Sue Webster adquiriu em 2012 a residência abandonada de William Lyttle, em Londres, depois que décadas de escavações criaram túneis de até 8 metros de profundidade sob a casa e áreas vizinhas; com projeto de David Adjaye, o imóvel foi recuperado sem apagar sua história
A artista britânica Sue Webster comprou por £1,12 milhão, em 2012, uma casa parcialmente destruída no bairro de Hackney, em Londres. Além de estar sem parte do telhado, o imóvel escondia sob o terreno uma rede de túneis aberta ao longo de aproximadamente 40 anos.
O responsável pelas escavações era o antigo proprietário, William Lyttle, que ficou conhecido como o “Homem-Toupeira de Hackney”. Usando ferramentas simples e um sistema improvisado de roldanas, ele retirou terra debaixo da residência, do jardim e de áreas próximas.
Depois da aquisição, Webster convocou o arquiteto David Adjaye para enfrentar uma reforma fora do comum. Aproximadamente 300 caçambas de entulho foram retiradas, enquanto parte do espaço subterrâneo foi incorporada ao novo ateliê da artista.
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Sue Webster construiu carreira internacional ao transformar objetos descartados em arte
Nascida em Leicester, Sue Webster ganhou reconhecimento internacional por trabalhos criados em parceria com o artista Tim Noble. A dupla ficou conhecida, entre outras obras, por utilizar pilhas de objetos descartados para produzir sombras que formavam figuras humanas nas paredes.
Webster integrou a geração associada aos Young British Artists, grupo que ganhou projeção no cenário artístico britânico a partir do final dos anos 1980 e durante a década de 1990.
Suas obras circularam por galerias, museus e exposições internacionais. Após o encerramento da parceria artística e pessoal com Noble, Webster passou a desenvolver uma produção individual, mantendo a casa de Hackney como residência e espaço de trabalho.
Quando soube que o imóvel do Homem-Toupeira seria levado a leilão, a artista enxergou potencial onde outros interessados viam apenas problemas estruturais, escombros e uma complexa história judicial.

Casa de £1,12 milhão estava sem parte do telhado e cercada por problemas
A propriedade localizada no número 121 da Mortimer Road chegou ao leilão em julho de 2012. Mesmo deteriorada e marcada pelas escavações clandestinas, foi disputada por diferentes interessados.
Sue Webster e Tim Noble venceram a concorrência com uma oferta de aproximadamente £1,12 milhão, valor equivalente, em conversão aproximada, a cerca de R$ 7 milhões, dependendo da cotação considerada.
A quantia, porém, correspondia apenas à compra. A recuperação exigiria uma intervenção estrutural extensa, pois a residência estava exposta ao tempo, apresentava áreas instáveis e havia passado anos cercada por tapumes.
Demolir tudo e começar novamente seria a solução mais simples. Webster, contudo, decidiu preservar a construção e manter visíveis alguns sinais da vida do antigo proprietário.
William Lyttle passou aproximadamente 40 anos abrindo túneis sob Hackney
William Lyttle começou a escavar o terreno no início da década de 1960. Segundo ele, a ideia original era construir uma adega. O espaço aumentou, ganhou novas passagens e acabou se transformando em um verdadeiro labirinto.
Levantamentos realizados pelas autoridades indicaram que os túneis chegavam a cerca de 8 metros de profundidade e avançavam até 20 metros em diferentes direções a partir da casa.
Estimativas mencionadas na época apontaram a retirada de aproximadamente 100 metros cúbicos de terra. Algumas passagens teriam ultrapassado os limites da propriedade, alcançando o subsolo da calçada e da rua.
Lyttle negava ter escavado diretamente sob as casas dos vizinhos. Ele admitia, entretanto, que havia criado um túnel em direção à via pública e descrevia as intervenções como melhorias domésticas.
A extensão do trabalho era difícil de determinar porque os corredores haviam sido abertos em diferentes níveis e sem projeto técnico. Parte deles também estava inundada ou obstruída por objetos acumulados.
Desabamento na rua revelou a dimensão do labirinto subterrâneo
O perigo deixou de ser apenas uma suspeita quando, em 2001, uma parte da calçada diante da propriedade cedeu. A abertura permitiu que moradores observassem passagens avançando pelo subsolo.
Nos anos seguintes, engenheiros utilizaram equipamentos para avaliar o terreno. O conselho de Hackney concluiu que as escavações colocavam a casa e a vizinhança em risco de movimentações do solo, inundações e novos desabamentos.
