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Na Antártida, uma base científica do futuro foi erguida sobre esquis gigantes para escapar de rachaduras no gelo, já precisou fugir 23 km e faz o que nenhuma das cinco versões anteriores conseguiu: sobreviver se movendo

Escrito por Ana Alice
Publicado em 20/03/2026 às 00:13
Assista o vídeoBase Halley VI: conheça a estação científica móvel na Antártida que usa esquis gigantes para escapar de rachaduras no gelo.
Base Halley VI: conheça a estação científica móvel na Antártida que usa esquis gigantes para escapar de rachaduras no gelo.
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Uma estação projetada para mudar de lugar no gelo antártico transformou um problema histórico de operação em uma solução de engenharia que hoje sustenta pesquisas estratégicas sobre atmosfera, clima espacial e dinâmica da plataforma de gelo.

A Halley VI, estação operada pelo British Antarctic Survey, foi projetada para enfrentar dois problemas que comprometeram todas as bases britânicas anteriores no mesmo ponto da Antártida: o acúmulo contínuo de neve e o deslocamento da plataforma de gelo em direção ao mar.

Instalada sobre pernas hidráulicas com esquis, a estrutura pode ser elevada conforme a neve sobe e, quando necessário, rebocada para outra área.

Foi isso que ocorreu entre o verão austral de 2016/2017 e a temporada seguinte, quando os módulos foram transferidos 23 quilômetros para o interior da plataforma Brunt.

O projeto se diferencia das estações fixas que o Reino Unido manteve anteriormente na região.

Em vez de tentar manter uma construção permanente sobre um terreno instável, a Halley VI foi concebida para operar em uma área sujeita a rachaduras, deslocamentos e acúmulo de neve.

O British Antarctic Survey a descreve como uma estação de pesquisa voltada a observações da Terra, da atmosfera e do clima espacial.

Esse desenho foi adotado após décadas de dificuldades no local.

As cinco estações britânicas anteriores em Halley acabaram soterradas pela neve, comprimidas pelo gelo ou desativadas à medida que a plataforma avançava em direção ao oceano.

A Halley VI surgiu justamente como resposta a esse histórico.

Bases britânicas na Antártida e o desafio da plataforma Brunt

A presença britânica em Halley começou em 1957, durante o Ano Geofísico Internacional.

Desde então, a operação científica precisou ser reconstruída várias vezes no mesmo setor da Antártida.

O motivo está nas características da plataforma Brunt, onde a base foi instalada.

De um lado, a neve se acumula ano após ano e acaba cobrindo estruturas convencionais.

De outro, a plataforma se desloca gradualmente em direção ao mar e, em determinados momentos, sofre fraturas que podem resultar no desprendimento de grandes icebergs.

Em material oficial divulgado em 2013, o BAS informou que esse movimento ocorria em torno de 0,4 quilômetro por ano.

Em 2016, o órgão voltou a citar a mesma ordem de grandeza ao explicar a necessidade de realocar a estação.

Esse comportamento reduzia a vida útil das versões anteriores.

As bases fixas até conseguiam operar por algum tempo, mas ficavam expostas ao soterramento progressivo e à deriva da plataforma.

No caso da Halley VI, o projeto incorporou mecanismos para lidar com esses dois fatores sem depender de uma posição permanente.

Como funcionam as pernas hidráulicas e os esquis da Halley VI

Cada módulo da Halley VI é sustentado por pernas que podem ser elevadas hidraulicamente.

Com isso, a equipe consegue manter a estrutura acima do nível da neve acumulada ao redor da estação.

O conceito foi desenvolvido por Hugh Broughton Architects e AECOM, em parceria com o British Antarctic Survey, para evitar que a base repetisse o destino das instalações anteriores.

Além da elevação, os esquis instalados na base de cada perna permitem o deslocamento dos módulos sobre a plataforma de gelo.

Como a estação é modular, cada parte pode ser desacoplada e rebocada por tratores até um novo ponto de operação.

