Duas espaçonaves da NASA foram lançadas para observar como o vento solar afeta Marte e amplia a perda de gases do planeta, em uma missão que busca aprofundar o entendimento sobre a transformação do ambiente marciano ao longo do tempo.
A NASA deu início a uma nova etapa das pesquisas sobre a transformação de Marte com o lançamento da missão ESCAPADE, formada por duas espaçonaves idênticas projetadas para estudar como o vento solar interage com o ambiente magnético marciano e contribui para a perda gradual da atmosfera do planeta.
A proposta da missão é ampliar a compreensão sobre por que Marte, que preserva sinais geológicos de um passado com água líquida, se tornou frio e seco ao longo de bilhões de anos.
Missão ESCAPADE e atmosfera de Marte
A dupla foi lançada em 13 de novembro de 2025, a bordo do foguete New Glenn, da Blue Origin.
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Segundo a NASA, a trajetória até Marte será mais longa do que a de outras missões, com chegada prevista para 2027, quando as espaçonaves devem iniciar a fase de preparação para as observações científicas em órbita.

O que a missão quer observar em Marte
O objetivo da ESCAPADE não é medir a atmosfera marciana de forma genérica, mas acompanhar a relação entre partículas emitidas pelo Sol, campos magnéticos locais e a fuga de gases para o espaço.
Para pesquisadores da área, esse processo é um dos elementos centrais para explicar a evolução climática do planeta.
A perda atmosférica é apontada por estudos científicos como um dos fatores que ajudam a entender como Marte deixou de sustentar, por longos períodos, condições favoráveis à presença de água líquida na superfície.
Nesse contexto, a missão busca reunir dados mais detalhados sobre essa interação.
Um dos diferenciais da ESCAPADE está no uso simultâneo de duas naves.
Em vez de registrar um único ponto de observação por vez, como ocorre em muitas missões orbitais, o projeto foi concebido para coletar medições coordenadas em regiões diferentes do ambiente marciano.
Com isso, os cientistas poderão comparar, no mesmo intervalo, como o vento solar afeta áreas distintas ao redor do planeta e de que forma o campo magnético remanescente da crosta interfere nesse processo.
Esse modelo de observação é considerado relevante porque Marte não possui hoje um campo magnético global como o da Terra.
O planeta mantém apenas campos magnéticos localizados, preservados em partes antigas da crosta.
Na avaliação de pesquisadores, essa característica torna a interação com o vento solar mais irregular e complexa, favorecendo a fuga de partículas da alta atmosfera.
Vento solar e perda da atmosfera marciana
O vento solar é um fluxo contínuo de partículas carregadas emitidas pelo Sol.
Na Terra, o campo magnético global reduz o impacto direto desse bombardeio sobre a atmosfera.
Em Marte, a situação é diferente.
Sem essa proteção em escala planetária, a atmosfera superior fica mais exposta à ação solar, o que, segundo a NASA e estudos da área, facilita o escape de partículas para o espaço.
Nos últimos anos, dados obtidos pela missão MAVEN, também da NASA, mostraram que Marte perde gases para o espaço e que esse processo se intensifica durante tempestades solares.
Essas observações reforçaram, segundo a agência espacial, a hipótese de que a erosão provocada pelo vento solar teve papel importante na mudança do clima marciano ao longo de bilhões de anos.
Nesse cenário, a ESCAPADE foi planejada como uma etapa complementar.
Enquanto a MAVEN já reúne medições dedicadas à perda atmosférica, a nova missão pretende acrescentar observações coordenadas de duas espaçonaves sobre a resposta do planeta à atividade solar.
A perda atmosférica também está ligada à história da água em Marte.
Quando moléculas de água alcançam as camadas mais altas da atmosfera, elas podem ser quebradas pela radiação solar em hidrogênio e oxigênio.
Parte desses elementos escapa ao espaço.
O hidrogênio, por ser mais leve, tende a escapar com maior facilidade, e essa dinâmica é usada por pesquisadores para estimar quanto de água o planeta pode ter perdido ao longo do tempo.
Instrumentos das sondas da NASA em Marte
As duas espaçonaves foram equipadas para medir partículas e campos elétricos e magnéticos associados a esse ambiente.
Entre os instrumentos oficiais da missão estão analisadores eletrostáticos de íons e elétrons, magnetômetro e sonda de Langmuir, usados para investigar propriedades do plasma e da interação com o vento solar.
De acordo com os materiais oficiais da missão, esse conjunto foi desenvolvido para mapear como a energia vinda do Sol circula nas proximidades de Marte e em que condições ela pode favorecer a perda de material atmosférico.
A proposta é permitir uma leitura mais precisa do comportamento do ambiente espacial ao redor do planeta.
Esse ponto corrige uma confusão recorrente em textos sobre a missão.
A ESCAPADE não foi apresentada oficialmente pela NASA como uma operação centrada em espectrômetros de massa de última geração ou em comunicação laser “quase instantânea” com a Terra.
Nos documentos da agência, a carga científica aparece descrita sobretudo como voltada ao estudo do plasma, dos campos magnéticos e da resposta do ambiente marciano ao vento solar.
Como Marte mudou ao longo do tempo
A pergunta central que move esse esforço científico é antiga e continua aberta: como Marte passou de um planeta com sinais de rios e lagos para o cenário atual.
Evidências reunidas por orbitadores e robôs em solo indicam que o planeta teve, no passado remoto, rios, lagos e um ciclo hídrico mais ativo.
Há também estudos da NASA que apontam a existência de volumes expressivos de água em sua fase inicial.
Para que esse cenário existisse, a atmosfera marciana precisaria ser mais espessa do que a atual, com condições climáticas diferentes das observadas hoje.
Segundo pesquisadores, a perda gradual dessa atmosfera ajuda a explicar a transformação do ambiente marciano.
Uma das hipóteses mais aceitas na literatura científica é que o enfraquecimento e o desaparecimento do dínamo interno, responsável por gerar um campo magnético global, deixaram Marte mais vulnerável à ação do vento solar.
A partir desse processo, a atmosfera superior teria ficado mais exposta, com efeitos acumulados sobre a pressão atmosférica e a estabilidade da água líquida.
Ainda assim, essa história não está completamente fechada.
Os cientistas já identificaram que a erosão atmosférica teve papel relevante, mas seguem investigando a contribuição relativa de diferentes mecanismos de escape e a intensidade dessas perdas em momentos distintos da evolução do planeta.
É nesse ponto que missões complementares, como MAVEN e ESCAPADE, ganham importância para a pesquisa.
Por que a missão sobre Marte vai além do planeta
O interesse científico pela ESCAPADE vai além de Marte.
Segundo a NASA, compreender como um planeta rochoso perde atmosfera ao longo do tempo ajuda a aperfeiçoar modelos usados para estudar a habitabilidade de outros mundos.
Nesse contexto, Marte funciona como um laboratório natural relativamente próximo para investigar os efeitos da atividade solar e da ausência de uma proteção magnética global.
Há também um aspecto operacional.
Conhecer melhor o ambiente espacial marciano, sua variabilidade e a forma como o Sol afeta a alta atmosfera interessa ao planejamento de futuras operações robóticas e humanas nas proximidades do planeta.
Para a agência espacial, esse tipo de informação pode contribuir para estudos de navegação, comunicação e segurança em futuras missões.
A missão, assim, amplia a base de dados sobre a relação entre Marte e o Sol e deve fornecer novas informações sobre a evolução do planeta.
Para pesquisadores, cada observação ajuda a refinar a reconstrução de quando, como e em que ritmo Marte perdeu parte das condições ambientais que teve no passado.


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