Kumudini Swain começou cultivando vegetais para sobreviver após a empresa onde trabalhava fechar; hoje, drones pulverizam 1 acre em cerca de 6 minutos, enquanto 70% dos integrantes do coletivo agrícola são mulheres.
Uma mulher que perdeu o emprego na pandemia transformou o retorno à agricultura em uma operação que hoje reúne 960 produtores e registra faturamento anual superior a 10 milhões de rúpias indianas. Aos 40 anos, Kumudini Swain lidera na Índia a Maheera Farmer Producer Company e ficou conhecida como “Drone Didi” depois de aprender a operar drones agrícolas. Conforme informações publicadas pelo The Better India, a tecnologia permite pulverizar 1 acre, cerca de 0,4 hectare, em aproximadamente 6 minutos, tarefa que antes podia ocupar um dia inteiro.
A história começou longe dos drones. Kumudini tinha formação em ciências e havia passado anos trabalhando no setor de laticínios do estado indiano de Odisha, incluindo experiências na Milk Mantra e na Sundarani Dairy.
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Então veio a pandemia de Covid-19.
A empresa em que ela e o marido trabalhavam fechou. Sem aquela fonte de renda, o casal voltou para casa com os dois filhos e recorreu ao recurso que ainda possuía: 2 acres de terra, equivalentes a aproximadamente 0,8 hectare.
Perda do emprego leva família de volta a 2 acres de terra
No terreno, a família começou a cultivar vegetais. Inicialmente, a agricultura funcionou como uma alternativa para atravessar aquele período de incerteza.
Porém, a experiência mostrou a Kumudini que a terra poderia representar mais do que uma solução emergencial. Ela percebeu que outros agricultores da região enfrentavam dificuldades semelhantes, entre elas acesso limitado a insumos melhores, mercados incertos e poucas alternativas para ampliar a renda.
A partir daí, começou a conversar com produtores de sua comunidade.
A ideia era reunir recursos, oferecer treinamento e encontrar formas mais eficientes de produzir e comercializar os alimentos. Assim, uma tentativa familiar iniciada em apenas dois acres começou a ganhar escala.
O movimento resultou na criação da Maheera Farmer Producer Company Limited (FPCL).
Com apoio de especialistas agrícolas e da organização NIGAM, Kumudini começou a mobilizar produtores, sobretudo mulheres. A empresa agrícola coletiva iniciou suas atividades reunindo 700 agricultores distribuídos por 35 grupos de interesse.
Convencer essas pessoas, entretanto, não foi simples.
Agricultores colocam 500 mil rúpias indianas no projeto e coletivo começa a crescer
Segundo Kumudini, uma das maiores dificuldades foi convencer agricultores a confiar no novo modelo e investir o próprio dinheiro.
Em alguns momentos, ela afirma que precisou colocar recursos do próprio bolso enquanto explicava por que acreditava que a iniciativa poderia funcionar.
O capital inicial levantado por meio das participações dos agricultores chegou a 500 mil rúpias indianas. Além disso, o grupo recebeu financiamento da Samunnati Finance.
Com esses recursos, a organização arrendou 5 acres, aproximadamente 2 hectares, construiu uma unidade de produção de cogumelos de 12 mil pés quadrados, ou cerca de 1.115 metros quadrados, plantou árvores frutíferas e instalou uma estrutura para criação de aves.
A estratégia de combinar agricultura, tecnologia e novas formas de produção acompanha uma transformação mais ampla do setor. Pesquisadores, por exemplo, já usam drones com sensores para observar lavouras e tentar detectar seca, doenças e ataques de insetos antes que os sinais se tornem evidentes ao olho humano.
No caso de Kumudini, porém, a tecnologia entrou na operação por um caminho muito mais direto: reduzir tempo, exposição a produtos químicos e custo de pulverização.
Drone agrícola de 1,5 milhão de rúpias indianas muda o trabalho no campo
Em 2022, Kumudini conheceu os drones agrícolas por meio de uma iniciativa apoiada pelo governo.
