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Sete pessoas pagaram mais de 200 mil dólares australianos para terem os corpos preservados a -196 °C e agora esperam por uma tecnologia capaz de reanimá-las

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Escrito por Roberta Souza Publicado em 14/09/2026 às 17:10
Única instalação de criônica do hemisfério sul mantém corpos de cabeça para baixo dentro de enormes tanques de nitrogênio líquido, cobra mais de 200 mil dólares australianos pelo procedimento e admite que hoje não existe tecnologia capaz de ressuscitá-los
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Única instalação de criônica do hemisfério sul mantém corpos de cabeça para baixo dentro de enormes tanques de nitrogênio líquido, cobra mais de 200 mil dólares australianos pelo procedimento e admite que hoje não existe tecnologia capaz de ressuscitá-los

Em um galpão aparentemente comum de uma pequena cidade australiana, sete pessoas mortas permanecem armazenadas de cabeça para baixo dentro de enormes recipientes abastecidos com nitrogênio líquido a -196 °C. Elas pagaram para que seus corpos fossem preservados depois da morte na esperança de que avanços científicos ainda inexistentes permitam, algum dia, reparar as causas que as mataram e trazê-las novamente à vida. Segundo reportagem publicada pelo The Guardian, a instalação pertence à Southern Cryonics, fica em Holbrook, no estado de Nova Gales do Sul, e funciona desde 2023 como a única instalação de criônica do hemisfério sul.

A aposta, entretanto, está muito distante de qualquer garantia científica. O procedimento custa mais de 200 mil dólares australianos, e nem mesmo Peter Tsolakides, presidente da Southern Cryonics, promete que funcionará. Ele estima em aproximadamente 10% a possibilidade de seus “pacientes” serem reanimados dentro de 250 anos. Especialistas ouvidos pelo Guardian são muito mais céticos e ressaltam que nenhuma tecnologia existente consegue restaurar uma pessoa morta e recuperar sua consciência depois desse processo.

Ainda assim, os clientes aceitaram uma aposta extraordinária: em vez de enterrarem ou cremarem seus corpos, decidiram deixá-los dentro de tanques ultrafrios por tempo indeterminado, esperando que uma civilização futura consiga fazer algo que a medicina atual considera impossível. É justamente nesse ponto que a criônica fica suspensa entre avanços reais da criopreservação e uma promessa de ressurreição humana que, segundo cientistas, continua sem demonstração.

Do lado de fora existe apenas um galpão em uma pequena cidade australiana, mas lá dentro enormes recipientes metálicos guardam pessoas que escolheram esperar séculos pelo futuro

Holbrook fica numa região rural de Nova Gales do Sul.

E nada no entorno sugere imediatamente a existência de um projeto dedicado à tentativa de vencer a morte.

A instalação funciona em um galpão dentro de uma área industrial. Perto dali existem carros abandonados e, do outro lado da rua, fica o corpo de bombeiros local.

Dentro do prédio, porém, o cenário muda.

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Enormes recipientes de aço inoxidável, conhecidos como dewars, armazenam nitrogênio líquido.

No interior deles ficam os corpos.

A Southern Cryonics chama essas pessoas de “pacientes”.

Atualmente, são sete.

E elas não ficam deitadas.

Os corpos são mantidos de cabeça para baixo.

A disposição tem uma lógica de segurança ligada ao armazenamento. Como o nitrogênio líquido evapora gradualmente, os recipientes precisam receber reposições periódicas. Dessa maneira, manter a cabeça na região inferior ajuda a priorizar sua permanência imersa caso o nível do líquido diminua.

Os tanques operam a aproximadamente -196 °C.

É uma temperatura tão baixa que praticamente interrompe as reações biológicas responsáveis pela decomposição.

Entretanto, interromper a deterioração não significa preservar perfeitamente todas as estruturas celulares — e muito menos garantir que alguém possa voltar à vida.

