Com túnel de desvio e túnel em espiral, a Barragem Yusufeli no rio Soru ergue barragem de arco e coloca a usina dentro da rocha para gerar energia
Existe um trecho da Turquia onde dois paredões de rocha se fecham sobre um rio como se fossem mandíbulas de pedra. Foi ali, num desfiladeiro estreito e profundo, que o país apostou numa megaobra que começa pelo básico de qualquer construção no leito de um rio: abrir um túnel e tirar a água do caminho.
O resultado é a barragem Yusufeli, um arco de concreto com quase 275 m de altura, construída em um cenário extremo, com logística e engenharia no limite. A estrutura soma 558 MW de capacidade instalada e foi apresentada como energia suficiente para abastecer permanentemente 2,5 milhões de pessoas, além de reduzir dependência de combustíveis fósseis importados.
Um cânion estreito e uma decisão que parecia impossível

O vale do rio Soru, também chamado de Cora pelos moradores, impõe uma geografia agressiva: encostas quase verticais, pouco espaço para canteiro e um rio com força constante. Nesse tipo de terreno, construir é negociar com rocha, água e tempo, e qualquer erro custa caro.
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A escolha do local provocou críticas e desconfiança. Mesmo assim, a decisão foi seguir adiante com um projeto que exigiria soluções específicas, principalmente para deslocar o rio, criar acesso e manter o controle operacional ao longo de anos de obra.
Por que a Turquia apostou nessa hidrelétrica

O pano de fundo é a demanda crescente de eletricidade, impulsionada por urbanização, fábricas, hospitais e data centers funcionando simultaneamente.
A dependência de combustíveis fósseis importados virava uma conta energética e geopolítica ao mesmo tempo, e o potencial hidrelétrico do rio aparecia como alternativa interna e renovável.
A dificuldade era transformar esse potencial em infraestrutura real dentro de um cânion que não oferece “espaço de sobra”. E aí o túnel deixa de ser detalhe e vira a chave do projeto.
Barragem de arco: quando a montanha vira estrutura

Em vez de uma barragem de gravidade, que exige volumes enormes de concreto para resistir pela massa, a solução escolhida foi uma barragem de arco de dupla curvatura. A lógica é simples: a pressão da água é transferida para as laterais, e as montanhas passam a segurar a estrutura.
Nesse cenário em V, as paredes rochosas atuam como suporte. O projeto também buscou melhorar o desempenho em um contexto de complexidade geológica, com atenção a estabilidade, ancoragens e comportamento sísmico.
Primeiro passo: tirar o rio do caminho com um túnel de desvio

Antes de qualquer concretagem, veio a pergunta prática: como construir com o rio passando no meio? A resposta foi o túnel de desvio, uma galeria perfurada dentro da montanha para capturar a água, contornar o canteiro e devolver o fluxo ao leito mais adiante.
No caso da Yusufeli, esse túnel foi descrito com 11 m de diâmetro e aproximadamente 1 km de extensão. A obra só se torna possível quando o leito fica controlável, e mesmo assim ainda é preciso lidar com infiltrações e contenções provisórias para manter a área de trabalho seca e estável.
Acesso ao fundo do vale: o túnel em espiral que virou artéria do canteiro
Com o rio desviado, surge outro problema: como levar tudo até o fundo de um cânion profundo, sem estrada e com paredões verticais? A solução foi perfurar um túnel de acesso em espiral.
O túnel em espiral foi descrito com 2.420 m de extensão total, descendo em curvas contínuas, com inclinação técnica controlada para permitir circulação de caminhões e operação intensa nos períodos críticos. Esse acesso virou a artéria vital do projeto, por onde passaram cimento, aço, combustível e equipamentos.
Quatro milhões de m³ de concreto e o desafio do calor

A barragem foi apresentada com 4 milhões de m³ de concreto. Em estruturas desse porte, o inimigo invisível é o calor liberado na reação do cimento com a água, capaz de gerar tensões internas e fissuras se não houver controle rigoroso.
Para enfrentar isso, o relato descreve três frentes: resfriar o concreto antes do lançamento, resfriar por dentro durante a cura e monitorar tudo em tempo real.
Até a logística depende do túnel, porque concreto fresco não espera e precisa chegar ao ponto de aplicação dentro da janela correta.
Ancoragem, sensores e resistência sísmica
O projeto também descreve ancoragens fixadas profundamente na rocha para “prender” o arco ao maciço. Além disso, sensores foram embutidos nos blocos de concreto para acompanhar temperatura, movimento e deformação, com transmissão contínua de dados para uma sala de controle.
Essa combinação reforça a ideia de que a barragem não é apenas “uma parede de concreto”: é uma estrutura viva, monitorada, ajustada e sustentada pela montanha, com engenharia pensada para cenários extremos.
Usina dentro da rocha: túneis forçados e túnel de descarga
Como o cânion não oferecia espaço para uma casa de máquinas convencional, a usina foi escavada dentro da rocha, com três turbinas de 186 MW cada, totalizando 558 MW.
A água do reservatório chega por três túneis forçados blindados, criando a pressão necessária para girar as turbinas.
Depois de gerar energia, a água segue por um túnel de descarga e retorna ao rio abaixo da barragem. O sistema de túnel aparece em todas as etapas críticas, do desvio inicial ao acesso do canteiro e à operação da geração.
O que a Yusufeli entrega no fim das contas
A Yusufeli é apresentada como a maior obra de infraestrutura da história da Turquia e como uma resposta estratégica à demanda elétrica e à segurança energética.
O projeto combina recordes, decisões de engenharia e um conjunto de soluções que dependem de uma mesma ideia central: controlar o ambiente com estrutura, rocha e túnel.
Pergunta rápida: se você tivesse que escolher, o que mais te impressiona numa obra dessas, a altura da barragem ou a complexidade do túnel para desviar o rio e acessar o cânion?


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