Uma estação projetada para mudar de lugar no gelo antártico transformou um problema histórico de operação em uma solução de engenharia que hoje sustenta pesquisas estratégicas sobre atmosfera, clima espacial e dinâmica da plataforma de gelo.
A Halley VI, estação operada pelo British Antarctic Survey, foi projetada para enfrentar dois problemas que comprometeram todas as bases britânicas anteriores no mesmo ponto da Antártida: o acúmulo contínuo de neve e o deslocamento da plataforma de gelo em direção ao mar.
Instalada sobre pernas hidráulicas com esquis, a estrutura pode ser elevada conforme a neve sobe e, quando necessário, rebocada para outra área.
Foi isso que ocorreu entre o verão austral de 2016/2017 e a temporada seguinte, quando os módulos foram transferidos 23 quilômetros para o interior da plataforma Brunt.
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O projeto se diferencia das estações fixas que o Reino Unido manteve anteriormente na região.
Em vez de tentar manter uma construção permanente sobre um terreno instável, a Halley VI foi concebida para operar em uma área sujeita a rachaduras, deslocamentos e acúmulo de neve.
O British Antarctic Survey a descreve como uma estação de pesquisa voltada a observações da Terra, da atmosfera e do clima espacial.
Esse desenho foi adotado após décadas de dificuldades no local.
As cinco estações britânicas anteriores em Halley acabaram soterradas pela neve, comprimidas pelo gelo ou desativadas à medida que a plataforma avançava em direção ao oceano.
A Halley VI surgiu justamente como resposta a esse histórico.
Bases britânicas na Antártida e o desafio da plataforma Brunt
A presença britânica em Halley começou em 1957, durante o Ano Geofísico Internacional.
Desde então, a operação científica precisou ser reconstruída várias vezes no mesmo setor da Antártida.
O motivo está nas características da plataforma Brunt, onde a base foi instalada.
De um lado, a neve se acumula ano após ano e acaba cobrindo estruturas convencionais.
De outro, a plataforma se desloca gradualmente em direção ao mar e, em determinados momentos, sofre fraturas que podem resultar no desprendimento de grandes icebergs.

Em material oficial divulgado em 2013, o BAS informou que esse movimento ocorria em torno de 0,4 quilômetro por ano.
Em 2016, o órgão voltou a citar a mesma ordem de grandeza ao explicar a necessidade de realocar a estação.
Esse comportamento reduzia a vida útil das versões anteriores.
As bases fixas até conseguiam operar por algum tempo, mas ficavam expostas ao soterramento progressivo e à deriva da plataforma.
No caso da Halley VI, o projeto incorporou mecanismos para lidar com esses dois fatores sem depender de uma posição permanente.
Como funcionam as pernas hidráulicas e os esquis da Halley VI
Cada módulo da Halley VI é sustentado por pernas que podem ser elevadas hidraulicamente.
Com isso, a equipe consegue manter a estrutura acima do nível da neve acumulada ao redor da estação.
O conceito foi desenvolvido por Hugh Broughton Architects e AECOM, em parceria com o British Antarctic Survey, para evitar que a base repetisse o destino das instalações anteriores.
Além da elevação, os esquis instalados na base de cada perna permitem o deslocamento dos módulos sobre a plataforma de gelo.
Como a estação é modular, cada parte pode ser desacoplada e rebocada por tratores até um novo ponto de operação.
Segundo o BAS, essa característica foi central na mudança de 23 quilômetros realizada após o avanço de fissuras na plataforma.
Na prática, o sistema combina duas funções.
Primeiro, reduz o risco de soterramento com o uso das pernas hidráulicas.
Depois, oferece uma alternativa logística para situações em que o terreno deixa de ser considerado seguro.
Essa capacidade de adaptação distingue a Halley VI das bases fixas que funcionaram anteriormente no local.
Estrutura modular da base científica e custo de construção
A estrutura reúne sete módulos azuis interligados, usados para dormitórios, laboratórios, escritórios e sistemas de energia, além de um módulo central vermelho de dois andares, destinado às áreas de convivência.
Quando a base entrou em operação plena, em fevereiro de 2013, o BAS informou que o contrato de construção foi de £ 25,8 milhões.
De acordo com o órgão britânico, a obra foi executada ao longo de quatro verões antárticos, com janelas de trabalho de cerca de nove semanas por temporada.
O cronograma levou em conta as limitações impostas pelo clima e pela logística no continente.
Os ambientes internos também foram dimensionados para a rotina da equipe.
Segundo o BAS, a estação pode receber 52 pessoas no verão e 16 no inverno.
Nessa fase do ano, a temperatura pode chegar a -56 °C, enquanto os pesquisadores enfrentam longos períodos sem luz solar.
Realocação da Halley VI e monitoramento de fissuras no gelo
A principal demonstração prática do projeto ocorreu depois que uma grande fissura, antes considerada dormente, voltou a apresentar movimento.
O BAS informou que os sinais apareceram em 2012 e que, após estudos e planejamento logístico iniciados no verão austral de 2015/2016, os módulos foram desacoplados e levados para uma área mais segura na temporada 2016/2017.

Segundo o órgão, a operação durou 13 semanas.
Ao fim do processo, a estação havia sido transferida 23 quilômetros.
A mudança mostrou que a capacidade de deslocamento prevista no projeto podia ser executada em condições reais na Antártida.
Nos anos seguintes, a plataforma Brunt continuou sendo monitorada.
O BAS decidiu não manter equipes durante alguns invernos por precaução, diante da evolução de grandes rachaduras na região.
Em janeiro de 2023, o iceberg A-81 se desprendeu da plataforma.
Já em maio de 2024, um novo iceberg, o A-83, também se separou da área após a abertura de um novo chasm.
Mesmo com esses eventos, o BAS informou em maio de 2024 que a velocidade da área onde a Halley está instalada havia se estabilizado após o desprendimento anterior.
Na ocasião, a instituição afirmou que não esperava uma resposta significativa da estação ao novo evento.
O que a base Halley VI pesquisa na Antártida
A relevância de Halley não se limita à engenharia da estrutura.
A estação ocupa uma posição considerada estratégica para estudos de atmosfera, meteorologia, química atmosférica e clima espacial.
O próprio BAS afirma que o local tem importância global para observações da atmosfera terrestre e do espaço próximo.
Foi em Halley que cientistas britânicos registraram medições que levaram à descoberta do buraco na camada de ozônio sobre a Antártida.
O trabalho de Joe Farman, Brian Gardiner e Jonathan Shanklin foi publicado na revista Nature em maio de 1985 e se tornou uma referência na área.
As atividades científicas continuam.
Em 2013, a estação recebeu o status de estação global do programa Global Atmosphere Watch, da Organização Meteorológica Mundial.
Mais recentemente, o BAS manteve na base e na plataforma Brunt projetos voltados ao monitoramento glaciológico e à evolução de fissuras que podem resultar no desprendimento de icebergs.
Na temporada 2024/2025, por exemplo, a instituição informou que o projeto RIFT-TIP seguiria acompanhando a propagação de rachaduras com instrumentos como radar, GPS, medições a laser, sismômetros e perfurações no gelo.


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