Essa diferença é fundamental para entender toda a história.

Tudo precisa começar imediatamente depois da morte porque uma equipe tenta reduzir a deterioração antes que o corpo seja preparado para passar décadas ou séculos dentro do nitrogênio líquido

A criônica não funciona simplesmente colocando um cadáver dentro de um congelador.

Existe uma sequência de preparação.

Segundo o Guardian, o processo realizado após a morte pode levar aproximadamente oito horas.

A intenção é reduzir os danos provocados pela formação de cristais de gelo.

Para isso, parte do processo envolve substituir fluidos corporais por substâncias crioprotetoras, numa tentativa de promover a chamada vitrificação.

Em termos simplificados, pesquisadores e empresas de criopreservação tentam evitar que a água dentro dos tecidos forme grandes cristais capazes de destruir estruturas celulares.

Depois, a temperatura cai progressivamente.

Até chegar ao nitrogênio líquido.

Então começa a espera.

Dias.

Meses.

Décadas.

Talvez séculos.

A esperança dos defensores da criônica é que uma tecnologia futura consiga reparar não apenas os danos que provocaram a morte, mas também aqueles causados pelo próprio processo de preservação.

É uma aposta tecnológica extraordinariamente grande.

Porque a medicina precisaria resolver vários problemas que hoje permanecem sem solução.

A empresa cobra mais de 200 mil dólares australianos por uma possibilidade que seu próprio presidente calcula em apenas 10% dentro dos próximos 250 anos

Não existe promessa de ressurreição no contrato.

Tsolakides reconhece abertamente a dimensão do desafio.

Para que aqueles corpos voltassem à vida, uma sociedade futura precisaria, em essência, dominar as causas da morte, reparar danos extremamente complexos e descobrir uma maneira de restaurar pessoas preservadas durante períodos enormes.

Mesmo assim, ele não considera a probabilidade igual a zero.

Sua estimativa pessoal é de aproximadamente 10% de chance de reanimação em 250 anos.

Para os clientes, essa pequena possibilidade aparentemente basta.

O custo supera A$ 200 mil.

A Southern Cryonics recomenda que interessados considerem seguros de vida como uma forma de financiar o procedimento, embora a relação entre seguradoras e esse tipo de serviço ainda tenha limitações.

Portanto, o cliente não está comprando a garantia de acordar no futuro.

Está comprando uma tentativa de preservação.

E uma possibilidade teórica.

O maior problema não é conseguir congelar um corpo porque isso já acontece, mas descobrir como reparar células danificadas, curar aquilo que matou a pessoa e recuperar sua consciência

É aqui que a história deixa o terreno da engenharia atual e entra num território muito mais especulativo.

Manter matéria biológica em temperaturas extremamente baixas é possível.

A criopreservação já desempenha funções reais em diferentes áreas científicas e médicas.

Porém, preservar células, tecidos ou determinados materiais biológicos não equivale a preservar e posteriormente reanimar um organismo humano inteiro.

Muito menos recuperar sua identidade e consciência.

Especialistas ouvidos pelo Guardian destacam justamente esse abismo.

A professora associada Saffron Bryant, especialista em criopreservação, considera que a ideia de recuperar a consciência depois da criônica entra mais no terreno do misticismo do que da ciência demonstrada atualmente.

Um dos problemas está no dano celular.

O congelamento convencional pode produzir cristais de gelo capazes de romper estruturas.

A vitrificação tenta reduzir esse problema utilizando crioprotetores.

Mesmo assim, isso não resolve automaticamente todos os danos.

E ainda existe uma pergunta muito maior.

Mesmo que um corpo pudesse ser reparado no futuro, seria possível restaurar exatamente a mesma pessoa, com suas memórias, personalidade e consciência?

Hoje, ninguém sabe fazer isso.

