Sacolas, garrafas e embalagens que iriam para valas e lixões voltam como bloco de pavimentação em Gana. A conta é simples e incômoda: sobram toneladas de plástico todos os dias, falta calçamento em quase todo o país, e um empresário resolveu tratar o problema como matéria prima barata.
Enquanto a capital de Gana descarta cerca de 300 toneladas de plástico por dia, segundo estimativas citadas por pesquisadores locais, uma fábrica instalada em Ashaiman, na região da Grande Acra, transforma parte desse lixo em blocos de pavimentação vendidos abaixo do preço do bloco de concreto. Quem está por trás da operação é Nelson Boateng, formado em engenharia de redes de computadores, que já fabricava sacolas plásticas e passou a transformar o mesmo material em piso.
A receita não tem cimento nem betume. O plástico recolhido por catadores é triturado, lavado, seco e misturado com areia, aquecido até virar uma pasta e prensado em moldes, num processo descrito pelo próprio Boateng em entrevistas à agência IPS e ao veículo Planet Forward. A Nelplast, empresa dele, apareceu em fevereiro de 2021 na reportagem da Yale Environment 360 sobre pavimentos feitos com resíduos plásticos, ao lado de projetos da Índia, da Escócia e da Holanda que atacam o mesmo problema por caminhos diferentes.
A conta diária que a capital de Gana não consegue recolher

Acra produz por volta de 2.800 a 3.000 toneladas de resíduos sólidos por dia, e a fatia plástica desse volume é estimada entre 300 e 450 toneladas, conforme dados do International Growth Centre reproduzidos pela imprensa local. Trabalhos acadêmicos citados por pesquisadores ganenses chegam ao mesmo patamar de 300 toneladas de plástico por dia só na capital. O problema não é apenas o volume, é o destino.
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Boa parte desse material nunca chega a uma esteira de reciclagem. A reportagem da Yale Environment 360 registrou que apenas cerca de 5 por cento das 5.000 toneladas de plástico descartadas diariamente em todo o país seguiam para instalações de reciclagem, enquanto o restante ia parar em aterros, lixões clandestinos, ruas, cursos d’água ou queimadas a céu aberto. No total do ano, Gana gera perto de 1,1 milhão de toneladas de plástico, número que o Ghana Circular Economy Center voltou a repetir em julho de 2026, ao cobrar investimento em coleta depois das enchentes que atingiram Acra.
Por que reciclar plástico é tão difícil em um país em desenvolvimento
Heather Troutman, gerente de programa da Parceria Nacional de Ação contra o Plástico de Gana, resumiu o impasse à Yale Environment 360 sem rodeios: reciclar plástico ali é caro, complicado, técnico, e queimar é mais fácil. É esse cálculo prático que empurra montanhas de sacolas para a fogueira no quintal em vez da usina.
A saída que ela aponta é dar valor comercial ao material. Se o plástico reciclado virar rede de pesca, combustível ou piso, deixa de ser lixo e passa a ser insumo com preço. Enquanto o descarte for mais barato que o reaproveitamento, nenhuma campanha de conscientização segura as toneladas de plástico que escorrem para o mar. Foi exatamente nessa brecha econômica que a Nelplast se instalou.
Como sacolas viram piso sem cimento e sem betume

As toneladas de plástico que abastecem a fábrica chegam ali por um caminho simples, e o processo descrito por Boateng começa na balança. Catadores levam o plástico até a fábrica e recebem por quilo. O material é triturado, lavado e semi seco, depois misturado com areia e, às vezes, com pigmento para dar cor ao produto final. A mistura entra numa extrusora com três zonas de aquecimento, construída pela própria empresa, porque cada tipo de plástico derrete numa temperatura diferente, de cerca de 150 até 220 graus Celsius, conforme o relato dele ao Planet Forward.
O que sai da máquina é uma pasta quente. Ela é pesada para garantir que todos os blocos tenham o mesmo tamanho, colocada em um molde e prensada. Não entra cimento, não entra betume, não entra brita. A proporção entre plástico e areia varia conforme o projeto, segundo o próprio empresário, e é justamente aí que os relatos publicados divergem: entrevistas diferentes citam misturas de 30 por cento de plástico com 70 por cento de areia e também de 60 por cento de plástico com 40 por cento de areia.
