A homenagem feita na formatura, em Teresina, condensou uma trajetória iniciada ainda na infância. Antes de concluir Direito, Ismael do Nascimento Silva trabalhou para ajudar a família, entrou na faculdade com bolsa do Prouni e enfrentou dificuldades até para custear alimentação e transporte.
A colação de grau de Ismael do Nascimento Silva, em Teresina, ganhou repercussão quando o recém-formado decidiu transformar o momento do diploma em uma homenagem aos pais. Filho de um pedreiro e de uma catadora de castanhas, ele havia atravessado a graduação em Direito com bolsa, trabalho e ajuda de pessoas próximas.
A história foi registrada em reportagem do UOL publicada em 2015, depois que imagens da cerimônia circularam pelas redes sociais. Aos 25 anos, Ismael subiu ao tablado de beca e abriu a faixa com a frase: “O filho do pedreiro com a catadora de castanhas também venceu!”
-
Pedreiro passa sete anos reconstruindo sozinho antigo cinema de Pernambuco, reabre a sala aos 71 anos e, aos 81, ainda chega às 6h para cuidar do prédio e projetar filmes
-
Engenheiros, enfermeiros e outros profissionais brasileiros chegam ao Canadá com diploma e anos de experiência, mas descobrem que podem precisar provar novamente a própria qualificação e acabam trabalhando fora da área enquanto enfrentam meses de validação profissional
-
Mulher cava um canteiro no jardim de casa, vê algo brilhando no meio da terra e pensa que era apenas um pedaço de lata, mas descobre um anel de ouro 18 quilates com diamantes verdadeiros e uma esmeralda criada em laboratório que pode ter ficado enterrado ali por décadas
-
Mulher ganha US$ 1,336 milhão na loteria e pede o divórcio apenas 11 dias depois sem informar o prêmio ao marido, mas ele descobre o dinheiro dois anos mais tarde, reabre o processo e recebe por decisão judicial toda a parte que pertenceria à ex-esposa devido à ocultação
A mensagem resumiu uma trajetória que começara muito antes da faculdade. Ismael contou que passou a trabalhar aos 10 anos para ajudar a mãe e, ainda criança, vendeu sacolé, espetinho de carne e milho cozido, atividades que faziam parte de sua rotina antes de ele chegar ao ensino superior.
Ele se tornou o primeiro integrante da família a concluir um curso superior. A mãe havia estudado até o terceiro ano do ensino fundamental, enquanto o pai chegou ao primeiro ano do ensino médio, o que deu à cerimônia também o significado de uma mudança na trajetória educacional da família.
Bolsa abriu a porta, mas despesas continuaram
O caminho até o diploma passou pelo Programa Universidade para Todos, o Prouni, que permitiu a Ismael cursar Direito em uma instituição particular de Teresina. Mesmo com a bolsa, permanecer no ensino superior ainda envolvia despesas com transporte, alimentação, livros e outros materiais necessários à graduação.
Para ajudar nesses custos, ele conseguiu trabalho como instrutor de badminton em um clube próximo à faculdade. A rotina começava cedo, com horas de estudo na biblioteca antes das aulas, e se estendia até mais tarde, quando retornava para casa depois de um dia dividido entre trabalho e graduação.
As dificuldades financeiras chegaram a atingir despesas básicas. Ismael relatou que, em alguns dias, não tinha dinheiro para a passagem de ônibus e também passou períodos de estudo sem conseguir comprar comida, esperando o retorno para casa para se alimentar.
No segundo ano da graduação, a responsável pela cantina conheceu sua situação e passou a oferecer almoço gratuitamente. A ajuda se somou ao apoio de professores, colegas e familiares, citados por ele como pessoas que apareceram em diferentes momentos quando os custos tornavam a permanência no curso mais difícil.
A rede de apoio também se manifestou nos próprios estudos. Ismael costumava preparar resumos das aulas e disponibilizar o material aos colegas; depois que o notebook que havia ganhado em um concurso foi roubado, voltou a produzir o conteúdo manualmente até que estudantes da turma se mobilizaram para lhe dar outro computador.
O avanço acadêmico ocorreu antes da colação. No nono período, Ismael foi aprovado no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, etapa necessária para o exercício da advocacia, e chegou à reta final da graduação já tendo superado essa fase da formação profissional.
A entrada na área jurídica também começou durante o curso. Após ser aprovado em uma seleção, ele estagiou na Procuradoria Geral do Município de Teresina e posteriormente passou a atuar como assessor ligado ao órgão.
Colegas da faculdade que abriram um escritório ainda o convidaram para integrar a equipe sem exigir investimento financeiro para sua entrada. As oportunidades profissionais começaram, assim, antes mesmo da entrega formal do diploma.
A homenagem aos pais
A ideia de destacar os pais na formatura havia surgido ainda no começo da faculdade. Ismael queria que a homenagem mostrasse não apenas que havia concluído Direito, mas também a origem familiar e a participação dos dois no caminho percorrido até aquele momento.
Ao explicar a escolha, ele afirmou ter orgulho da própria origem e tratou as profissões dos pais como parte de sua trajetória. A faixa não escondia o trabalho na construção civil nem a atividade da mãe como catadora de castanhas; colocava essas ocupações no centro do registro da cerimônia.
Os pais acompanharam a colação de perto. Ao levantar a faixa diante deles e dos demais convidados, Ismael vinculou publicamente a obtenção do diploma ao trabalho e ao apoio familiar recebidos desde uma infância em que ele próprio começou cedo a contribuir para a renda de casa.
As fotografias feitas durante a formatura começaram a circular pelas redes sociais e levaram a história além do auditório. A imagem do formando de beca, com a frase dedicada ao pedreiro e à catadora de castanhas, reuniu no mesmo registro o diploma e os obstáculos econômicos enfrentados durante sua formação.
O episódio também evidenciou uma diferença entre conseguir acesso ao ensino superior e ter condições de permanecer nele. A bolsa foi decisiva para que Ismael chegasse à faculdade, enquanto trabalho, alimentação, deslocamento e materiais continuaram exigindo recursos e, em diferentes momentos, o apoio de outras pessoas.
Quando recebeu o diploma, ele já havia sido aprovado na OAB e acumulava experiência profissional na área jurídica. A faixa, porém, havia sido planejada desde o início da graduação para aquele momento específico, com as profissões dos pais escolhidas por Ismael como elemento central da homenagem.