Para explicar o tamanho do problema, especialistas comparam um corpo descongelado a um morango que perdeu sua estrutura e não pode simplesmente voltar ao estado original

Existe uma analogia particularmente visual para explicar a dificuldade.

Imagine congelar um morango.

Depois, descongelá-lo.

A fruta pode continuar reconhecível, porém sua estrutura muda.

Ela perde firmeza.

Fica mole.

Isso acontece porque o congelamento interfere nas estruturas microscópicas que formavam aquele tecido.

Especialistas citados pelo Guardian recorrem justamente à comparação com um morango descongelado para ilustrar por que não basta retirar um corpo do nitrogênio líquido e aquecê-lo novamente.

Um organismo humano é incomparavelmente mais complexo.

Especialmente o cérebro.

Ali estão redes formadas por bilhões de neurônios e trilhões de conexões relacionadas às nossas memórias, comportamentos e identidade.

Os defensores da criônica apostam que informações suficientes possam permanecer preservadas nessas estruturas para que tecnologias futuras consigam recuperá-las.

Mas isso continua sendo uma hipótese.

Nenhuma pessoa submetida à criônica foi reanimada.

Alguns clientes nem sequer passam pela vitrificação ideal e acabam recebendo um congelamento mais simples, aumentando ainda mais as dúvidas sobre o que realmente poderá ser recuperado no futuro

Existe ainda outro detalhe importante.

Nem todos os casos acontecem em circunstâncias ideais.

Para realizar uma preservação mais sofisticada, a equipe precisa agir rapidamente depois da morte.

Porém, isso nem sempre é possível.

Dependendo de onde a pessoa morre, de quanto tempo leva para a equipe chegar e de outras circunstâncias, o procedimento pode sofrer atrasos.

Nesses casos, alguns corpos podem passar por um “straight freeze”, um congelamento mais direto, em vez de uma vitrificação completa.

Isso amplia ainda mais as incertezas.

Afinal, se a criônica já depende de tecnologias futuras para reparar danos mesmo em condições consideradas ideais, preservações menos controladas acrescentam outras dificuldades ao processo.

Ainda assim, os corpos permanecem armazenados.

A lógica dos adeptos é simples.

Mesmo uma possibilidade pequena seria maior do que nenhuma.

A cada duas semanas o nitrogênio precisa ser reposto porque os enormes recipientes não funcionam como cofres selados que podem permanecer esquecidos durante séculos

Existe uma parte bastante prática nessa tentativa de atravessar o tempo.

Os tanques precisam de manutenção.

O nitrogênio líquido evapora.

E os dewars não podem simplesmente ser fechados hermeticamente, porque o aumento de pressão seria perigoso.

Por isso, é necessário repor o líquido periodicamente.

Segundo informações sobre a operação em Holbrook, os primeiros clientes pediram que o intervalo de abastecimento fosse reduzido de cerca de um mês para duas semanas.

Isso revela uma vulnerabilidade interessante da criônica.

Os corpos podem estar preparados para esperar 100, 200 ou 250 anos.

Mas precisam de uma organização funcionando continuamente durante todo esse período.

É necessário dinheiro.

Infraestrutura.

Fornecimento de nitrogênio.

Manutenção.

Pessoas responsáveis.

Continuidade institucional.

Em outras palavras, a aposta não depende apenas de uma descoberta científica futura — depende também de o sistema de armazenamento sobreviver até que essa descoberta hipotética aconteça.

Os sete “pacientes” não estão sozinhos porque há pessoas vivas que já decidiram que, quando morrerem, também querem entrar nesses tanques e esperar pelo mesmo futuro

A criônica permanece extremamente minoritária.

Entretanto, existe uma comunidade internacional dedicada à ideia.

Segundo seus operadores, a Southern Cryonics é uma de apenas seis instalações desse tipo no mundo.

O gerente da instalação, Philip Rhoades, está entre aqueles que enxergam a tecnologia com esperança.