O preço explica o interesse melhor que o discurso ambiental

O argumento que abre portas em Gana não é a poluição, é a planilha, porque nenhuma prefeitura compra piso caro para tirar toneladas de plástico das ruas. Em entrevista à Quartz Africa, Boateng afirmou que cada bloco da Nelplast sai por cerca de 1 dólar, contra uma média de 1,50 dólar do bloco de concreto convencional. À IPS, ele calculou a diferença de outro jeito, cravando um piso cerca de 30 por cento mais barato que o de cimento.
As vantagens que ele lista são de fabricante, e vale registrar isso com clareza: durabilidade alta, resistência a rachaduras, ausência de limo verde na superfície e cor que não desbota. Nenhuma dessas características aparece confirmada por auditoria independente de longo prazo nos materiais consultados. Sobre a comparação com a tecnologia indiana, que mistura plástico ao asfalto, ele foi direto ao dizer que sua técnica dispensa betume e pedra, e que o asfalto é caro.
Onde esses blocos já foram parar

O produto saiu do galpão e foi para o chão, convertendo em obra as toneladas de plástico recolhidas nas ruas. Segundo Boateng, a empresa já pavimentou áreas residenciais, o pátio da Action Chapel, a frente do Ministério do Meio Ambiente, Ciência, Tecnologia e Inovação de Gana e calçadas em pontos do país. Um trecho esburacado de rua em Ashaiman, o município densamente povoado onde ele cresceu, também foi refeito com o material.
A lista de clientes inclui pessoas físicas, empresas e igrejas. O detalhe é relevante em um país onde apenas 23 por cento das estradas eram pavimentadas na época do levantamento publicado pela Yale Environment 360. Falta calçamento e sobra plástico, e é essa equação que sustenta o negócio. A demanda de construtoras existe, mas esbarra num limite que nenhuma vontade política resolveu até agora.
O gargalo é a máquina, não o lixo
Matéria prima não falta. Capacidade de produção, sim. A Quartz Africa registrou uma produção de cerca de 200 blocos por dia consumindo 800 quilos de plástico, volume pequeno demais para atender incorporadoras interessadas. À IPS, Boateng falou em reciclar 2.000 quilos de plástico e mencionou uma capacidade instalada bem maior no terreno de cerca de 4 mil metros quadrados que ocupa em Ashaiman.
A conta trava no equipamento. Parte das peças das máquinas é importada e cara, e a promessa oficial de fornecer máquinas para levar a produção a algo em torno de 15 mil blocos por dia ficou no papel, assim como os empréstimos previstos pelo programa governamental One District, One Factory, do qual a Nelplast faz parte. Enquanto isso, o lucro da fabricação de sacolas plásticas banca a produção dos blocos, numa ironia que o próprio empresário não esconde. As toneladas de plástico continuam disponíveis, o dinheiro para processá las é que não aparece.
Quem cata o plástico entrou na conta
As toneladas de plástico que alimentam a extrusora saem das mãos de gente que trabalha na rua, então a cadeia começa bem antes da fábrica. Mais de 500 catadores vendem plástico para a Nelplast, e 60 por cento deles são mulheres que dependem dessa renda, de acordo com o levantamento publicado pela IPS. O quilo é pago a cerca de 10 centavos de dólar, o que transforma o material espalhado pelas ruas em moeda.
A empresa também emprega gente dentro do galpão, com 60 funcionários diretos e cerca de 500 pessoas ligadas de forma indireta à operação, segundo a Quartz Africa. É a parte da história que costuma sumir quando se fala em reciclagem, porque não tem tecnologia nova nenhuma, só trabalho. O modelo cria um incentivo direto para que a sacola não vá para a vala: ela vale alguma coisa antes de chegar lá.