Segundo o BAS, essa característica foi central na mudança de 23 quilômetros realizada após o avanço de fissuras na plataforma.

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Na prática, o sistema combina duas funções.

Primeiro, reduz o risco de soterramento com o uso das pernas hidráulicas.

Depois, oferece uma alternativa logística para situações em que o terreno deixa de ser considerado seguro.

Essa capacidade de adaptação distingue a Halley VI das bases fixas que funcionaram anteriormente no local.

Estrutura modular da base científica e custo de construção

A estrutura reúne sete módulos azuis interligados, usados para dormitórios, laboratórios, escritórios e sistemas de energia, além de um módulo central vermelho de dois andares, destinado às áreas de convivência.

Quando a base entrou em operação plena, em fevereiro de 2013, o BAS informou que o contrato de construção foi de £ 25,8 milhões.

De acordo com o órgão britânico, a obra foi executada ao longo de quatro verões antárticos, com janelas de trabalho de cerca de nove semanas por temporada.

O cronograma levou em conta as limitações impostas pelo clima e pela logística no continente.

Os ambientes internos também foram dimensionados para a rotina da equipe.

Segundo o BAS, a estação pode receber 52 pessoas no verão e 16 no inverno.

Nessa fase do ano, a temperatura pode chegar a -56 °C, enquanto os pesquisadores enfrentam longos períodos sem luz solar.

Realocação da Halley VI e monitoramento de fissuras no gelo

A principal demonstração prática do projeto ocorreu depois que uma grande fissura, antes considerada dormente, voltou a apresentar movimento.

O BAS informou que os sinais apareceram em 2012 e que, após estudos e planejamento logístico iniciados no verão austral de 2015/2016, os módulos foram desacoplados e levados para uma área mais segura na temporada 2016/2017.

Segundo o órgão, a operação durou 13 semanas.

Ao fim do processo, a estação havia sido transferida 23 quilômetros.

A mudança mostrou que a capacidade de deslocamento prevista no projeto podia ser executada em condições reais na Antártida.

Nos anos seguintes, a plataforma Brunt continuou sendo monitorada.

O BAS decidiu não manter equipes durante alguns invernos por precaução, diante da evolução de grandes rachaduras na região.

Em janeiro de 2023, o iceberg A-81 se desprendeu da plataforma.

Já em maio de 2024, um novo iceberg, o A-83, também se separou da área após a abertura de um novo chasm.

Mesmo com esses eventos, o BAS informou em maio de 2024 que a velocidade da área onde a Halley está instalada havia se estabilizado após o desprendimento anterior.

Na ocasião, a instituição afirmou que não esperava uma resposta significativa da estação ao novo evento.

O que a base Halley VI pesquisa na Antártida

A relevância de Halley não se limita à engenharia da estrutura.

A estação ocupa uma posição considerada estratégica para estudos de atmosfera, meteorologia, química atmosférica e clima espacial.

O próprio BAS afirma que o local tem importância global para observações da atmosfera terrestre e do espaço próximo.

Foi em Halley que cientistas britânicos registraram medições que levaram à descoberta do buraco na camada de ozônio sobre a Antártida.

O trabalho de Joe Farman, Brian Gardiner e Jonathan Shanklin foi publicado na revista Nature em maio de 1985 e se tornou uma referência na área.

As atividades científicas continuam.

Em 2013, a estação recebeu o status de estação global do programa Global Atmosphere Watch, da Organização Meteorológica Mundial.

Mais recentemente, o BAS manteve na base e na plataforma Brunt projetos voltados ao monitoramento glaciológico e à evolução de fissuras que podem resultar no desprendimento de icebergs.

Na temporada 2024/2025, por exemplo, a instituição informou que o projeto RIFT-TIP seguiria acompanhando a propagação de rachaduras com instrumentos como radar, GPS, medições a laser, sismômetros e perfurações no gelo.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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