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Filho de mecânico de caminhão e de costureira, criado na Cidade Tiradentes e sem ninguém com diploma em casa, Douglas Amorim, 29, passou na USP em 2014 e agora embarca para Chicago com bolsa de MBA em inteligência artificial, e a mãe, que parou na 4ª série na Bahia, voltou a estudar inspirada nele

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 05/09/2026 às 12:15 Atualizado em 05/09/2026 às 12:16
Douglas Amorim, de 29 anos, criado na Cidade Tiradentes, entrou na USP em 2014, único da turma de 100 vindo só de escola pública, e vai a Chicago com bolsa de MBA em IA. A mãe voltou a estudar.
Douglas Amorim, de 29 anos, criado na Cidade Tiradentes, entrou na USP em 2014, único da turma de 100 vindo só de escola pública, e vai a Chicago com bolsa de MBA em IA. A mãe voltou a estudar.
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Douglas Amorim, criado na Cidade Tiradentes e formado em escola pública, entrou em Ciência da Computação na USP de São Carlos em 2014, único da turma de 100 nessa condição, fez mestrado e vai a Chicago como bolsista de MBA em inteligência artificial. A mãe concluiu EJA e curso técnico

Douglas Amorim, de 29 anos, cresceu na Cidade Tiradentes, periferia do extremo leste de São Paulo, estudou a vida inteira em escola pública e foi o primeiro da família a cogitar entrar na universidade. Filho de um mecânico de caminhões e de uma ex-costureira, hoje dona de casa, ele se formou em Ciências da Computação na USP, fez mestrado na mesma universidade e está de mudança para Chicago, nos Estados Unidos, onde será bolsista em um MBA em inteligência artificial.

As informações foram publicadas pelo g1 em 4 de setembro de 2026, em reportagem de Luiza Tenente, dentro da série dos 20 anos do portal, com relatos do próprio Douglas e da estudante Ellen Menezes, também a primeira da família a chegar ao ensino superior.

Pai perguntou “quanto custava” a USP: a falta de informação na periferia

Douglas Amorim, de 29 anos, criado na Cidade Tiradentes, entrou na USP em 2014, único da turma de 100 vindo só de escola pública, e vai a Chicago com bolsa de MBA em IA. A mãe voltou a estudar.
Douglas Amorim, de 29 anos, criado na Cidade Tiradentes, entrou na USP em 2014, único da turma de 100 vindo só de escola pública, e vai a Chicago com bolsa de MBA em IA. A mãe voltou a estudar.

“No segundo ano do ensino médio, quando comentei com meu pai que queria prestar vestibular para a USP, ele me perguntou quanto custava. Ele sempre morou em São Paulo, mas sequer sabia que existia uma universidade pública e gratuita”, conta Douglas.

“Quando você é da periferia ou da primeira geração a ter chance de estudar, às vezes te falta até o acesso à informação”, resume ele. Na casa da família, ninguém tinha diploma, e a existência de uma universidade gratuita era desconhecida.

Escola técnica em Guaianases e curso de informática na ETEC de Itaquera

Douglas cursou o ensino médio em uma escola técnica de Guaianases, onde descobriu o interesse por tecnologia. Em paralelo, fez o curso técnico de informática na ETEC de Itaquera.

A formação técnica na zona leste foi o primeiro contato dele com a área que viraria carreira, antes de qualquer preparação específica para o vestibular.

Para tentar passar no vestibular, Douglas se matriculou no cursinho popular Mafalda, com aulas aos sábados.

Ele também participou do cursinho preparatório da própria pró-reitoria da USP, iniciativa voltada a alunos de escolas públicas que se destacavam na Fuvest como treineiros. O programa oferecia bolsa de R$ 300, vale-transporte e alimentação.

2014: aprovado em Ciência da Computação na USP de São Carlos

Em 2014, assim que terminou a educação básica, Douglas foi aprovado em Ciência da Computação na USP de São Carlos.

A aprovação veio direto, sem intervalo entre o fim do ensino médio e a entrada na universidade, resultado da combinação entre a escola técnica, o cursinho popular e o preparatório da USP.

Único da turma de 100 vindo inteiro da escola pública e direto

Na turma de 100 alunos, Douglas era o único que havia cursado todo o ensino fundamental e médio em escola pública e ingressado direto na universidade.

O dado, relatado por ele ao g1, mostra o tamanho da exceção que a trajetória representava dentro da própria sala de aula. Os outros 99 colegas tinham passado por escola particular em alguma etapa, ou não haviam entrado direto.