A ideia não nasceu em Gana, e a Índia já tem 96 mil quilômetros disso
Absorver toneladas de plástico dentro do pavimento não é invenção ganense. A técnica surgiu na Índia há cerca de duas décadas, a partir dos experimentos que R. Vasudevan, professor de química da Faculdade de Engenharia Thiagarajar, em Madurai, começou em 2001 ao perceber que plástico e betume vêm ambos do petróleo e se ligam bem. O método dele usa polietileno de baixa densidade, das sacolas, e PET, das garrafas de refrigerante.
O país instalou mais de 96 mil quilômetros de estradas com plástico, e cerca de 22.500 quilômetros de vias novas foram construídos depois que o ministério de transportes rodoviários tornou obrigatória, em 2016, a adição de plástico reciclado ao asfalto, conforme a apuração da Yale Environment 360. A diferença é que a Índia joga o plástico dentro do asfalto, enquanto a fábrica de Ashaiman dispensa o asfalto por completo. Escócia e Holanda seguiram outros dois caminhos, com aditivos vendidos para usinas de asfalto e com módulos ocos usados em ciclovias.
O que ninguém ainda sabe sobre pavimento de plástico
O entusiasmo esbarra numa lacuna incômoda: falta tempo de estrada. Existem milhares de quilômetros de vias com toneladas de plástico dentro do asfalto, mas quase nenhuma delas envelheceu o suficiente para provar alguma coisa. Como a tecnologia está em uso há poucos anos na maioria dos países, não existe série histórica sobre envelhecimento e desgaste, ponto levantado por especialistas ouvidos pela Yale Environment 360, entre eles o engenheiro de pavimentação Greg White, da Universidade da Sunshine Coast, na Austrália, e Michael Burrow, da Universidade de Birmingham.
O tropeço mais conhecido aconteceu na Califórnia. Um trecho de teste de 300 metros na rodovia 162, em Oroville, feito com plástico liquefeito misturado à camada antiga triturada, precisou ser substituído por asfalto tradicional depois que um engenheiro relatou que a superfície se movia e parecia insegura. O caso mostra a distância entre pavimentar uma calçada e aguentar milhares de caminhões carregados por dia. O departamento de transportes do estado seguiu com novos testes, ajustando método e espessura.
Emissões, microplásticos e o limite da solução
Duas dúvidas perseguem a tecnologia. A primeira é a emissão gerada ao aquecer plástico. Vasudevan sustenta que seu método exige aquecimento até 170 graus Celsius, faixa considerada segura, e Troutman explicou que a liberação de gases se dá acima de 270 graus, quando o material chega ao estado mais gasoso. A segunda dúvida é a liberação de microplásticos, que nenhum dos entrevistados pela publicação considerou um problema até ali, com o argumento de que a maior fonte global de microplástico é o desgaste de pneus.
Ainda assim, ninguém sério trata pavimento reciclado como solução final. Apenas 9 por cento das 350 milhões de toneladas de plástico produzidas por ano no mundo são recicladas, e a projeção citada na reportagem aponta que até 2050 o planeta produzirá mais de três vezes o volume de resíduo plástico já gerado. Troutman foi taxativa ao dizer que reduzir o uso desnecessário de plástico novo é o primeiro passo, porque produzir cada vez mais inviabiliza qualquer gestão sustentável. Absorver toneladas de plástico em calçadas ajuda, mas não fecha a torneira.
Você compraria uma calçada feita de sacola derretida
O caso de Ashaiman tem o mérito de tirar toneladas de plástico de circulação com um produto vendido em preço competitivo, com catador recebendo por quilo e prefeitura ganhando calçada. Também tem as fragilidades de qualquer tecnologia jovem: capacidade pequena, dados de longo prazo inexistentes e promessas de financiamento que não saíram do papel. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
Agora conta aqui embaixo. Se aparecesse na sua cidade um piso feito com sacola derretida e areia, custando menos que o bloco de concreto, você aceitaria na calçada da sua casa ou desconfiaria do material? E mais: você acha que transformar lixo plástico em obra pública resolve alguma coisa de verdade ou serve só para justificar a produção de mais plástico? Comenta o que você faria no lugar da prefeitura.
