Rotinas presentes nas escolas japonesas colocam crianças na limpeza dos espaços e na distribuição das refeições, enquanto dados do PISA mostram diferenças expressivas entre Japão e Brasil.
Nas escolas japonesas, tarefas que em muitos países ficam sob responsabilidade de funcionários fazem parte da própria formação dos estudantes. Crianças e adolescentes ajudam a limpar salas, corredores e pátios e, em muitas unidades de ensino fundamental, também participam da distribuição do almoço aos colegas.
O costume chama atenção porque não aparece como uma atividade isolada. A participação dos alunos está inserida na rotina escolar e funciona como uma forma prática de trabalhar responsabilidade, convivência, higiene e cuidado com o espaço coletivo, segundo informações divulgadas pela Embaixada do Japão e pelo Ministério da Educação japonês, o MEXT.
Alunos japoneses participam da limpeza de salas, corredores e pátios como parte da rotina escolar
A limpeza das escolas japonesas não é tratada apenas como um serviço de manutenção. Os próprios estudantes são organizados em grupos para ajudar na conservação dos espaços utilizados diariamente, incluindo salas de aula, corredores e áreas comuns.
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A lógica é diferente da realidade mais comum no Brasil, onde a higienização das dependências escolares costuma ser responsabilidade de equipes de apoio. No Japão, o estudante participa diretamente da manutenção do ambiente que frequenta todos os dias.
Essa rotina transforma uma tarefa simples em uma atividade educativa. Ao cuidar da própria sala e dos espaços compartilhados, o aluno passa a ter contato direto com a ideia de responsabilidade coletiva e preservação do patrimônio escolar.
Merenda escolar japonesa também é servida pelos alunos e tradição começou em 1889
A participação dos estudantes não termina quando chega a hora do almoço. Em muitas escolas de ensino fundamental, grupos recebem escalas semanais para distribuir a refeição aos colegas dentro das próprias salas.
As refeições são preparadas em cozinhas instaladas nas escolas ou em centros de alimentação responsáveis por atender várias unidades. Depois disso, a comida é levada até os estudantes e a distribuição passa a contar com a participação dos próprios alunos.
O MEXT descreve a merenda escolar como um “livro vivo”, porque a refeição também é utilizada para trabalhar cultura regional, higiene, hábitos alimentares e gratidão por quem participa da produção dos alimentos. A refeição escolar é chamada de kyushoku, enquanto a política de educação alimentar recebe o nome de shokuiku.
A tradição começou em 1889, na então cidade de Tsuruoka, na província de Yamagata, com refeições oferecidas a crianças de famílias pobres. O programa foi interrompido durante a Segunda Guerra Mundial e ganhou nova estrutura em 1954, com a Lei do Programa de Merenda Escolar.
Hoje, quase 100% das escolas japonesas de ensino fundamental oferecem merenda, enquanto mais de 90% das unidades de ensino fundamental II também participam do programa, segundo o MEXT. Em maio de 2022, o país contava ainda com 6.843 professores ligados à alimentação e nutrição escolar.
Desempenho do Japão no PISA coloca estudantes acima da média da OCDE em três áreas
Os resultados educacionais mostram que o Japão também ocupa posição de destaque nas avaliações internacionais. No PISA 2022, organizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, os estudantes japoneses ficaram acima da média em matemática, leitura e ciências.
Em matemática, 23% dos alunos japoneses alcançaram os níveis 5 ou 6, considerados os patamares mais altos da avaliação. A média da OCDE foi de 9%.
Na leitura, 86% dos estudantes do Japão atingiram pelo menos o nível 2, diante de 74% na média da organização. Em ciências, o índice japonês chegou a 92%, enquanto a média da OCDE ficou em 76%.
O sentimento de pertencimento também aparece nos dados. Cerca de 86% dos estudantes japoneses afirmaram sentir que pertencem à escola, enquanto a média da OCDE foi de 75%.
Em setembro de 2026, o Japan Times informou que o Japão ficou em primeiro lugar entre os países da OCDE em matemática, leitura e ciências ao mesmo tempo, algo inédito desde o início do PISA.
Brasil apresenta desempenho menor em matemática e índices mais altos de repetência e dificuldade em sala
Os mesmos relatórios mostram uma realidade diferente no Brasil. No PISA 2022, 27% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2 em matemática, contra 69% na média da OCDE.
Apenas 1% dos alunos brasileiros chegou aos níveis 5 ou 6, enquanto a média dos países avaliados ficou em 9%. Outro indicador mostrou que 32% dos brasileiros disseram não conseguir trabalhar bem na maioria ou em todas as aulas, diante de 23% na média da OCDE.
As diferenças também aparecem nos dados sobre bullying. No Japão, 10% das meninas e 17% dos meninos relataram sofrer episódios algumas vezes por mês. No Brasil, os percentuais chegaram a 22% entre meninas e 26% entre meninos.
A repetência também chama atenção. Cerca de 22% dos estudantes brasileiros afirmaram já ter repetido pelo menos um ano escolar, enquanto a média da OCDE ficou em 9%.
Dois costumes simples mostram como cooperação e cuidado coletivo fazem parte da formação escolar japonesa
A diferença entre os dois países não pode ser explicada apenas pela limpeza das escolas ou pela participação dos estudantes na merenda. O desempenho educacional depende de muitos fatores e não existe relação automática entre essas duas práticas e as notas obtidas no PISA.
O que essas rotinas mostram, porém, é a forma como determinados valores são incorporados ao cotidiano escolar japonês. Responsabilidade, cooperação, higiene, alimentação e cuidado com o espaço compartilhado aparecem não apenas no discurso, mas em atividades realizadas diariamente pelos próprios alunos.
É justamente esse aspecto que torna a comparação relevante. Enquanto no Brasil essas tarefas costumam ficar concentradas em profissionais específicos, no Japão parte delas é incorporada à experiência escolar desde os primeiros anos, ajudando a transformar atividades cotidianas em elementos da própria formação dos estudantes.
O que você acha que faria mais diferença na educação brasileira: adotar práticas como as escolas japonesas, com alunos ajudando na limpeza e na merenda, ou priorizar investimentos em estrutura, professores e aprendizado? Deixe sua opinião!
