A reanálise de um úmero fóssil de 108 milhões de anos, examinada por tomografias de microfoco, indica que as equidnas modernas descendem de um ancestral semiaquático, revertendo a trajetória evolutiva comum entre mamíferos e alterando hipóteses consolidadas sobre a origem dos monotremados
Um estudo publicado em 28 de abril detalha que as equidnas, mamíferos ovíparos da família Tachyglossidae, provavelmente evoluíram de um ancestral semiaquático há 108 milhões de anos, com base na análise microestrutural de um osso fóssil que indica adaptação à vida aquática, em contraste com hipóteses anteriores.
Revisão de hipóteses sobre a origem das equidnas
Pesquisadores identificaram um raro evento evolutivo ao reavaliar a história das equidnas, mamíferos ovíparos cobertos de espinhos encontrados na Austrália e na Nova Guiné.
O novo estudo indica que esses animais terrestres descendem de um ancestral semiaquático, contrariando suposições científicas consolidadas.
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As equidnas pertencem à família Tachyglossidae e somam quatro espécies vivas. Três delas são restritas à Nova Guiné, enquanto a quarta ocorre tanto nesse território quanto amplamente na Austrália. Todas compartilham características incomuns entre mamíferos, como a postura de ovos.
Até então, a hipótese dominante sustentava que equidnas e ornitorrincos, seus parentes semiaquáticos, teriam evoluído a partir de um ancestral terrestre que passou a explorar ambientes aquáticos. Ambos integram o grupo dos monotremados, os únicos mamíferos vivos ovíparos.
O fóssil de Kryoryctes cadburyi e o contexto do Cretáceo
Para esclarecer a evolução das equidnas, a equipe liderada por Sue Hand, da Universidade de Nova Gales do Sul, reexaminou um úmero de Kryoryctes cadburyi, monotremado extinto que viveu há 108 milhões de anos.
O fóssil foi encontrado no sul do atual estado de Victoria, na Austrália, em um sítio conhecido como Dinosaur Cove, e é o único osso de membro de monotremado desse período já identificado. A espécie pode ter sido ancestral ou parente próxima de equidnas e ornitorrincos modernos.
Análises anteriores, realizadas no início dos anos 2000, indicavam semelhança superficial entre o úmero e ossos de equidnas atuais. Ainda assim, persistia o debate sobre se o K. cadburyi era exclusivamente terrestre ou possuía hábitos aquáticos.
Tomografias revelam microestrutura interna inesperada
A equipe utilizou tomografias computadorizadas de microfoco, conhecidas como micro-CT, para examinar a microestrutura interna do osso. Segundo Hand, a análise interna pode revelar pistas diretas sobre o estilo de vida do animal, indo além da aparência externa.
Os ornitorrincos modernos apresentam paredes ósseas muito espessas, enquanto as equidnas possuem paredes relativamente finas. A expectativa inicial era identificar características intermediárias ou mais próximas das equidnas, dada a semelhança externa do fóssil.
O resultado surpreendeu os pesquisadores. Apesar da superfície semelhante à de uma equidna, o úmero antigo exibia paredes ósseas espessas e uma cavidade de medula reduzida, mais compatíveis com a estrutura observada em ornitorrincos modernos.
Indícios de vida semiaquática e adaptação ao mergulho
Segundo os pesquisadores, ossos mais densos funcionam como lastro, facilitando o mergulho e a permanência abaixo da superfície da água. Essa característica sugere que o K. cadburyi era um animal escavador semiaquático, adaptado a ambientes aquáticos e terrestres.
A partir dessa evidência, a equipe concluiu que a família dos monotremados teria sido, originalmente, semiaquática. Com o tempo, os ancestrais das equidnas teriam migrado definitivamente para a terra firme, acompanhados por ossos progressivamente mais leves.
Essas mudanças estruturais refletem a adaptação a um novo modo de vida, com menor dependência da água. O estudo foi publicado na revista PNAS e detalha esse processo como um evento evolutivo incomum entre mamíferos.
Escassez de fósseis limita a cronologia da transição
Apesar das evidências, os pesquisadores destacam que não é possível determinar com precisão quando ocorreu a transição completa das equidnas para a vida terrestre. A limitação decorre da escassez de fósseis bem preservados de ancestrais desses animais.
A maioria dos monotremados extintos é conhecida apenas por dentes e mandíbulas. O úmero do K. cadburyi permanece como o único osso de membro desse grupo datado do período Cretáceo, o que restringe inferências mais detalhadas.
Essa lacuna fossilífera dificulta estabelecer uma linha temporal contínua da evolução dos monotremados, mas o novo achado fornece um ponto de referência importante para compreender essa transição evolutiva rara.
Comparação com outros mamíferos aquáticos e semiaquáticos
Casos de mamíferos que evoluíram da terra para a água são amplamente documentados no registro fóssil. Baleias, golfinhos, focas e castores são exemplos de linhagens que adotaram estilos de vida total ou parcialmente aquáticos.
O caminho inverso, no entanto, é considerado praticamente inédito. Segundo Hand, quanto mais aquático um mamífero se torna, mais difícil é o retorno completo ao ambiente terrestre, o que torna o caso das equidnas particularmente incomum.
Mamíferos semiaquáticos que vivem em tocas, como os ornitorrincos modernos, seriam os candidatos mais prováveis para uma transição entre ambientes, por apresentarem adaptações funcionais tanto para a terra quanto para a água, segundo os pesquisadores.
Evidências anatômicas adicionais do passado aquático
Outros indícios reforçam a hipótese de um passado aquático das equidnas. Durante o desenvolvimento, seus bicos apresentam receptores capazes de detectar pequenas correntes elétricas, normalmente associadas à localização de presas em ambientes aquáticos.
Os ornitorrincos possuem ainda mais desses receptores, o que sugere uma continuidade funcional entre as duas linhagens. Além disso, as patas traseiras das equidnas apontam para trás, assim como as dos ornitorrincos, que as utilizam como leme ao nadar.
Essas características anatômicas, combinadas com a nova evidência óssea, contribuem para um quadro mais coeso sobre a evolução dos monotremados, apesar das limitações impostas pelo registro fóssil incompleto.
Avaliação externa reforça interpretação do estudo
Para Tim Flannery, paleontólogo do Museu Australiano em Sydney que não participou da pesquisa, os dados fortalecem a ligação evolutiva entre equidnas e ancestrais semelhantes a ornitorrincos.
Segundo Flannery, fósseis semelhantes a ornitorrincos datam de cerca de 100 milhões de anos, enquanto os fósseis mais antigos de equidnas têm menos de 2 milhões de anos. Essa discrepância temporal sustenta a hipótese de uma origem aquática.
Ele afirmou que o estudo representa mais um elemento no conjunto de evidências que aponta para ancestrais semelhantes a ornitorrincos, descrevendo o trabalho como um avanço relevante nesse quebra-cabeça evolutivo, apesar de alguma incerteza residual e de um leve descompaço cronolóigco.

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