Alojamento e restaurante universitário gratuitos foram decisivos

A permanência estudantil, com alojamento e restaurante universitário gratuitos, foi decisiva para que Douglas pudesse concluir a graduação, segundo ele.

Entrar na USP era uma etapa; ficar até o fim era outra. Para um estudante da Cidade Tiradentes morando em São Carlos, moradia e alimentação sem custo sustentaram os anos de curso.

Sem diploma em casa, mas com desafios de lógica do pai e cursos buscados pela mãe

Ninguém na casa de Douglas tinha diploma, mas isso não impediu que o ambiente fosse estimulante na infância. O pai, mecânico de caminhões, passava desafios simples de lógica e matemática ao filho.

A mãe ia atrás de oportunidades de cursos gratuitos, e foi ela quem o inscreveu no curso de espanhol. De alguma forma, mesmo sem informação sobre o ensino superior, a família queria que ele chegasse a essa etapa, conforme o g1.

Mestrado na USP e bolsa de MBA em inteligência artificial em Chicago

Depois de se formar, Douglas fez mestrado na própria USP. Agora, está nos preparativos finais para mais um salto.

Em breve, ele se muda para Chicago, nos Estados Unidos, onde será bolsista em um MBA em inteligência artificial. A reportagem não informa o nome da instituição nem a duração do programa.

Mãe parou na 4ª série no sertão da Bahia e voltou pelo EJA

A trajetória de Douglas gerou um “efeito em cadeia” na família. A mãe dele, que havia cursado apenas até a 4ª série do ensino fundamental (atual 5º ano), no sertão da Bahia, tomou coragem para voltar às salas de aula ao ver a dedicação do filho.

Primeiro, ela terminou o ensino fundamental e o médio pelo Ensino de Jovens e Adultos (EJA). A ex-costureira retomou os estudos décadas depois de tê-los interrompido.

Na pandemia, vestibulinho da ETEC e curso técnico em administração

Anos mais tarde, durante a pandemia, a mãe de Douglas concretizou um sonho antigo: fez o vestibulinho da ETEC e concluiu um curso técnico em administração.

O caminho dela repetiu, em outra idade, o do filho, que também passou pela ETEC no ensino médio. “Minha mãe realizou um sonho”, diz Douglas.

“Foi um ciclo de ajuda mútua”

“Para mim, a educação é o principal caminho para transformar uma realidade. E ver a minha família vivendo essa transformação junto comigo é o que dá sentido a tudo”, afirma Douglas.

“Foi um ciclo de ajuda mútua: ela me apoiou quando eu era pequeno e eu consegui apoiá-la depois”, conta ele sobre a mãe.

Ellen Menezes, 25, primeira da família na Unicamp, quer o “chão da escola pública”

A história de Douglas se conecta com a de Ellen Menezes, de 25 anos, no último ano de Pedagogia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Filha de pais vindos da Bahia com o ensino fundamental incompleto, a mãe vende milho e pamonha e o pai é motorista de aplicativo, ela também é a primeira do núcleo familiar a chegar ao ensino superior. “Quando passei na universidade pública, minha mãe chorou de emoção”, diz.

Aprovada inicialmente em Ciências Sociais, Ellen prestou o vestibular de novo ao perceber que queria atuar na educação infantil, e entrou pelo sistema de cotas étnico-raciais. O plano é prestar concurso para lecionar na rede pública, conciliando com mestrado e doutorado. “Existe uma desvalorização muito grande da carreira docente, especialmente na educação infantil, como se fosse um trabalho apenas de cuidado e não de ensino. Mas estar no chão da escola pública é onde quero estar”, afirma.

Mudança para Chicago está nos preparativos finais

Quando a reportagem foi publicada, em 4 de setembro de 2026, Douglas Amorim estava nos preparativos finais para se mudar para Chicago, com a bolsa do MBA em inteligência artificial já garantida. A mãe dele já havia concluído o EJA e o curso técnico em administração na ETEC.

O g1 não informa a data exata do embarque nem o que Douglas pretende fazer após o MBA. O registro é o de um percurso que começou com um pai perguntando quanto custava a USP e chega a uma bolsa nos Estados Unidos doze anos depois da aprovação em São Carlos.

Na sua opinião, o que mais pesou na trajetória de Douglas Amorim: a permanência estudantil gratuita na USP, os cursinhos populares e preparatórios, ou o estímulo dos pais mesmo sem diploma em casa? Deixe sua opinião nos comentários.

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