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Cientistas criam “quimioterapia programável” com CRISPR que reconhece o RNA do câncer, fragmenta o DNA tumoral e pode transformar o tratamento de mutações difíceis

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Escrito por Viviane Alves Publicado em 27/07/2026 às 18:53
Ilustração de dupla hélice de DNA iluminada, representando a ação da quimioterapia programável com CRISPR contra células cancerígenas.
Representação ilustrativa de uma molécula de DNA, elemento central das pesquisas com a enzima Cas12a2 para reconhecer RNA tumoral e destruir células cancerígenas.
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Estudos publicados na revista Nature mostram como a enzima Cas12a2 identifica sinais específicos de células cancerígenas e ativa a destruição completa de seu material genético.

Uma estratégia experimental desenvolvida por cientistas pode abrir uma nova frente no combate ao câncer.

A técnica utiliza a enzima Cas12a2, integrante do sistema CRISPR, para reconhecer um RNA mensageiro específico produzido por células tumorais.

Após identificar o alvo, a proteína fragmenta o DNA da célula cancerígena e interrompe seu crescimento.

Dois estudos publicados na revista científica Nature, em 2026, apresentaram os resultados dessa abordagem.

Segundo os pesquisadores, a tecnologia pode atingir mutações consideradas difíceis de tratar com medicamentos convencionais.

Yang Liu, biólogo molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Utah, classificou o mecanismo como um “interruptor molecular de morte”.

O cientista também descreveu a estratégia como uma espécie de “quimioterapia programável”.

Como funciona a quimioterapia programável com CRISPR?

Os sistemas CRISPR existem naturalmente em bactérias e outros microrganismos.

Moléculas de RNA orientam enzimas Cas até o material genético de vírus e outros invasores.

O DNA estranho é cortado e destruído após o reconhecimento.

Cientistas adaptam esse mecanismo há mais de uma década para realizar alterações em regiões específicas do genoma.

A Cas12a2, contudo, apresentou um funcionamento diferente daquele observado em outras proteínas utilizadas na edição genética.

O contato com o RNA correspondente ao seu guia ativa uma reação intensa.

Nesse momento, a enzima começa a fragmentar indiscriminadamente o DNA presente na célula.

Esse mecanismo pode impedir, na natureza, que uma infecção se espalhe entre bactérias.

Ilustração microscópica de células cancerígenas avermelhadas, relacionada à pesquisa sobre quimioterapia programável com CRISPR e Cas12a2.
Representação ilustrativa de células alteradas em ambiente microscópico, associada aos estudos que utilizam a enzima Cas12a2 para reconhecer RNA tumoral e destruir o DNA de células cancerígenas.

Descoberta da Cas12a2 surpreendeu pesquisadores

Ryan Jackson, bioquímico da Universidade Estadual de Utah, iniciou os estudos sobre a Cas12a2 há cerca de dez anos.

A equipe acreditava inicialmente que a proteína funcionaria como outras enzimas empregadas na edição genética.

Os resultados, entretanto, não corresponderam às expectativas.

Jackson chegou a suspeitar que seus alunos haviam contaminado as amostras durante os experimentos.

Investigações posteriores revelaram que a proteína possuía uma característica incomum.

O reconhecimento de uma sequência específica de RNA fazia a Cas12a2 destruir amplamente o material genético da célula.

Rene Bernards, geneticista do Instituto do Câncer dos Países Baixos, destacou o potencial desse mecanismo natural para aplicações médicas.

Mutações em TP53 e KRAS viraram os principais alvos

As duas equipes responsáveis pelos estudos adaptaram a Cas12a2 para atacar mutações relacionadas ao câncer.

Um dos grupos programou a enzima para reconhecer o RNA produzido por células com alterações no gene TP53.

Mutações nesse gene aparecem em até metade de todos os casos de câncer.

Outra equipe direcionou a proteína contra uma versão alterada do gene KRAS.

Proteínas mutantes associadas ao KRAS estão relacionadas a tumores agressivos e ao crescimento celular descontrolado.

A Cas12a2 demonstrou elevada precisão durante os experimentos.

A enzima conseguiu diferenciar RNAs separados por apenas uma letra genética.

Células portadoras das mutações foram eliminadas, enquanto aquelas sem o RNA-alvo permaneceram preservadas.

Testes reduziram tumores em camundongos

Os experimentos foram realizados em células humanas cultivadas em laboratório e em camundongos.

Nos animais, a estratégia reduziu tumores associados ao TP53 mutado.

Tumores provocados pelo papilomavírus humano, o HPV, também apresentaram redução.

A tecnologia já originou uma terapia experimental contra cânceres de cabeça e pescoço associados ao HPV.

O projeto está sendo conduzido pela Akribion Therapeutics, empresa de biotecnologia sediada em Zwingenberg, na Alemanha.

Paul Scholz, cofundador e diretor de pesquisa e desenvolvimento da empresa, espera os primeiros resultados clínicos até 2030.

Segurança ainda representa um grande desafio

A entrada da Cas12a2 nas células permanece entre os principais obstáculos da pesquisa.

O tamanho elevado da proteína pode dificultar sua chegada aos locais onde precisa atuar.

Novos testes também deverão confirmar que a tecnologia não causa danos a células saudáveis.

Resultados obtidos até agora indicaram elevado grau de especificidade.

A enzima, porém, não conseguiu eliminar todas as células cancerígenas observadas nos experimentos.

Rene Bernards considerou esse resultado parcialmente desanimador.

O pesquisador acredita que a Cas12a2 poderá ser utilizada com outros tratamentos oncológicos.

Essa combinação pode aumentar a eficácia e reduzir a resistência dos tumores.

Tecnologia ainda precisa ser aperfeiçoada

Jingkun Zeng, dos Institutos Gladstone, avalia que a técnica poderá ser mais específica que as quimioterapias tradicionais.

Tratamentos convencionais costumam atingir células em rápida divisão.

A Cas12a2, por sua vez, tende a agir apenas quando encontra o RNA previamente definido.

Yang Liu também acredita que o mecanismo poderá ser estudado contra doenças autoimunes e neurológicas relacionadas a RNAs específicos.

A chamada quimioterapia programável ainda depende de aperfeiçoamentos, avaliações de segurança e ensaios clínicos antes de chegar aos pacientes.

O potencial de reconhecer uma mutação e destruir seletivamente o DNA tumoral, entretanto, revela uma nova possibilidade para a pesquisa contra o câncer.

Você acredita que tecnologias programáveis como a Cas12a2 poderão transformar o tratamento do câncer no futuro? Deixe sua opinião!

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Viviane Alves

Redatora com foco na produção de conteúdos estratégicos voltados para macro e microeconomia, geopolítica, mercado energético, setor automotivo e comércio global.

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