Estudo de 2025 mostra que oceano profundo liberou CO₂ no fim da era glacial e pode repetir o processo no aquecimento global atual.
Segundo o GEOMAR — Centro Helmholtz de Pesquisa Oceânica de Kiel, um estudo publicado em 2 de dezembro de 2025 na revista Nature Geoscience reconstruiu o papel exato que a circulação oceânica profunda ao redor da Antártida desempenhou no fim da última era glacial — e descobriu que esse papel era muito maior do que se supunha. Liderado pelo Dr. Huang Huang, do Laoshan Laboratory em Qingdao, China, com a participação do geoquímico Dr. Marcus Gutjahr, do GEOMAR, o estudo rastreou a extensão da Água de Fundo Antártica ao longo dos últimos 32.000 anos usando sedimentos de fundo oceânico como arquivo geológico.
O que encontrou reescreve a narrativa estabelecida sobre o fim da era glacial e lança uma sombra direta sobre o que está acontecendo nos oceanos agora. “Comparações com o passado são sempre imperfeitas”, disse Gutjahr, “mas em última análise, tudo se reduz a quanta energia está no sistema.”
Oceano profundo funcionou como câmara natural de armazenamento de carbono durante a era glacial e manteve o planeta frio
Durante a última era glacial, que atingiu seu pico há cerca de 20.000 anos, a Terra estava entre 4°C e 7°C mais fria do que hoje em média global.
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As calotas de gelo cobriam grande parte do hemisfério norte. O nível do mar estava 120 metros abaixo do atual. E o CO₂ atmosférico estava em torno de 180 partes por milhão — aproximadamente metade do nível atual de 423 ppm.
Por décadas, os paleoclimatologistas sabiam que a diferença entre esses 180 ppm glaciais e os 280 ppm pré-industriais, o CO₂ que “faltava” na atmosfera durante a era glacial, estava escondida em algum lugar.
A hipótese dominante era que o oceano profundo havia capturado e armazenado esse carbono excedente, mas o mecanismo exato pelo qual ele estava sendo mantido no fundo e o processo pelo qual foi liberado permaneciam incompletos.
Água Circumpolar Profunda acumulou carbono por séculos sem ventilação e criou uma “câmara de carbono” nos oceanos
O estudo de Huang e Gutjahr fornece a peça que faltava. Durante a era glacial, a Água Circumpolar Profunda, uma massa d’água que circula no oceano profundo por períodos muito longos com pouca troca com a superfície, ocupava grandes partes do oceano profundo do Oceano Austral.
Por permanecer nas profundezas por séculos sem ventilação, essa massa d’água acumulou enormes quantidades de CO₂ dissolvido produzido pela decomposição de matéria orgânica que afundava das camadas superficiais.
Como o carbono ficava preso nas profundezas e não chegava à superfície onde poderia equilibrar com a atmosfera, os níveis de CO₂ atmosférico permaneciam baixos — mantendo o planeta frio.
Era uma câmara de carbono natural, selada pela estratificação oceânica, contendo décadas e séculos de acúmulo de CO₂ nos fundos do oceano ao redor da Antártida.
Expansão da Água de Fundo Antártica rompeu isolamento do carbono profundo e liberou CO₂ para a atmosfera
Entre 18.000 e 10.000 anos atrás, enquanto a Terra gradualmente saía da era glacial impulsionada por ciclos astronômicos de Milankovitch que alteraram a distribuição de radiação solar, algo mudou na circulação oceânica profunda ao redor da Antártida.
Em duas fases distintas que coincidiram com eventos de aquecimento conhecidos na Antártida, a Água de Fundo Antártica, a massa d’água mais fria e mais densa do oceano global, que se forma ao redor do continente e afunda para o fundo expandiu significativamente.
Essa expansão deslocou a Água Circumpolar Profunda rica em carbono que havia dominado as profundezas oceânicas durante a era glacial.

À medida que a nova Água de Fundo Antártica avançou pelo Oceano Austral, a mistura vertical aumentou — a barreira entre as profundezas ricas em carbono e a superfície ficou mais permeável. E o carbono que havia ficado armazenado nas profundezas por milênios começou a retornar à atmosfera.
Metade do aumento de CO₂ ocorreu em apenas dois milênios, revelando rapidez inesperada do processo geológico
O estudo quantificou a velocidade desse processo de forma que surpreendeu os próprios autores.
De forma súbita, numa escala de cerca de dois milênios, que é súbita em termos geológicos, esse mecanismo respondeu por metade de todo o aumento de CO₂ ao longo dos 8.000 anos completos de deglaciação. O que levou oito milênios para acontecer foi, na metade, produzido em dois.
Nova evidência mostra que dinâmica antártica teve papel central, reduzindo importância do Atlântico Norte
A descoberta também reverte uma suposição dominante sobre quem controlava a circulação profunda durante a deglaciação.
Muitos estudos anteriores assumiam que as mudanças no Atlântico Norte, especialmente a formação da Água Profunda do Atlântico Norte, eram os principais motores das alterações na circulação profunda do Atlântico Sul. Os novos dados indicam que a influência do norte era mais limitada do que se pensava.
Até aqui, o estudo seria apenas uma contribuição para entender o passado. O que o torna urgente é a observação feita por pesquisadores contemporâneos: padrões similares estão sendo observados hoje. A Água de Fundo Antártica está enfraquecendo.
Aquecimento atual reduz densidade da água profunda e diminui capacidade de sequestrar carbono no fundo do oceano
Observações recentes mostram que ela está perdendo densidade e volume à medida que o Oceano Austral aquece.
O mecanismo é estruturalmente semelhante ao observado no fim da era glacial: o aquecimento reduz a formação de gelo marinho, o derretimento libera água doce, a salinidade cai, a densidade diminui, e a água não afunda com a mesma eficiência.

A imagem usada pelos pesquisadores é direta. Como a tampa de uma garrafa de refrigerante sendo removida, o recuo do gelo marinho reduz a pressão sobre o sistema de captura de CO₂. Quando a tampa é retirada, o gás que estava preso começa a escapar.
Diferença entre passado e presente está na velocidade extrema do aquecimento atual em comparação com a deglaciação
O que diferencia o presente do passado é a escala temporal. No fim da era glacial, o processo levou milênios. Hoje, o aquecimento ocorre em décadas, uma velocidade pelo menos cem vezes maior.
Os modelos climáticos incluem o oceano como absorvedor de carbono. Mas a dinâmica da Água de Fundo Antártica ainda é simplificada.
A metodologia usada no estudo demonstra o poder da geologia. Os pesquisadores analisaram isótopos de neodímio em sedimentos oceânicos, capazes de identificar a origem das massas d’água.
Os dados mostram que o oceano não é passivo. Ele pode armazenar carbono por milênios — e liberá-lo quando o sistema muda. As evidências indicam que esse risco existe.
Na sua visão, esse processo já começou ou ainda estamos observando apenas os primeiros sinais dessa mudança?

