Sozinho, à luz de lampião e com ferramentas de mão, um homem transformou a obsessão de atravessar uma montanha em um túnel que ficou pronto tarde demais para servir a alguma coisa.
No começo do século XX, um garimpeiro chamado William Schmidt cravou uma picareta na base de uma montanha de granito no deserto de Mojave, na Califórnia, e começou a cavar. Ele não largaria aquele trabalho pelas quatro décadas seguintes.
Quando finalmente rompeu o outro lado da montanha, já era 1938. O túnel tinha quase 800 metros de rocha maciça vencidos praticamente a mão. E, àquela altura, não servia mais para nada.
Um doente que fugiu para o deserto mais seco que encontrou
Nascido em Rhode Island, no leste dos Estados Unidos, Schmidt cresceu vendo a tuberculose consumir a família. Seis irmãos morreram da doença, e ele passou a viver com medo de ser o próximo.
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A recomendação médica da época para casos de pulmão fraco era ar seco. Foi o que o empurrou para o oeste, até as montanhas El Paso, no coração do deserto californiano, onde o ar quente e sem umidade prometia segurar a doença.
Ali ele fincou algumas concessões de garimpo de ouro e passou a viver a rotina dura do minerador solitário, cavando a rocha atrás de veios que raramente compensavam o esforço.
Um atalho por dentro da montanha
O problema prático de Schmidt tinha nome e forma. Entre suas minas e a fundição que processava o minério, havia uma serra íngreme e perigosa, que obrigava a um contorno longo e arriscado para escoar a carga.
A solução que ele imaginou foi das mais radicais: em vez de contornar a montanha, ele a atravessaria por dentro. Por volta de 1900, começou a abrir um túnel que ligaria um lado ao outro em linha reta.
A ideia, no papel, era econômica. Um caminho curto por dentro da rocha pouparia horas de transporte e o risco de despencar por uma trilha de encosta.
Picareta, marreta e um carrinho de mão contra o granito
O que veio depois não teve nada de econômico. Schmidt enfrentou granito duro com picareta, marreta, talhadeira, pá e, quando conseguia comprar, dinamite para arrancar os trechos mais teimosos.
Ele mesmo perfurava, detonava, recolhia os cacos e empurrava tudo para fora. No começo usou dois burros para arrastar o entulho, o que lhe rendeu o apelido que o acompanharia para sempre. Depois passou a empurrar um pequeno vagonete sobre trilhos improvisados, à força de braço.
A comparação com o presente é quase absurda. Onde hoje máquinas gigantes furam quilômetros de rocha dura em poucas semanas, Schmidt avançava alguns centímetros por dia, ano após ano, no escuro.
Décadas dentro do buraco
O trabalho se estendeu de forma que ninguém, nem ele, parecia ter previsto. Foram cerca de 38 anos de escavação, boa parte deles com Schmidt trabalhando inteiramente sozinho.
Ele vivia numa cabana simples ao pé da obra, garimpava o pouco que dava para sobreviver e voltava para dentro da montanha. O túnel avançava devagar, num traçado que precisou ser corrigido mais de uma vez conforme a rocha mudava.
Segundo relatos históricos reunidos pela emissora pública norte-americana PBS SoCal, o buraco chegou a algo próximo de 800 metros de comprimento, cavado quase inteiramente com força humana.
Uma estrada tornou tudo inútil antes do fim
Enquanto Schmidt furava a montanha, o mundo lá fora não parou. Ao longo daquelas décadas, uma estrada foi construída na região, criando exatamente o caminho de escoamento que o túnel deveria oferecer.
Quando ele finalmente abriu a saída do outro lado, em 1938, o atalho já tinha perdido o sentido. Não havia mais minério a transportar por ali, e a rota que ele havia passado a vida inteira abrindo nunca entrou em uso para o fim que a justificava.
Ele terminou mesmo sabendo que não serviria
O detalhe mais comentado da história é justamente esse. Há relatos de que, em algum momento, Schmidt já sabia que a estrada tornaria o túnel dispensável e, mesmo assim, seguiu cavando até vencer a montanha.
Para alguns, foi teimosia pura. Para outros, a obra tinha deixado de ser um meio e virado um fim em si, o tipo de projeto que a pessoa termina porque não consegue deixar pela metade.
Pouco depois de concluir, ele vendeu a concessão e deixou a região. Morreu em 1954, e a passagem ficou.
O túnel para lugar nenhum virou ponto de visita
Hoje a obra é conhecida como Túnel de Burro Schmidt e sobrevive como marco histórico no condado de Kern, na Califórnia, procurada por curiosos e aventureiros que percorrem o deserto.
Quem entra encontra um corredor estreito e irregular, escavado à mão de ponta a ponta, com marcas de ferramenta ainda visíveis nas paredes de granito. Não é uma obra de engenharia elegante como os túneis abertos no subsolo por trás das grandes cidades, mas impressiona por outro motivo.
Ela é o registro físico de quase 38 anos de trabalho de um único homem contra uma montanha, terminado no ponto exato em que já não fazia mais diferença nenhuma.
