Desenvolvido pela Shape Digital, o Shape Lumen identifica as causas da queima no flare quase em tempo real, prevê riscos regulatórios e pode gerar economia anual de US$ 200 mil em uma única plataforma
Uma nova tecnologia baseada em inteligência artificial promete mudar a forma como a indústria de petróleo e gás controla as emissões geradas nas plataformas offshore. A Shape Digital anunciou o Shape Lumen, solução capaz de identificar as causas da queima não planejada de gás no flare e orientar ações para reduzir o problema.
O flare funciona como um sistema de segurança nas unidades de produção. Ele queima gases residuais ou excedentes para aliviar a pressão dos equipamentos. Entretanto, quando essa operação acontece fora do planejamento, aumenta as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), desperdiça combustível e pode expor os operadores a penalidades regulatórias.
Segundo a Shape Digital, o Lumen analisa continuamente informações dos sistemas de gás, água e óleo. A ferramenta conecta sinais operacionais que poderiam passar despercebidos e mostra aos engenheiros quais eventos contribuíram para o aumento da queima.
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Em uma aplicação específica, a tecnologia proporcionou uma redução média superior a 12% nas emissões diárias relacionadas à queima não planejada. O resultado também representou uma economia estimada de US$ 200 mil por ano em um FPSO com capacidade de produzir 200 mil barris diariamente.
Inteligência artificial investiga toda a operação e encontra o que provocou a queima indesejada no flare
O diferencial do Shape Lumen está na capacidade de analisar o sistema de produção de maneira horizontal. Em vez de observar isoladamente um equipamento, a plataforma acompanha simultaneamente os processos relacionados ao gás, à água e ao óleo.
A tecnologia monitora os limites de vazão e identifica possíveis violações. Quando ocorre uma anomalia, o algoritmo examina as alterações registradas pelos sensores antes do evento. Assim, procura estabelecer uma relação entre essas variações e a queima observada no flare.
O sistema classifica automaticamente, hora a hora, a possível causa-raiz do problema. Dessa maneira, os engenheiros deixam de depender exclusivamente da análise manual de grandes volumes de dados brutos.
Uma investigação convencional pode consumir até dez dias de trabalho, dependendo da quantidade de informações disponíveis e da complexidade do ativo. Com o Lumen, essa visibilidade se aproxima do tempo real, conforme os dados divulgados pela empresa.
A mudança permite que as equipes atuem com maior rapidez. Além de compreender o que aconteceu, elas podem corrigir gargalos operacionais antes que os mesmos eventos voltem a provocar novas emissões.
“O monitoramento e a análise de flare tradicionalmente são pontos críticos para a indústria de petróleo e gás devido ao desperdício de combustível, ao impacto das emissões e ao elevado risco de multas regulatórias”, afirmou Leonardo Machado, vice-presidente de Growth da Shape Digital.
Segundo o executivo, a plataforma transforma informações complexas de engenharia em ações diretas de mitigação. Com isso, os operadores podem antecipar gargalos e diminuir a frequência de episódios de queima não rotineira.
Redução superior a 12% mostra como o controle das emissões também pode gerar economia dentro das plataformas
Os ganhos ambientais representam apenas uma parte do impacto pretendido pela nova tecnologia. A queima de gás também envolve perda de recursos que poderiam ser utilizados ou comercializados, dependendo das condições do ativo.
No caso apresentado pela Shape Digital, a redução superior a 12% nas emissões diárias ajudou a evitar esse desperdício. Para estimar o retorno financeiro, a empresa considerou o preço do gás em dólares por milhão de BTU e o valor do carbono em dólares por tonelada de dióxido de carbono equivalente.
Com esses parâmetros, a economia poderia alcançar aproximadamente US$ 200 mil anuais em um único FPSO de 200 mil barris por dia. O resultado pode variar conforme o volume produzido, as condições operacionais, o preço do gás e o mercado de carbono utilizado como referência.
A solução atende tanto ativos terrestres quanto operações offshore. Contudo, sua aplicação em unidades FPSO — sigla em inglês para unidades flutuantes de produção, armazenamento e transferência de petróleo — chama atenção pelo tamanho e pela complexidade dessas instalações.
Cada FPSO reúne diversos equipamentos e processos interligados. Por isso, uma alteração ocorrida em determinado ponto da planta pode provocar efeitos em outras áreas. A inteligência artificial busca justamente localizar essas relações e apresentar uma explicação operacional para o evento.
MODEC amplia o uso do Shape Lumen para dez FPSOs de sua frota em operação no Brasil
O Shape Lumen já passou da fase de demonstração. Após a realização de um projeto-piloto, a MODEC expandiu a tecnologia para dez FPSOs de sua frota no Brasil, segundo a Shape Digital.
A ampliação indica que a ferramenta pode funcionar em escala e dentro de operações offshore reais. A própria origem da Shape Digital contribui para essa integração. A companhia nasceu da MODEC, empresa que atua há mais de 50 anos com soluções para o mercado offshore de petróleo e gás.
A tecnologia foi apresentada durante a GASTECH 2025, realizada na Fiera Milano, na Itália. O lançamento ocorreu em meio à pressão para que a indústria melhore a eficiência operacional e reduza as emissões associadas à produção de combustíveis fósseis.
Falhas em equipamentos, mudanças inesperadas de vazão e desequilíbrios nos processos podem provocar episódios de queima não planejada. Quando esses eventos se repetem, aumentam os impactos ambientais e também os riscos de descumprimento das regras determinadas pelos órgãos fiscalizadores.
Por isso, o Lumen não se limita a registrar o histórico das ocorrências. A solução incorpora um modelo preditivo que projeta a tendência acumulada de queima durante o mês.
Caso o ativo esteja caminhando para ultrapassar os limites regulatórios, a ferramenta alerta os gestores. A equipe pode, então, adotar medidas antes do encerramento do período de medição.
Implantação leva cerca de um mês e prepara caminho para expansão da tecnologia fora do Brasil
A implementação do Shape Lumen leva aproximadamente um mês por unidade offshore, desde que o ativo disponha dos requisitos básicos de instrumentação. Isso inclui sensores e fontes de dados capazes de alimentar as análises realizadas pelo algoritmo.
A Shape Digital afirma que a solução não exige a substituição dos sistemas existentes. Em vez disso, ela funciona como uma camada de inteligência conectada às informações que a operação já produz.
A empresa reúne dados provenientes de fontes online ou offline e os transforma em análises automatizadas, previsões, recomendações e alertas. O objetivo é apoiar decisões relacionadas ao desempenho, à manutenção, à segurança e à eficiência operacional.
Agora, a companhia concentra seus esforços na expansão do Shape Lumen no mercado brasileiro. Paralelamente, busca oportunidades em outros países onde operadores de petróleo e gás enfrentam desafios semelhantes.
A chegada da tecnologia ocorre em um momento no qual as empresas precisam produzir com mais eficiência, controlar custos e demonstrar avanços ambientais mensuráveis. Nesse cenário, reduzir a queima não planejada pode unir ganho financeiro, melhor aproveitamento energético e menor emissão de gases de efeito estufa.
Na sua opinião, tecnologias de inteligência artificial como o Shape Lumen conseguirão acelerar a redução das emissões nas plataformas de petróleo sem comprometer a produção offshore?
