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Morangos duraram 9 dias em vez de 3 sob refrigeração numa caixa de papelão com carvacrol, composto do orégano, em teste da Embrapa com universidades

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 02/10/2026 às 14:16
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Bandeja de papelão ondulado estudada por pesquisadores brasileiros e franceses para conservar morangos.
Bandeja de papelão ondulado estudada por pesquisadores brasileiros e franceses para conservar morangos. Foto: Alefe Folha/Embrapa
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Pesquisadores do Brasil e da França colocaram o carvacrol no miolo do papelão ondulado e controlaram a velocidade com que ele chega à fruta. Veja como a caixa funciona, o que o teste mediu e o que ainda falta para ela chegar ao mercado.

Uma caixa de papelão ondulado com carvacrol, composto natural presente no orégano, fez morangos durarem três vezes mais. Sob refrigeração, a vida útil passou de três para nove dias. O resultado foi divulgado pela Embrapa em 28 de setembro de 2026.

A embalagem foi desenvolvida por cientistas da Embrapa Instrumentação e de quatro universidades. São elas a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Grenoble Alpes, na França, informa a Embrapa.

O estudo completo saiu em agosto na revista científica ACS Food Science & Technology. O artigo assinado por 12 pesquisadores descreve a caixa como um protótipo, e a Embrapa trata o experimento como uma prova de conceito.

Como o carvacrol foi parar dentro do papelão

O papelão ondulado comum tem três partes: duas folhas lisas, chamadas de capas, e uma folha ondulada no meio, o miolo. As ondas do miolo dão rigidez à caixa e criam pequenos canais de ar.

Detalhe da bandeja, com a borda que mostra as ondas do miolo do papelão, a camada onde fica o carvacrol.
Detalhe da bandeja, com a borda que mostra as ondas do miolo do papelão, a camada onde fica o carvacrol. Foto: Alefe Folha/Embrapa
Morangos fotografados pela Embrapa Instrumentação na divulgação do estudo.
Morangos fotografados pela Embrapa Instrumentação na divulgação do estudo. Foto: Alefe Folha/Embrapa

Foi nesse miolo que os pesquisadores impregnaram o carvacrol, mostra o artigo científico. Em vez de borrifar o composto na fruta ou no filme plástico, a equipe transformou a camada do meio da caixa num reservatório.

Marcos David Ferreira, pesquisador da Embrapa Instrumentação, liderou o estudo de um ano. Ele explicou que o trabalho consistiu em combinar diferentes papéis de revestimento nas superfícies externa e interna da caixa, com o carvacrol na camada intermediária.

O resultado funciona como uma embalagem ativa, explica a Embrapa. Ou seja, uma embalagem que não só protege os morangos, mas também age sobre o ambiente em volta deles.

O segredo está na velocidade com que o composto sai

A novidade, de acordo com a Embrapa, não foi apenas usar o carvacrol. Foi também a forma de incorporá-lo ao papelão e de controlar a velocidade com que ele deixa a estrutura e chega ao ar em volta das frutas.

O carvacrol é volátil. Se escapa rápido demais, some antes de proteger os morangos. Se fica preso, não alcança a fruta.

A equipe testou três montagens de capas em volta do miolo com carvacrol. Eram só papel comum, só papel com barreira e uma combinação dos dois, segundo o artigo da ACS Food Science & Technology.

A liberação foi medida numa caixa simulada, a 23 °C e 50% de umidade relativa.

O papel com barreira funcionou como um freio. Na medição de 72 horas, ele reduziu a perda de carvacrol para a atmosfera de fora da caixa, segundo o estudo.

“As melhores configurações retardam a liberação o suficiente para permanecerem eficazes durante o armazenamento”, disse Ramon Peres Brexó, pós-doutorando da equipe de Ferreira. Ele disse que isso ajuda a atrasar a podridão fúngica e a preservar “as características essenciais de qualidade da fruta”.

O fungo que o papelão com carvacrol conseguiu segurar

O principal inimigo dos morangos na conservação é o fungo, explicou Ferreira. Um dos mais comuns é o Rhizopus stolonifer, que causa a podridão-mole.

Nos testes de laboratório, o papelão com carvacrol inibiu o crescimento desse fungo. A Embrapa informa que o efeito apareceu mesmo depois de 14 dias de armazenamento do material ao ar livre, em temperatura ambiente.

Os autores detalham as condições dessa prova no artigo. As amostras de papelão ficaram guardadas por 14 dias a 25 °C e 50% de umidade relativa. Mesmo assim, continuaram com atividade antifúngica, tanto com capas comuns quanto com capas de barreira.