A oportunidade levou a agricultora centenas de quilômetros até Pune. Lá, ela passou 15 dias em treinamento para operar os equipamentos e retornou a Odisha com uma licença certificada pela autoridade indiana de aviação civil.

Pouco depois, a Maheera recebeu seu primeiro drone.
O equipamento, avaliado em 1,5 milhão de rúpias indianas, chegou por meio de um projeto-piloto. Inicialmente, segundo Kumudini, houve resistência porque as mulheres da região não estavam acostumadas a operar máquinas daquele tipo.
Os resultados, entretanto, ajudaram a mudar a percepção.
Atualmente, a Maheera possui dois drones, operados por pessoal treinado, incluindo Kumudini e o marido. As aeronaves são utilizadas para aplicar fertilizantes líquidos, como nanoureia, e pesticidas.
É justamente essa atividade que explica o apelido “Drone Didi” associado à agricultora.
Trabalho que levava um dia passa a ocupar cerca de 6 minutos por acre
Antes da introdução dos drones, pulverizar a plantação significava caminhar pelo terreno carregando um tanque pesado e permanecendo diretamente exposto aos produtos químicos.
Segundo Kumudini, 1 acre pode agora ser pulverizado em aproximadamente 6 minutos. Anteriormente, afirma ela, o mesmo serviço podia levar um dia.
Além disso, um drone consegue cobrir até 25 acres em um único dia, equivalentes a aproximadamente 10 hectares.
A agricultora também afirma que a pulverização com drones reduziu os custos dessa etapa em 60% a 70%, além de diminuir a exposição direta dos trabalhadores aos produtos agrícolas.
Os percentuais são relatados por Kumudini ao The Better India e, portanto, devem ser entendidos como resultados informados pela própria responsável pelo projeto.
Ao mesmo tempo, a chegada das máquinas provocou outra mudança dentro da comunidade.
Mulheres que anteriormente carregavam pulverizadores passaram a controlar drones.
Segundo Kumudini, essa mudança também alterou a maneira como elas são vistas dentro da comunidade, porque passaram a operar uma tecnologia antes distante da rotina dessas agricultoras.
Palha que era queimada vira matéria-prima para produzir cogumelos
Os drones são apenas uma parte da estratégia.
A Maheera também passou a reaproveitar a palha do arroz, que antes podia ser queimada como resíduo, para cultivar cogumelos. Dessa forma, o material se transforma em insumo e cria uma atividade adicional para mulheres que trabalham em casa.
Outra mudança envolveu substituir recipientes de vidro por bolsas de polipropileno no armazenamento do material utilizado para propagação dos cogumelos. Segundo a reportagem, a alteração tornou o processo mais barato e confiável.
Na criação de cabras, alimentadores rotativos ajudam a reduzir trabalho e desperdício de ração. Máquinas de costura, por sua vez, abriram espaço para atividades de confecção.
Esse modelo de combinar produção e soluções tecnológicas também aparece em outros projetos de agricultura. Um empreendedor nigeriano, por exemplo, conseguiu instalar mais de 3 mil sistemas de cultivo sem solo ao desenvolver alternativas voltadas à produção de alimentos em regiões afetadas por conflitos e insegurança alimentar.
Plataforma elimina intermediários e agricultores conseguem preços até 60% maiores, segundo Kumudini
Produzir mais rápido, porém, resolvia apenas parte do problema.
Depois da colheita, os agricultores ainda precisavam encontrar compradores.
Para enfrentar essa dificuldade, a Maheera começou a utilizar a e-NAM, plataforma nacional de mercado agrícola da Índia, conectando produtores diretamente a compradores de diferentes regiões do país.
A empresa reúne os produtos e os disponibiliza digitalmente. Segundo Kumudini, a retirada de intermediários permitiu aos agricultores conseguir preços até 60% superiores em algumas negociações.
Além da comercialização, a organização oferece acesso a sementes, fertilizantes, equipamentos para colheita e conexões com o mercado.
Assim, o coletivo passou a atuar em diferentes etapas da cadeia agrícola, em vez de se limitar à produção dentro das propriedades.
