Excursionista experiente ficou sem bateria no celular, caminhou por terreno extremo, sofreu quedas e precisou seguir cursos d’água até finalmente alcançar uma área habitada
O que deveria ser uma expedição de montanha terminou em uma luta de duas semanas pela sobrevivência. Jaslinda Saludin, de 49 anos, desapareceu durante uma travessia pela região montanhosa de Perak, na Malásia, e permaneceu 14 dias sozinha na floresta, sem alimentos e praticamente sem qualquer forma de comunicação.
Durante esse período, a mulher afirmou ter sobrevivido bebendo água barrenta de fontes naturais, água de rios e líquido acumulado em plantas-jarro, enquanto tentava encontrar uma saída em meio a vales, encostas e áreas de mata fechada. Quando finalmente conseguiu chegar perto de uma comunidade, estava extremamente debilitada e havia perdido quase 10 quilos.
Expedição começou com 16 pessoas durante a madrugada

Jaslinda iniciou a chamada expedição Trans Spencer Chapman por volta das 2h da madrugada de 23 de maio de 2026. Ela fazia parte de um grupo composto por 14 participantes e dois guias que pretendia atravessar uma rota de aproximadamente 34 quilômetros pela região da cordilheira Titiwangsa.
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O trajeto passava por áreas como Pos Gedung, Gunung Bah Gading e Gunung Batu Putih antes de terminar em Kuala Woh. Apesar da dificuldade do percurso, Jaslinda não era uma aventureira inexperiente.
Segundo familiares, ela praticava atividades de montanha havia mais de dez anos e já havia participado de expedições em locais como Mount Kinabalu, Gunung Semangkok, Gunung Stong e Gunung Rinjani. Também praticava ciclismo de montanha e mergulho.
Além das atividades esportivas, Jaslinda trabalhava como executiva na área de supply chain de uma empresa privada.
Problemas durante o percurso fizeram grupo se separar
A situação começou a mudar ainda no primeiro dia da travessia. Um dos integrantes do grupo, Mohd Hanafi Neikmad, de 41 anos, passou a apresentar dificuldades para respirar e episódios de vômito.
Por volta das 22h, ele interrompeu a caminhada em Kem Batu Kor. Jaslinda e um dos guias permaneceram naquele ponto enquanto os demais participantes continuaram avançando. A própria Jaslinda também estaria sentindo dores nas pernas.
Na manhã seguinte, ela decidiu retomar o trajeto em direção ao topo da montanha. De acordo com relatos posteriores, um dos companheiros teria orientado que ela seguisse adiante para buscar ajuda.
O problema era que o celular e a câmera de Jaslinda já estavam sem bateria. Sem comunicação e distante dos demais integrantes, ela passou a depender exclusivamente da própria capacidade de orientação.
O guia afirmou ter visto a mulher pela última vez por volta das 7h30 de 24 de maio.
Câmera instalada na floresta registrou Jaslinda caminhando sozinha

Jaslinda conseguiu chegar à parte mais alta do percurso e chegou a deixar uma mensagem escrita no chão para informar que havia alcançado o local.
Pouco depois, porém, perdeu completamente a rota.
Uma das pistas mais importantes para as equipes de busca surgiu através de uma câmera utilizada para monitoramento de animais silvestres. O equipamento registrou Jaslinda às 11h22 de 24 de maio, caminhando sozinha em direção à região de Kem Sukaneka.
Ela não voltou a aparecer naquela câmera nem em outro equipamento instalado mais adiante, indicando que havia saído da rota esperada.
A própria excursionista explicou posteriormente que começou a andar em círculos, tentando identificar algum caminho conhecido. O terreno era formado por encostas, vales, vegetação densa e áreas com solo instável.
Em determinados momentos, Jaslinda disse que chegou a acreditar que morreria dentro da floresta.
Sem comida, ela bebeu água barrenta e água acumulada em plantas
A falta de alimentos se transformou em um dos maiores problemas durante os dias seguintes. Jaslinda afirmou diretamente após ser localizada que não comeu durante praticamente duas semanas.
Para evitar a desidratação, passou a beber qualquer água que considerasse possível encontrar no caminho.
Ela relatou ter consumido água escura e barrenta, água de rios e água acumulada dentro de plantas-jarro, vegetais do gênero Nepenthes comuns em algumas regiões tropicais.
Equipes envolvidas na operação também relataram que houve um período de aproximadamente três dias em que a mulher teve grande dificuldade até mesmo para encontrar uma fonte regular de água.
Além da fome e da sede, Jaslinda precisou enfrentar o próprio relevo. Os bombeiros informaram posteriormente que ela sofreu diversas quedas durante o período em que permaneceu desaparecida, incluindo acidentes em desníveis estimados em aproximadamente cinco e três metros.
Em determinado momento, encontrou uma espécie de cavidade natural e utilizou o local como abrigo.
Seguir um rio pode ter sido a decisão que permitiu encontrar uma saída