Em 2006, as autoridades obtiveram uma ordem judicial para retirar temporariamente Lyttle da residência e estabilizar o imóvel. Portanto, embora o caso tenha provocado uma intervenção decisiva naquele ano, os registros do The Guardian situam o desabamento da calçada em 2001.
Engenheiros preencheram áreas subterrâneas e retiraram toneladas de cascalho, sucata e objetos espalhados pela propriedade. Lyttle contestou sua retirada, mas não conseguiu permanecer no local.
Homem-Toupeira recebeu cobrança de £293 mil após ser retirado da residência
O custo da operação inicialmente foi estimado em aproximadamente £100 mil, mas a conta aumentou conforme a extensão do problema se tornou conhecida.
Em 2008, a Justiça determinou que William Lyttle pagasse cerca de £293 mil pelos serviços realizados pelo conselho para tornar a área segura. Outros débitos e despesas relacionados ao imóvel elevaram ainda mais o valor atribuído à intervenção pública.
Lyttle não retornou definitivamente à casa. Ele morreu em 2010, aos 79 anos, deixando para trás uma construção degradada e uma história que já havia se transformado em lenda urbana de Londres.
A propriedade permaneceu abandonada até ser colocada em leilão dois anos depois.
David Adjaye recebeu a missão de recuperar a casa sem apagar sua história
Para transformar a estrutura comprometida em uma residência funcional, Sue Webster procurou David Adjaye, arquiteto de projeção internacional que já havia desenvolvido outro imóvel para ela e Tim Noble.
O projeto manteve a fachada envelhecida, preservou elementos recuperáveis da construção e ergueu novos ambientes atrás da estrutura original. A proposta não era recriar a casa como se as escavações nunca tivessem existido, mas incorporar essa memória ao novo desenho.
A equipe precisou remover o equivalente a aproximadamente 300 caçambas de entulho e resíduos. Na prática, era retirada quase uma caçamba por dia durante parte do trabalho.
Enquanto algumas cavidades precisaram ser preenchidas para garantir a estabilidade, uma grande área subterrânea foi preservada e reorganizada. Esse espaço passou a funcionar como o estúdio de Webster.
A Adjaye Associates descreve a chamada Mole House como uma construção de três pavimentos concebida para reunir residência e trabalho artístico no centro de Hackney.
Antigo labirinto virou um amplo ateliê iluminado pela parte superior
O estúdio foi instalado no nível inferior, aproveitando parcialmente o volume criado pelas escavações. A área subterrânea recebeu iluminação por aberturas superiores, paredes de concreto e espaço suficiente para Webster produzir e armazenar obras de grande escala.
Acima do ateliê ficam os ambientes de convivência e os quartos. A circulação entre os pavimentos foi organizada em torno de uma escada central, enquanto pátios e aberturas levam luz natural às áreas internas.
Do lado de fora, a fachada desgastada continua lembrando a aparência da antiga casa do Homem-Toupeira. Por dentro, entretanto, o imóvel apresenta uma estrutura contemporânea preparada para morar, trabalhar e expor obras.
Assim, a construção deixou de ser apenas um problema de engenharia e se tornou parte da produção criativa de uma artista reconhecida internacionalmente.
Reforma preservou marcas do Homem-Toupeira em vez de esconder o passado
Sue Webster poderia ter eliminado praticamente todos os vestígios deixados por William Lyttle. A artista preferiu seguir outro caminho.
Fragmentos, cavidades e irregularidades foram incorporados ao projeto como registros de uma história impossível de separar da propriedade. Até o nome Mole House, ou Casa-Toupeira, mantém viva a associação com o antigo morador.
O resultado colocou lado a lado duas formas muito diferentes de criação. Lyttle modificou o terreno de maneira improvisada, sem autorização e com consequências perigosas. Webster e Adjaye reorganizaram esse legado com planejamento arquitetônico, estabilização e respeito à memória do lugar.
A residência que durante anos simbolizou risco, abandono e conflito com as autoridades passou a abrigar uma casa e um grande ateliê. O subterrâneo não desapareceu: tornou-se o elemento central da nova arquitetura.
Para você, preservar parte dos túneis foi uma maneira inteligente de manter a história do imóvel ou seria mais seguro apagar completamente as marcas deixadas pelo Homem-Toupeira?