Coletivo chega a 960 integrantes e 70% deles são mulheres
A operação que começou depois da perda do emprego de Kumudini hoje possui 960 integrantes.
Desse total, aproximadamente 70% são mulheres, enquanto 60% são jovens agricultores.
Além disso, a Maheera registra faturamento anual superior a 10 milhões de rúpias indianas, segundo os dados apresentados pelo The Better India.
É importante diferenciar esse número de lucro ou patrimônio pessoal: os 10 milhões de rúpias indianas representam o faturamento anual informado do coletivo, não o dinheiro que Kumudini recebe pessoalmente.
A trajetória segue uma lógica semelhante à de outros pequenos negócios que começam com recursos limitados e aumentam de escala gradualmente. No Brasil, por exemplo, um empreendimento iniciado com 15 mil reais no quintal de casa posteriormente cresceu para uma rede de sete unidades.
Na Índia, o crescimento da Maheera também aparece na renda de algumas mulheres ligadas ao projeto.
Empreendedora passa de 25 mil para até 50 mil rúpias indianas mensais
Uma delas é Sulochana Mohanty, de 40 anos.
Antes de entrar no coletivo, ela já administrava uma pequena empresa de produtos descartáveis e tentava criar oportunidades de trabalho para outras mulheres.
Naquela época, segundo seu relato, ganhava aproximadamente 25 mil rúpias indianas por mês.
Depois de entrar na estrutura da Maheera e obter maior acesso ao mercado e demanda mais consistente, sua operação cresceu.
Hoje, Sulochana afirma ganhar entre 40 mil e 50 mil rúpias indianas por mês, enquanto o faturamento de seu negócio chegou a 5 milhões de rúpias indianas.
Além disso, ela emprega cerca de 30 mulheres. Em seu relato, afirma conseguir gerar trabalho para um grupo que varia de 30 a 40 mulheres.
Dona de casa começa com 2 cabras, chega a 15 e passa a ganhar mais de 25 mil rúpias indianas
Outra história dentro do coletivo é a de Chumina Patel, de 30 anos.
Durante anos, ela se dedicou às tarefas domésticas e aos filhos, sem renda independente.
Depois de entrar para a Maheera e participar de treinamentos apoiados por instituições agrícolas, Chumina começou com duas cabras recebidas por meio de uma iniciativa governamental.
Segundo seu relato, o rebanho chegou posteriormente a 15 animais.
Ao mesmo tempo, ela aprendeu a cultivar cogumelos utilizando a palha do arroz. Sua propriedade de dois acres também produz vegetais, enquanto resíduos da produção de cogumelos retornam ao terreno como composto orgânico.
Atualmente, Chumina afirma ganhar mais de 25 mil rúpias indianas por mês, sem ter precisado contratar empréstimo para começar.
Mulher que perdeu emprego na pandemia agora quer ampliar independência financeira das agricultoras
A transformação central da história aparece justamente na distância entre o ponto de partida e a operação atual.
Kumudini voltou para casa durante a pandemia depois de perder sua fonte de renda. Começou novamente com dois acres de vegetais e, posteriormente, tentou convencer outros agricultores a trabalhar coletivamente.
Hoje, a Maheera reúne 960 integrantes, movimenta mais de 10 milhões de rúpias indianas em faturamento anual e utiliza drones capazes de pulverizar um acre em aproximadamente 6 minutos.
Ainda assim, Kumudini diz que seu próximo objetivo não está limitado ao faturamento.
Ela pretende ampliar a independência econômica das mulheres ligadas ao coletivo, para que possam tomar decisões financeiras a partir da própria renda e do trabalho.
A tecnologia, nesse caso, tornou-se parte de uma transformação que começou de maneira muito mais simples: uma família perdeu o emprego, voltou para a terra e decidiu plantar vegetais para sobreviver.
Você acredita que drones agrícolas capazes de transformar um dia de pulverização em poucos minutos podem se popularizar entre pequenos produtores brasileiros ou o custo dos equipamentos ainda será a principal barreira?