Especialistas que analisaram posteriormente o deslocamento de Jaslinda acreditam que uma decisão teve papel fundamental em sua sobrevivência: seguir o curso de um rio depois de perceber que não conseguia retornar à trilha original.
A Malaysian Mountain Guide Association estimou que ela pode ter acompanhado o curso do Sungai Ayer Busok por aproximadamente 8 a 10 quilômetros, avançando lentamente em direção a regiões mais baixas.
O caminho, porém, estava longe de ser simples. A área possui vales profundos, grandes quedas-d’água e correntezas fortes. Alguns dos próprios grupos de resgate tiveram dificuldades para percorrer determinados trechos durante as buscas.
Em regiões mais elevadas, as temperaturas também podiam cair para cerca de 6 °C, acrescentando mais um risco para uma pessoa que estava sem alimentação adequada e com poucos recursos.
Vestígios foram aparecendo enquanto centenas de quilômetros eram vasculhados
A operação de busca começou logo após o desaparecimento. Nos primeiros dias, equipes encontraram pegadas fora da rota principal, uma garrafa de água pertencente a Jaslinda, embalagens de suplementos e outros pequenos vestígios.
Unidades especializadas dos bombeiros foram acionadas, helicópteros transportaram equipes para pontos de difícil acesso e drones passaram a examinar encostas e áreas onde seria perigoso realizar buscas a pé.
Moradores indígenas Orang Asli, com amplo conhecimento da floresta, também se juntaram à operação.
Enquanto os dias avançavam, a possibilidade de encontrar Jaslinda com vida se tornava cada vez mais incerta.
Moradores saíam para pescar quando encontraram mulher andando e chorando
A resposta chegou somente em 6 de junho de 2026, 14 dias depois do início da expedição.
Nazri Bah Eng e outros moradores de uma comunidade Orang Asli estavam seguindo em direção a um rio próximo a Kampung Lubuk Gaharu para pescar quando avistaram uma mulher caminhando com enorme dificuldade.
Era Jaslinda.
Segundo Nazri, ela estava muito fraca, cambaleava e chorava. A excursionista ainda carregava uma sacola contendo plantas e fungos encontrados durante seu deslocamento.
Os moradores a levaram até a casa do chefe da comunidade, onde recebeu água e comida. Imagens divulgadas após o encontro mostraram Jaslinda comendo macarrão instantâneo, considerado por ela sua primeira refeição depois de quase duas semanas.
Jaslinda perdeu quase 10 kg durante os 14 dias na floresta

Naquela mesma noite, Jaslinda foi encaminhada ao Hospital Tapah, onde chegou por volta das 21h20.
Ela apresentava marcas de picadas de insetos, ferimentos superficiais e uma lesão mais significativa na perna e no tornozelo esquerdo. Os médicos realizaram exames, incluindo tomografia, para verificar se havia outros danos provocados pelas quedas sofridas dentro da floresta.
A diretora do hospital, Dra. Wan Immi Salim, informou que Jaslinda havia perdido quase 10 quilos durante os 14 dias desaparecida.
Apesar da perda de peso e dos ferimentos, a mulher estava consciente, conseguia conversar e voltou a se alimentar normalmente. Após três dias de internação, recebeu alta em 9 de junho, deixando o hospital com auxílio de um bastão e com a perna esquerda ainda protegida.
O desaparecimento também provocou mudanças nas regras locais. As autoridades determinaram o fechamento temporário de Gunung Batu Putih para uma revisão de segurança e passaram a restringir tentativas de completar determinadas travessias de alto risco em períodos excessivamente curtos.
A rota Trans Spencer Chapman, que Jaslinda tentava atravessar quando desapareceu, passou a ter recomendação de duração mínima de vários dias. O caso mostrou como uma caminhada de dezenas de quilômetros pode transformar até a experiência de uma praticante veterana em uma situação extrema quando comunicação, orientação e acesso a alimentos desaparecem no meio da floresta.
