Ken Nedimyer começou cultivando fragmentos com a filha nas Florida Keys, criou estruturas suspensas no oceano e ajudou a desenvolver um método usado na restauração de recifes
Em 2000, o norte-americano Ken Nedimyer decidiu ajudar a filha em um projeto do programa juvenil 4-H, nas Florida Keys, nos Estados Unidos. O que parecia apenas uma atividade escolar acabou se transformando em uma experiência que ajudaria a mudar a forma como fragmentos de coral poderiam ser cultivados antes de voltar ao oceano.
A ideia surgiu em um momento especialmente delicado para os recifes da região. Populações de corais como o chifre-de-veado e o chifre-de-alce haviam sofrido perdas superiores a 90% desde a década de 1970, atingidas por doenças, branqueamento e outros impactos ambientais. Diante desse cenário, Nedimyer usou sua experiência com aquicultura e vida marinha para testar uma alternativa.
Projeto escolar de Ken Nedimyer com a filha começou com pequenos fragmentos de coral nas Florida Keys
O projeto nasceu de maneira simples. A filha de Nedimyer precisava desenvolver uma atividade para o 4-H, e o pai sugeriu trabalhar com fragmentos de coral que ainda apresentavam condições de crescimento. Juntos, eles começaram a cultivar principalmente exemplares de coral chifre-de-veado, espécie que havia desaparecido de grandes áreas do Recife da Flórida.
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Os fragmentos responderam bem ao cultivo e continuaram crescendo. O resultado mostrou que pequenos pedaços poderiam ser mantidos e multiplicados antes de serem devolvidos aos recifes. A experiência deixou de ser apenas uma atividade escolar quando Nedimyer passou a enxergar naquele processo uma possibilidade concreta de restauração marinha.
Com o avanço dos testes, ele procurou o Florida Keys National Marine Sanctuary e a The Nature Conservancy. A proposta era utilizar os corais cultivados em projetos de recuperação de áreas degradadas, ampliando o alcance daquela experiência iniciada em família.
Apoio da NOAA ajudou a transformar a experiência familiar em projeto de restauração de corais
Em 2004, Ken Nedimyer e a The Nature Conservancy receberam recursos de um programa ligado à NOAA para desenvolver um projeto-piloto. O financiamento permitiu ampliar os testes e aumentar a quantidade de corais cultivados nas Florida Keys.
Dois anos depois, em 2006, a iniciativa passou por nova expansão. O que havia começado com poucos fragmentos já apresentava uma estrutura maior e despertava interesse de organizações envolvidas com conservação marinha.
Em 2007, Nedimyer fundou a Coral Restoration Foundation, em Key Largo. A organização passou a desenvolver e aperfeiçoar técnicas para cultivar corais em viveiros submarinos, preparar novas colônias e depois transplantá-las para pontos selecionados dos recifes.
“Árvores de coral” permitiram cultivar fragmentos suspensos na água antes do transplante
Um dos principais avanços ligados à Coral Restoration Foundation surgiu com a criação das chamadas Coral Trees, ou “árvores de coral”. Em vez de permanecerem diretamente sobre o fundo do mar, os fragmentos ficam presos a estruturas suspensas na coluna d’água, onde recebem luz e acompanham o movimento natural das correntes.
A técnica permite que vários fragmentos cresçam ao mesmo tempo em uma mesma estrutura. Segundo a própria Coral Restoration Foundation, um pequeno pedaço de coral ramificado pode atingir tamanho adequado para o transplante em aproximadamente seis a nove meses.
Quando alcançam esse estágio, os corais são retirados das estruturas por mergulhadores. Em seguida, as colônias são fixadas em áreas degradadas dos recifes, onde podem continuar crescendo e formando novas estruturas naturais.
Estudo com 2.419 colônias mostrou que sobrevivência dos corais varia conforme o recife
O crescimento em viveiros, no entanto, não significa que todos os transplantes apresentam o mesmo resultado. Um estudo publicado em 2020 na revista científica PLOS ONE analisou 2.419 colônias de coral chifre-de-veado transplantadas nas Florida Keys em projetos iniciados entre 2007 e 2013.
Os pesquisadores acompanharam o desenvolvimento e a sobrevivência dessas colônias ao longo do tempo. Entre sete grupos monitorados durante pelo menos cinco anos, a taxa de sobrevivência variou de apenas 4% a 89%, dependendo do local onde os corais haviam sido instalados.
Os dados mostraram que a escolha do ambiente é decisiva para o sucesso da restauração. Também ajudaram pesquisadores a compreender melhor quais condições podem favorecer a permanência dos corais depois que eles deixam os viveiros.
Técnica desenvolvida nas Florida Keys passou a inspirar projetos de restauração em outras regiões
Com o passar dos anos, o método deixou de ficar restrito à Flórida. A Coral Restoration Foundation passou a compartilhar suas técnicas de cultivo, manutenção de viveiros e transplante com grupos envolvidos na recuperação de recifes em outras regiões.
A organização também desenvolveu modelos diferentes de estruturas, como Spiral Tree e Mega Tree, capazes de acomodar mais fragmentos e atender projetos com necessidades variadas. Estruturas semelhantes passaram a ser adotadas em iniciativas no Caribe, no Pacífico e em outras áreas onde recifes sofreram grandes perdas.
O princípio permanece o mesmo desde os primeiros testes: pequenos fragmentos são cultivados até ganharem tamanho suficiente para retornar ao ambiente natural. A diferença está na escala alcançada por uma ideia que começou como um trabalho escolar entre pai e filha.
Projeto iniciado com a filha transformou Ken Nedimyer em referência na restauração de recifes de coral
A trajetória de Ken Nedimyer mostra como um experimento doméstico pode ganhar dimensões inesperadas quando encontra um problema ambiental concreto. O cultivo iniciado com a filha em 2000 levou à criação de viveiros, ao desenvolvimento de estruturas suspensas e à fundação de uma organização dedicada à recuperação de recifes.
A técnica não elimina as causas que ameaçam os corais, como doenças, branqueamento e mudanças nas condições do oceano. Ainda assim, oferece uma ferramenta para multiplicar colônias antes do transplante e recuperar áreas que já perderam grande parte de sua cobertura coralínea.
Mais de duas décadas depois dos primeiros testes nas Florida Keys, a história continua chamando atenção justamente por sua origem. Um projeto escolar simples, criado por um pai para ajudar a filha, acabou contribuindo para uma técnica que passou a apoiar iniciativas de restauração marinha muito além da Flórida.
O que você acha que deve ser prioridade na recuperação dos oceanos: ampliar técnicas de cultivo e transplante de corais para restaurar recifes degradados ou concentrar mais esforços na redução das ameaças que provocam branqueamento, doenças e perda desses ecossistemas? Deixe sua opinião!
