o papel exato que a circulação oceânica profunda ao redor da Antártida desempenhou no fim da última era glacial — e descobriu que esse papel era muito maior do que se supunha. Liderado pelo Dr. Huang Huang, do Laoshan Laboratory em Qingdao, China, com a participação do geoquímico Dr. Marcus Gutjahr, do GEOMAR, o estudo rastreou a extensão da Água de Fundo Antártica ao longo dos últimos 32.000 anos usando sedimentos de fundo oceânico como arquivo geológico.

O que encontrou reescreve a narrativa estabelecida sobre o fim da era glacial e lança uma sombra direta sobre o que está acontecendo nos oceanos agora. “Comparações com o passado são sempre imperfeitas”, disse Gutjahr, “mas em última análise, tudo se reduz a quanta energia está no sistema.”

Oceano profundo funcionou como câmara natural de armazenamento de carbono durante a era glacial e manteve o planeta frio

Durante a última era glacial, que atingiu seu pico há cerca de 20.000 anos, a Terra estava entre 4°C e 7°C mais fria do que hoje em média global.

As calotas de gelo cobriam grande parte do hemisfério norte. O nível do mar estava 120 metros abaixo do atual. E o CO₂ atmosférico estava em torno de 180 partes por milhão — aproximadamente metade do nível atual de 423 ppm.

Por décadas, os paleoclimatologistas sabiam que a diferença entre esses 180 ppm glaciais e os 280 ppm pré-industriais, o CO₂ que “faltava” na atmosfera durante a era glacial, estava escondida em algum lugar.

A hipótese dominante era que o oceano profundo havia capturado e armazenado esse carbono excedente, mas o mecanismo exato pelo qual ele estava sendo mantido no fundo e o processo pelo qual foi liberado permaneciam incompletos.

Água Circumpolar Profunda acumulou carbono por séculos sem ventilação e criou uma “câmara de carbono” nos oceanos

O estudo de Huang e Gutjahr fornece a peça que faltava. Durante a era glacial, a Água Circumpolar Profunda, uma massa d’água que circula no oceano profundo por períodos muito longos com pouca troca com a superfície, ocupava grandes partes do oceano profundo do Oceano Austral.

Por permanecer nas profundezas por séculos sem ventilação, essa massa d’água acumulou enormes quantidades de CO₂ dissolvido produzido pela decomposição de matéria orgânica que afundava das camadas superficiais.

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Como o carbono ficava preso nas profundezas e não chegava à superfície onde poderia equilibrar com a atmosfera, os níveis de CO₂ atmosférico permaneciam baixos — mantendo o planeta frio.

Era uma câmara de carbono natural, selada pela estratificação oceânica, contendo décadas e séculos de acúmulo de CO₂ nos fundos do oceano ao redor da Antártida.

Expansão da Água de Fundo Antártica rompeu isolamento do carbono profundo e liberou CO₂ para a atmosfera

Entre 18.000 e 10.000 anos atrás, enquanto a Terra gradualmente saía da era glacial impulsionada por ciclos astronômicos de Milankovitch que alteraram a distribuição de radiação solar, algo mudou na circulação oceânica profunda ao redor da Antártida.

Em duas fases distintas que coincidiram com eventos de aquecimento conhecidos na Antártida, a Água de Fundo Antártica, a massa d’água mais fria e mais densa do oceano global, que se forma ao redor do continente e afunda para o fundo expandiu significativamente.

Essa expansão deslocou a Água Circumpolar Profunda rica em carbono que havia dominado as profundezas oceânicas durante a era glacial.

O alerta escondido no fundo da Antártida volta ao centro da crise climática: cientistas identificam na circulação profunda do Oceano Austral o mecanismo que liberou CO₂ no fim da última era glacial e agora pode transformar o próprio oceano em amplificador do aquecimento global
Estudo de 2025 mostra que oceano profundo liberou CO₂ no fim da era glacial e pode repetir o processo no aquecimento global

À medida que a nova Água de Fundo Antártica avançou pelo Oceano Austral, a mistura vertical aumentou — a barreira entre as profundezas ricas em carbono e a superfície ficou mais permeável. E o carbono que havia ficado armazenado nas profundezas por milênios começou a retornar à atmosfera.

Metade do aumento de CO₂ ocorreu em apenas dois milênios, revelando rapidez inesperada do processo geológico

O estudo quantificou a velocidade desse processo de forma que surpreendeu os próprios autores.

De forma súbita, numa escala de cerca de dois milênios, que é súbita em termos geológicos, esse mecanismo respondeu por metade de todo o aumento de CO₂ ao longo dos 8.000 anos completos de deglaciação. O que levou oito milênios para acontecer foi, na metade, produzido em dois.

Nova evidência mostra que dinâmica antártica teve papel central, reduzindo importância do Atlântico Norte

A descoberta também reverte uma suposição dominante sobre quem controlava a circulação profunda durante a deglaciação.

Muitos estudos anteriores assumiam que as mudanças no Atlântico Norte, especialmente a formação da Água Profunda do Atlântico Norte, eram os principais motores das alterações na circulação profunda do Atlântico Sul. Os novos dados indicam que a influência do norte era mais limitada do que se pensava.

Até aqui, o estudo seria apenas uma contribuição para entender o passado. O que o torna urgente é a observação feita por pesquisadores contemporâneos: padrões similares estão sendo observados hoje. A Água de Fundo Antártica está enfraquecendo.

Aquecimento atual reduz densidade da água profunda e diminui capacidade de sequestrar carbono no fundo do oceano

Observações recentes mostram que ela está perdendo densidade e volume à medida que o Oceano Austral aquece.

O mecanismo é estruturalmente semelhante ao observado no fim da era glacial: o aquecimento reduz a formação de gelo marinho, o derretimento libera água doce, a salinidade cai, a densidade diminui, e a água não afunda com a mesma eficiência.

O alerta escondido no fundo da Antártida volta ao centro da crise climática: cientistas identificam na circulação profunda do Oceano Austral o mecanismo que liberou CO₂ no fim da última era glacial e agora pode transformar o próprio oceano em amplificador do aquecimento global
Estudo de 2025 mostra que oceano profundo liberou CO₂ no fim da era glacial e pode repetir o processo no aquecimento global

A imagem usada pelos pesquisadores é direta. Como a tampa de uma garrafa de refrigerante sendo removida, o recuo do gelo marinho reduz a pressão sobre o sistema de captura de CO₂. Quando a tampa é retirada, o gás que estava preso começa a escapar.

Diferença entre passado e presente está na velocidade extrema do aquecimento atual em comparação com a deglaciação

O que diferencia o presente do passado é a escala temporal. No fim da era glacial, o processo levou milênios. Hoje, o aquecimento ocorre em décadas, uma velocidade pelo menos cem vezes maior.

Os modelos climáticos incluem o oceano como absorvedor de carbono. Mas a dinâmica da Água de Fundo Antártica ainda é simplificada.

A metodologia usada no estudo demonstra o poder da geologia. Os pesquisadores analisaram isótopos de neodímio em sedimentos oceânicos, capazes de identificar a origem das massas d’água.

Os dados mostram que o oceano não é passivo. Ele pode armazenar carbono por milênios — e liberá-lo quando o sistema muda. As evidências indicam que esse risco existe.

Na sua visão, esse processo já começou ou ainda estamos observando apenas os primeiros sinais dessa mudança?

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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