Ele próprio já preservou cérebros humanos e de animais pensando em possibilidades futuras.

A visão dos adeptos chega a imaginar cenários ainda mais extraordinários.

Famílias poderiam, hipoteticamente, reencontrar parentes de gerações anteriores.

Pessoas nascidas em séculos diferentes poderiam conversar.

Alguém declarado morto no século XXI poderia abrir os olhos numa sociedade completamente irreconhecível.

Porém, cada uma dessas possibilidades depende de avanços que não existem atualmente.

Por isso, separar esperança de evidência científica é essencial.

Mesmo que a humanidade descobrisse como reparar todos os danos do congelamento, ainda restaria uma pergunta mais difícil sobre se a pessoa que acordasse seria realmente a mesma que morreu

Esse talvez seja o ponto mais fascinante da criônica.

A questão deixa de ser apenas médica.

E se torna também filosófica.

Imagine que, daqui a 250 anos, cientistas consigam reconstruir células danificadas.

E que consigam reparar órgãos.

Imagine ainda que dominem completamente as doenças responsáveis pela morte.

Mesmo nesse cenário extraordinário, restaria o cérebro.

Memórias.

Experiências.

Personalidade.

Consciência.

O que exatamente precisa permanecer preservado para que uma pessoa continue sendo ela mesma?

A ciência ainda tenta compreender profundamente como memórias e identidade emergem da estrutura e da atividade cerebral.

Portanto, a criônica exige uma segunda aposta além da preservação física.

Ela pressupõe que as informações necessárias para reconstruir aquela pessoa permaneçam recuperáveis depois do procedimento.

E que uma tecnologia futura saiba encontrá-las.

O que hoje cabe dentro de um galpão australiano depende de uma sequência de descobertas que ainda não aconteceu, mas sete pessoas já decidiram apostar o próprio futuro nela

A cena em Holbrook produz um contraste difícil de ignorar.

Do lado de fora, uma pequena cidade australiana.

Um galpão.

Uma rua comum.

Do lado de dentro, enormes recipientes de aço.

Nitrogênio líquido.

Temperatura de -196 °C.

E sete corpos.

Eles pertencem a pessoas que fizeram uma escolha bastante diferente para o próprio destino depois da morte.

Não quiseram apenas um funeral.

Quiseram esperar.

Para que essa aposta funcione, porém, seria necessário que uma civilização futura resolvesse problemas que atualmente parecem enormes: reparar danos celulares, curar as causas originais da morte, recuperar o cérebro e restaurar a consciência.

Nem mesmo a empresa promete que isso acontecerá.

Seu presidente fala em aproximadamente 10% de possibilidade dentro de 250 anos.

Especialistas são muito mais céticos.

Enquanto essa discussão continua, os sete “pacientes” permanecem exatamente onde estão.

De cabeça para baixo.

Dentro do nitrogênio líquido.

Esperando por uma tecnologia que talvez nunca exista — ou por um futuro científico que transformaria aquilo que hoje parece impossível.

E você, pagaria mais de 200 mil dólares australianos para ter uma pequena possibilidade de acordar daqui a séculos ou preferiria não apostar em uma tecnologia que ainda não consegue provar que isso será possível?

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Roberta Souza

Autora no portal Click Petróleo e Gás desde 2019, responsável pela publicação de mais de 8.000 matérias que somam milhões de acessos, unindo técnica, clareza e engajamento para informar e conectar leitores. Engenheira de Petróleo e pós-graduada em Comissionamento de Unidades Industriais, também trago experiência prática e vivência no setor do agronegócio, o que amplia minha visão e versatilidade na produção de conteúdo especializado. Desenvolvo pautas, divulgo oportunidades de emprego e crio materiais publicitários direcionados para o público do setor. Para sugestões de pauta, divulgação de vagas ou propostas de publicidade, entre em contato pelo e-mail: santizatagpc@gmail.com. Não recebemos currículos

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