Estudos publicados na revista Nature mostram como a enzima Cas12a2 identifica sinais específicos de células cancerígenas e ativa a destruição completa de seu material genético.
Uma estratégia experimental desenvolvida por cientistas pode abrir uma nova frente no combate ao câncer.
A técnica utiliza a enzima Cas12a2, integrante do sistema CRISPR, para reconhecer um RNA mensageiro específico produzido por células tumorais.
Após identificar o alvo, a proteína fragmenta o DNA da célula cancerígena e interrompe seu crescimento.
-
Disparando cápsulas de semente do céu a duas por segundo e mirando 100 mil árvores por dia, os drones de reflorestamento que a Airbus ajudou a financiar com US$ 10 milhões acabaram em liquidação
-
Costurando uma camiseta a cada 22 segundos, um único robô faz o serviço de 17 costureiras e prometia 800 mil peças por dia para a Adidas, mas o acordo do Arkansas não foi adiante
-
Sementes de abacate foram carregadas por humanos da América do Sul até a Nicarágua há 5.000 anos, cruzaram com variedades locais e criaram linhagens geneticamente distintas que hoje podem ajudar a proteger plantações comerciais ameaçadas por doenças, mudanças climáticas e mercado dominado pelo clone Hass
-
Numa cidade que joga fora 300 toneladas de plástico por dia, um empresário de Gana derreteu sacolas com areia e transformou o lixo em pisos de rua mais baratos que o concreto
Dois estudos publicados na revista científica Nature, em 2026, apresentaram os resultados dessa abordagem.
Segundo os pesquisadores, a tecnologia pode atingir mutações consideradas difíceis de tratar com medicamentos convencionais.
Yang Liu, biólogo molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Utah, classificou o mecanismo como um “interruptor molecular de morte”.
O cientista também descreveu a estratégia como uma espécie de “quimioterapia programável”.
Como funciona a quimioterapia programável com CRISPR?
Os sistemas CRISPR existem naturalmente em bactérias e outros microrganismos.
Moléculas de RNA orientam enzimas Cas até o material genético de vírus e outros invasores.
O DNA estranho é cortado e destruído após o reconhecimento.
Cientistas adaptam esse mecanismo há mais de uma década para realizar alterações em regiões específicas do genoma.
A Cas12a2, contudo, apresentou um funcionamento diferente daquele observado em outras proteínas utilizadas na edição genética.
O contato com o RNA correspondente ao seu guia ativa uma reação intensa.
Nesse momento, a enzima começa a fragmentar indiscriminadamente o DNA presente na célula.
Esse mecanismo pode impedir, na natureza, que uma infecção se espalhe entre bactérias.

Descoberta da Cas12a2 surpreendeu pesquisadores
Ryan Jackson, bioquímico da Universidade Estadual de Utah, iniciou os estudos sobre a Cas12a2 há cerca de dez anos.
A equipe acreditava inicialmente que a proteína funcionaria como outras enzimas empregadas na edição genética.
Os resultados, entretanto, não corresponderam às expectativas.
Jackson chegou a suspeitar que seus alunos haviam contaminado as amostras durante os experimentos.
Investigações posteriores revelaram que a proteína possuía uma característica incomum.
O reconhecimento de uma sequência específica de RNA fazia a Cas12a2 destruir amplamente o material genético da célula.
Rene Bernards, geneticista do Instituto do Câncer dos Países Baixos, destacou o potencial desse mecanismo natural para aplicações médicas.
Mutações em TP53 e KRAS viraram os principais alvos
As duas equipes responsáveis pelos estudos adaptaram a Cas12a2 para atacar mutações relacionadas ao câncer.
Um dos grupos programou a enzima para reconhecer o RNA produzido por células com alterações no gene TP53.
Mutações nesse gene aparecem em até metade de todos os casos de câncer.
Outra equipe direcionou a proteína contra uma versão alterada do gene KRAS.
Proteínas mutantes associadas ao KRAS estão relacionadas a tumores agressivos e ao crescimento celular descontrolado.
A Cas12a2 demonstrou elevada precisão durante os experimentos.
A enzima conseguiu diferenciar RNAs separados por apenas uma letra genética.
Células portadoras das mutações foram eliminadas, enquanto aquelas sem o RNA-alvo permaneceram preservadas.
Testes reduziram tumores em camundongos
Os experimentos foram realizados em células humanas cultivadas em laboratório e em camundongos.
Nos animais, a estratégia reduziu tumores associados ao TP53 mutado.
Tumores provocados pelo papilomavírus humano, o HPV, também apresentaram redução.
A tecnologia já originou uma terapia experimental contra cânceres de cabeça e pescoço associados ao HPV.
O projeto está sendo conduzido pela Akribion Therapeutics, empresa de biotecnologia sediada em Zwingenberg, na Alemanha.
Paul Scholz, cofundador e diretor de pesquisa e desenvolvimento da empresa, espera os primeiros resultados clínicos até 2030.
Segurança ainda representa um grande desafio
A entrada da Cas12a2 nas células permanece entre os principais obstáculos da pesquisa.
O tamanho elevado da proteína pode dificultar sua chegada aos locais onde precisa atuar.
Novos testes também deverão confirmar que a tecnologia não causa danos a células saudáveis.
Resultados obtidos até agora indicaram elevado grau de especificidade.
A enzima, porém, não conseguiu eliminar todas as células cancerígenas observadas nos experimentos.
Rene Bernards considerou esse resultado parcialmente desanimador.
O pesquisador acredita que a Cas12a2 poderá ser utilizada com outros tratamentos oncológicos.
Essa combinação pode aumentar a eficácia e reduzir a resistência dos tumores.
Tecnologia ainda precisa ser aperfeiçoada
Jingkun Zeng, dos Institutos Gladstone, avalia que a técnica poderá ser mais específica que as quimioterapias tradicionais.
Tratamentos convencionais costumam atingir células em rápida divisão.
A Cas12a2, por sua vez, tende a agir apenas quando encontra o RNA previamente definido.
Yang Liu também acredita que o mecanismo poderá ser estudado contra doenças autoimunes e neurológicas relacionadas a RNAs específicos.
A chamada quimioterapia programável ainda depende de aperfeiçoamentos, avaliações de segurança e ensaios clínicos antes de chegar aos pacientes.
O potencial de reconhecer uma mutação e destruir seletivamente o DNA tumoral, entretanto, revela uma nova possibilidade para a pesquisa contra o câncer.
Você acredita que tecnologias programáveis como a Cas12a2 poderão transformar o tratamento do câncer no futuro? Deixe sua opinião!
