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Múmia de 1.600 anos no Egito é encontrada com trecho da Ilíada preso ao abdômen, e o detalhe mais intrigante é que este pode ser o primeiro texto literário já usado em um ritual funerário na região

Escrito por Carla Teles
Publicado em 03/05/2026 às 22:41
Atualizado em 03/05/2026 às 22:43
Múmia de 1.600 anos no Egito é encontrada com trecho da Ilíada preso ao abdômen, e o detalhe mais intrigante é que este pode ser o primeiro texto literário já usado em um ritual
Achado de múmia no Egito em Oxirrinco traz papiro da Ilíada e levanta hipótese de ritual funerário inédito.
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Encontrada durante escavações em Oxirrinco, no Egito, a múmia surpreendeu arqueólogos ao revelar um fragmento da Ilíada fixado ao corpo, algo inédito para o período romano e que pode marcar o primeiro uso de um texto literário em um ritual funerário local.

Encontrada na antiga cidade de Oxirrinco, atual Al Bahnasa, ao sul do Cairo, uma múmia de cerca de 1.600 anos chamou a atenção dos arqueólogos por um detalhe raro: um papiro com trechos da Ilíada, de Homero, estava preso ao abdômen do corpo. O achado foi identificado por pesquisadores ligados à Universidade de Barcelona durante escavações em tumbas de calcário do período romano.

Segundo o portal Olhar Digital, o que torna a descoberta ainda mais importante é que não se trata de um texto ritual comum, nem de uma instrução de embalsamamento, como os especialistas costumam encontrar nesses contextos. Desta vez, o fragmento pertence a uma obra literária clássica da tradição grega, o que abre a possibilidade de estar diante do primeiro registro de literatura usada em um ritual funerário na região.

O detalhe mais forte do achado está no texto preso à múmia

Achado de múmia no Egito em Oxirrinco traz papiro da Ilíada e levanta hipótese de ritual funerário inédito.
Imagem: IA

O elemento mais impressionante da descoberta é o próprio conteúdo do papiro. Segundo os pesquisadores, o fragmento preserva trechos do Livro II da Ilíada, mais precisamente da parte conhecida como Catálogo de Navios, uma das passagens mais conhecidas do poema épico atribuído a Homero.

Até agora, os achados funerários da região costumavam revelar fórmulas religiosas, inscrições ligadas à proteção dos mortos ou orientações técnicas do processo de mumificação. A presença de uma obra literária no corpo embalsamado muda esse padrão e coloca a descoberta em outro patamar, porque sugere um uso simbólico muito mais sofisticado do que se imaginava.

A virada curiosa é que a literatura pode ter entrado no ritual dos mortos

É justamente esse ponto que transforma a descoberta em algo maior do que uma curiosidade arqueológica. A Ilíada não era, em princípio, um texto funerário. Ainda assim, ela apareceu incorporada ao corpo de uma múmia, em uma posição que indica intenção ritual e não simples acaso.

Os especialistas ainda não sabem por que aquele trecho foi usado. Entre as hipóteses levantadas, o papiro poderia funcionar como uma espécie de marca de identificação do embalsamador ou ter sido escolhido por alguma função simbólica de proteção. Em qualquer cenário, o uso de literatura clássica em um processo funerário desse tipo é visto como algo incomum e potencialmente revelador sobre a mistura de referências culturais naquele período.

O contexto das tumbas mostra que esse não foi um enterro qualquer

Achado de múmia no Egito em Oxirrinco traz papiro da Ilíada e levanta hipótese de ritual funerário inédito.
Imagem: Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito

A descoberta do papiro não apareceu isolada. As escavações em três tumbas de calcário trouxeram outros indícios de rituais funerários elaborados e de alto custo, o que ajuda a entender o ambiente em que essa múmia foi preparada.

No mesmo local, os arqueólogos encontraram múmias com línguas de folha de ouro ou cobre, jarros com restos cremados de adultos e ossos de bebês e até cabeças de felinos envoltas em tecido. O conjunto sugere práticas complexas e uma comunidade com recursos suficientes para investir em sepultamentos detalhados, possivelmente ligados a famílias de posição social elevada.

Esse cenário reforça a ideia de que o fragmento da Ilíada não foi colocado ali sem propósito. Em um ambiente funerário tão cuidadoso, cada elemento parece carregar uma função específica, seja religiosa, simbólica ou social.

Por que a descoberta pode mudar a leitura sobre o Egito romano

O achado também amplia a discussão sobre a convivência entre culturas no Egito sob domínio romano. Oxirrinco já é conhecida por reunir vestígios importantes do encontro entre tradições egípcias e influências gregas, mas a presença de um trecho da Ilíada em uma múmia leva essa integração a um nível mais concreto e inesperado.

Se a hipótese ritual for confirmada, a descoberta indicará que textos da tradição grega não circulavam apenas como literatura ou formação intelectual, mas também podiam ganhar espaço em práticas ligadas à morte e ao sagrado. Isso mudaria a forma de interpretar a presença grega na região, mostrando uma fusão cultural mais profunda do que apenas administrativa ou linguística.

Na prática, a múmia encontrada pode se tornar uma peça-chave para entender como símbolos, crenças e textos atravessaram fronteiras culturais e foram reinterpretados em um dos cenários funerários mais marcantes da Antiguidade.

O que ainda falta confirmar sobre o papiro

Apesar da relevância do achado, os próprios pesquisadores tratam a descoberta com cautela. O papiro está fragmentado e bastante frágil, o que limita as análises nesta fase inicial. Para evitar danos ao material, a equipe optou por exames visuais, sem recorrer por enquanto a técnicas mais invasivas ou avançadas.

Isso significa que a função exata do texto ainda permanece em aberto. Os especialistas precisam esclarecer se o fragmento foi colocado ali com sentido ritual, se teve um papel prático ligado ao embalsamamento ou se representava algum tipo de escolha simbólica mais pessoal. Também será necessário entender melhor como esse uso se encaixa no contexto religioso e cultural de Oxirrinco durante o período romano.

A múmia encontrada no Egito, portanto, já é um dos achados mais intrigantes do ano não apenas por sua antiguidade, mas pelo que carrega junto ao corpo: um texto que atravessou séculos e agora pode revelar uma nova camada sobre a relação entre literatura, morte e poder simbólico no mundo antigo. Se novas análises confirmarem essa leitura, a descoberta deixará de ser apenas rara para se tornar um marco na arqueologia da região.

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Carla Teles

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