Essa prova mediu o papelão sozinho, sem frutas, exposto ao ar a 25 °C. Os morangos foram guardados a cerca de 10 °C, por isso os dois números não se comparam.

Como foi o teste com 120 morangos

A embalagem com carvacrol foi avaliada em morangos da cultivar San Andreas, produzidos em Bom Repouso, em Minas Gerais, informa a Embrapa. Foram 120 frutos, acondicionados em bandejas de papelão ondulado ativo.

Os morangos ficaram armazenados durante nove dias a aproximadamente 10 °C. Ao longo do período, a equipe combinou análises microbiológicas e físico-químicas da fruta, registra a Embrapa.

Os itens medidos aparecem no resumo do estudo: cor, perda de peso, pH, acidez e teor de sólidos solúveis. Esse último é o indicador ligado ao açúcar da fruta.

Para ler tudo junto, os pesquisadores usaram uma análise estatística de agrupamento, que mostra como a qualidade evolui dia a dia.

O que mudou nos morangos guardados no papelão ativo

As frutas da embalagem com carvacrol mantiveram melhor a cor vermelha viva, a firmeza da polpa, a acidez e os sólidos solúveis, relata a Embrapa. Na prática, o envelhecimento natural do tecido da fruta ficou mais lento dentro do papelão ondulado com carvacrol.

Cor e firmeza da fruta estavam entre os itens medidos no teste de nove dias.
Cor e firmeza da fruta estavam entre os itens medidos no teste de nove dias. Foto: Alefe Folha/Embrapa

A melhor montagem combina papel comum e papel com barreira, segundo o artigo da ACS Food Science & Technology. Ela se mostrou eficaz para prolongar a vida útil dos morangos.

A principal conclusão, resume a Embrapa, é que a estrutura do revestimento determina por quanto tempo o efeito antimicrobiano dura.

De três para nove dias, são seis dias a mais sob refrigeração, um ganho de 200% sobre o tempo original.

Por que o morango estraga tão rápido

O morango está entre as frutas mais sensíveis depois da colheita. Segundo a Embrapa, isso acontece porque ele é consumido in natura e tem alta perecibilidade.

“A elevada atividade metabólica, a sensibilidade a danos durante o transporte e, principalmente, o desenvolvimento de fungos contribuem para reduzir sua vida útil. Esse processo representa um desafio para a cadeia de produção e distribuição e pode aumentar o desperdício de alimentos”, disse Ferreira.

A divulgação da Embrapa saiu na véspera de uma data da ONU. O Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos é celebrado em 29 de setembro e foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2019, lembra a instituição.

A pressão da Europa contra embalagens plásticas

O estudo chega num momento de mudança de regra no comércio de frutas.

Na União Europeia, novas normas para embalagens estão em vigor desde agosto de 2026, segundo a Embrapa. Elas vêm do Regulamento relativo a Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR, na sigla em inglês).

A medida prevê a eliminação gradual das embalagens plásticas para hortifrútis, com o objetivo de reduzir a geração de resíduos, informa a Embrapa.

No Brasil, ainda não existe regulamentação desse tipo. A instituição lembra, porém, que quem exporta precisa seguir as regras do país importador, e que a tendência deve se espalhar para outros mercados.

O papelão ondulado da pesquisa é feito de material celulósico, biodegradável e reciclável, destaca a Embrapa. Por isso, aparece como alternativa à embalagem plástica para alguns produtos.

O que falta para a caixa com carvacrol chegar ao mercado

Por enquanto, trata-se de um protótipo de pesquisa. A própria Embrapa classifica o experimento com morangos como uma prova de conceito.

Segundo a Embrapa, o resultado abre caminho para que produtores e distribuidoras de frutas e hortaliças reduzam o desperdício ao longo da cadeia logística.

A próxima etapa anunciada pela Embrapa é de laboratório. A ideia é aprofundar os estudos sobre a liberação e a difusão do carvacrol no material, para aprimorar a tecnologia.

O teste também tem limites. Foi feito com uma única cultivar de morango, de uma única região produtora, em uma temperatura de armazenamento e por nove dias.

Quem financiou a pesquisa

O trabalho teve apoio da Cellulose Valley Chair, da Grenoble INP Foundation, na França, e do Institut Carnot PolyNat, informa a Embrapa.

Do lado brasileiro, a pesquisa contou com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Também apoiaram a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A versão completa do estudo saiu em 19 de agosto de 2026, conforme o registro da revista. Está no volume 6, número 9, da ACS Food Science & Technology.

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