O morador de Bom Jesus vai ver uma usina de um vírgula oito megawatt virar onze vírgula setenta e cinco no Rio Chapecozinho, numa obra de sessenta milhões de reais que multiplica a geração por seis vezes e meia, mas que só termina em dezembro de dois mil e trinta.
O investimento foi anunciado em 4 de setembro pela Âmbar Energia, braço de geração do grupo J&F.
O alvo é a PCH Salto do Passo Velho, pequena central hidrelétrica instalada no Rio Chapecozinho, no oeste de Santa Catarina.
A obra é de modernização e ampliação, e não de construção nova.
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Essa diferença é o ponto de partida para entender o investimento, porque muda tudo em custo, licença e prazo.

De 1,8 para 11,75 megawatts é praticamente outra usina
O salto de capacidade instalada é o dado central do anúncio.
A potência passa de 1,8 MW para 11,75 MW, aumento de 6,5 vezes sobre a geração atual, conforme a companhia.
Em termos práticos, uma central desse porte deixa de ser um ativo marginal e passa a ter relevância no sistema regional.
Uma usina de 1,8 MW atende pouco mais que um punhado de propriedades e alguma indústria pequena. Com 11,75 MW, ela passa a pesar no atendimento de um município inteiro do porte de Bom Jesus.
Por que repotenciar sai mais barato do que construir do zero
Aqui está a lógica econômica que explica o investimento.
A barragem já existe, o reservatório já está formado, a licença ambiental já foi obtida e a conexão com a rede já está feita. O que se troca é o equipamento: turbina, gerador, comporta e sistema de controle.
Por isso a repotenciação costuma entregar megawatt novo por um custo por unidade menor do que um projeto greenfield, e com um caminho de licenciamento muito mais curto.
É energia nova sem alagar área nova.
Por isso a repotenciação virou tema recorrente no setor elétrico brasileiro. Há um parque antigo de pequenas centrais instaladas há décadas, operando com equipamento defasado e muito abaixo do que o mesmo curso d’água comporta.
O prazo até dezembro de 2030 é o dado incômodo
A conclusão das obras está prevista para dezembro de 2030.
São mais de quatro anos entre o anúncio e a entrega, num projeto que não envolve desapropriação em massa nem obra civil de grande porte.
Prazos assim costumam refletir a fila de fabricação de equipamento e a janela hidrológica: obra em leito de rio depende de período de vazão baixa para avançar em segurança.
Turbina e gerador sob medida não saem de prateleira. São encomendas com anos de espera, e o oeste catarinense, além disso, tem regime de chuva que fecha a janela de obra por meses seguidos.

O oeste catarinense é um corredor de PCHs
A região onde fica a usina concentra dezenas de pequenas centrais aproveitando o desnível dos rios que descem o planalto.
O Chapecozinho é afluente do Rio Chapecó, numa bacia que já sustenta geração distribuída em pequena escala há décadas, muitas vezes ao lado de propriedades rurais e de agroindústria.
É um tipo de geração que não aparece em manchete nacional, contudo sustenta a rede local com previsibilidade que solar e eólica não entregam sozinhas.
A pequena central gera de noite, gera com céu nublado e gera sem vento. Em compensação, ela depende da chuva, e é aí que a diversificação da matriz deixa de ser discurso e vira operação.
A Âmbar vem comprando espaço no setor elétrico
O investimento não é isolado. O braço de geração do grupo J&F vem ampliando presença em várias frentes ao mesmo tempo.
A empresa avançou sobre termelétricas, entrou no capital da Eletronuclear e assumiu operação de distribuição no Norte, movimento que a coloca disputando o posto de maior geradora privada do país.
Nesse contexto, R$ 60 milhões numa PCH é aporte pequeno, quase de ajuste fino de portfólio.
Para efeito de comparação, a mesma empresa anunciou R$ 5,5 bilhões até 2031 na rede elétrica do Amazonas, quase cem vezes o valor desta obra.
O que o anúncio não detalha
Não há informação sobre quantos empregos a obra gera, nem sobre quantos ficam na operação depois da entrega.
Também não foi divulgado se a energia adicional será destinada ao mercado livre ou ao regulado, dado que muda bastante o retorno esperado do investimento.
O cronograma intermediário, com as etapas até 2030, igualmente não apareceu nas fontes consultadas.
O que muda para quem mora perto
No curto prazo, obra em canteiro significa movimento de caminhão, contratação temporária e alguma interferência no acesso à área da usina.
No longo prazo, o município passa a abrigar um ativo maior, o que costuma se refletir em arrecadação e em compensação financeira pelo uso de recursos hídricos.
Quem já mora perto de PCH sabe que o efeito local é discreto, e é justamente essa discrição que torna esse tipo de projeto menos conflituoso do que uma grande hidrelétrica.
Para o sistema elétrico, o ganho é modesto em números absolutos e relevante em qualidade. Quase dez megawatts a mais entram já conectados, sem exigir linha de transmissão nova nem estudo de conexão do zero.
Numa matriz que vem incorporando muita geração intermitente, esse tipo de reforço firme, previsível e próximo do consumo é justamente o que o operador nacional costuma pedir.
O anúncio do investimento e os números de capacidade estão na publicação do Times Brasil, com detalhamento também no portal MegaWhat.
O que você acha: repotenciar usina velha resolve mais do que construir hidrelétrica nova no Brasil?
