Água com agrotóxicos apareceu em 155 dos 295 municípios analisados entre 2018 e 2023, em estudo de cinco anos do Programa Alimento Sem Risco. O MPSC encontrou 42 resíduos ativos, incluindo cinco banidos, e diz que, mesmo dentro dos parâmetros, a exposição crônica pode acumular efeitos e cobrar ação.
A água com agrotóxicos entrou no radar em Santa Catarina depois que um estudo encomendado pelo MPSC mostrou resíduos químicos na água potável de 52% dos municípios catarinenses, com 42 substâncias detectadas e cinco com uso proibido no Brasil, segundo o levantamento apresentado na quarta-feira (28).
O dado central é duplo: de um lado, a água distribuída pela rede de abastecimento ficou abaixo dos parâmetros nacionais de potabilidade e, por isso, não foi considerada imprópria para consumo; de outro, o MPSC acendeu um alerta para a exposição crônica e para o risco de efeitos cumulativos ao longo do tempo.
O que o estudo do MPSC encontrou na água potável de Santa Catarina
O levantamento concluiu que 155 municípios, de um total de 295 existentes no estado, apresentaram resíduos de agrotóxicos na água potável analisada, o que equivale a 52% das cidades catarinenses com algum tipo de detecção.
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No total, 42 resíduos ativos foram identificados nas amostras. Dentro desse conjunto, o estudo apontou cinco substâncias com uso proibido no Brasil, um dado que elevou o nível de preocupação porque indica presença de ingredientes ativos banidos mesmo com regras e controles sanitários vigentes.
Os resultados também reforçaram uma leitura mais ampla do problema: a contaminação não fica restrita à água. O próprio estudo indica que a poluição alcança solo, ar e recursos hídricos, sugerindo um ambiente exposto antes mesmo de a água chegar ao consumidor.
Como a pesquisa foi feita e por que ela levou cinco anos
A coleta e análise ocorreram entre 2018 e 2023, dentro do Programa Alimento Sem Risco, iniciativa do MPSC voltada ao monitoramento e ao combate ao uso indiscriminado de agrotóxicos.
As análises foram realizadas em laboratórios credenciados, com coletas feitas na água tratada que abastece todos os municípios do estado.
O desenho do estudo incluiu abastecimento a partir de mananciais superficiais e subterrâneos, o que amplia o retrato do que chega às torneiras em diferentes realidades locais.
O objetivo foi detalhado em três frentes: identificar quais substâncias aparecem, em quais concentrações, e comparar os achados com os limites definidos pela legislação brasileira. O estudo concluiu que, embora os níveis detectados tenham permanecido dentro do permitido, isso não elimina a preocupação com o efeito acumulado.
“É segura agora, mas e a longo prazo?”: a divergência entre risco imediato e risco crônico
A promotora de Justiça Aline Restel Trennepohl afirmou que, apesar da presença de resíduos, a água distribuída pela rede de abastecimento em Santa Catarina é segura ao consumo e não oferece risco imediato ao consumidor.
Segundo ela, os processos de tratamento garantem proteção contra contaminantes perigosos, como bactérias e parasitas, reforçando que a potabilidade foi mantida nos parâmetros nacionais.
Ao mesmo tempo, o MPSC chamou atenção para um ponto que costuma passar despercebido na rotina de quem abre a torneira: o risco crônico. A instituição destaca que, mesmo com concentrações dentro do limite legal, o contato sucessivo por ar, pele ou ingestão pode gerar efeitos cumulativos.
O estudo menciona que pesquisas científicas associam a exposição contínua a riscos aumentados, a longo prazo, para doenças como linfoma não Hodgkin, câncer de estômago, câncer de próstata e câncer de tireoide, além de possíveis alterações endócrinas e neurológicas.
A mensagem central do MPSC é que o problema não é apenas a presença pontual, mas a repetição ao longo do tempo.
A água como “última matriz”: por que o MPSC diz que o ambiente inteiro já foi impactado
Em uma reunião com a Secretaria de Estado da Saúde, a equipe técnica avaliou que a água é a última matriz por onde o agrotóxico vai passar.
Na prática, isso significa que, antes de aparecer na rede de abastecimento, o resíduo já circulou e se depositou em outros meios.
A promotora Aline explicou que, se o resíduo chega à água, isso sugere um caminho anterior de exposição: primeiro o ar e o solo, depois os corpos d’água, até alcançar o consumo humano.
Essa leitura amplia o foco do debate, porque desloca a discussão de um ponto isolado para a ideia de um ambiente poluído.
Regiões de SC com maior presença e como os números variam pelo estado
O estudo mostrou diferenças claras por região, com percentuais que mudam bastante conforme a área analisada.
No Oeste, 63 dos 118 municípios apresentaram ao menos um ingrediente ativo.
No Norte, foram 11 de 26 municípios, o equivalente a 42,3%.
Na Serra, 10 de 30 municípios, ou 33,3%.
Na Grande Florianópolis, 12 de 21 municípios, chegando a 57,1%.
No Sul, o índice foi o mais alto do recorte regional: 35 de 46 municípios, ou 76,1%.
No Vale do Itajaí, 24 de 54 municípios, totalizando 44,4%.
Esse mapa regional mostra que a presença de resíduos não é um evento localizado em um único polo, mas um fenômeno distribuído, com áreas mais críticas e outras com menor incidência.
Vale do Itajaí no centro do alerta: o que aconteceu em Imbuia e Ituporanga
O diagnóstico apontou o Vale do Itajaí como uma das regiões mais críticas. Em muitos municípios, a presença registrada foi de um, dois ou três ingredientes ativos, mas alguns casos se destacaram pelo volume e pela combinação de substâncias ao mesmo tempo.
Em Imbuia, foram identificados 17 tipos diferentes de resíduos de agrotóxicos. O recorte mais sensível é que o estudo apontou dois ingredientes ativos proibidos no Brasil desde 2019, mas encontrados em amostras de 2022 e 2023. Além disso, em Imbuia foi detectado um fungicida em concentração superior a 12 microgramas por litro (µg/L), um patamar descrito como elevado por especialistas.
Já em Ituporanga, o dado chama ainda mais atenção pela simultaneidade: 23 ingredientes ativos presentes ao mesmo tempo. O relatório também registrou nove substâncias acima de 1,000 micrograma por litro (µg/L) e a presença de resíduos de fungicidas banidos no país.
Além de Imbuia e Ituporanga, o estudo apontou ocorrência de agrotóxicos proibidos em Balneário Camboriú, Rancho Queimado, Canelinha, Itaiópolis e São João do Sul, ampliando a lista de cidades onde o problema ultrapassa a simples detecção de resíduos permitidos.
O que o MPSC pretende fazer e por que a cobrança pode chegar a Brasília
Com base nos resultados, o MPSC afirmou que pretende atuar de forma articulada em duas frentes.
No plano regional, a proposta é criar grupos de trabalho e sugerir a instauração de procedimentos administrativos nas promotorias regionais, um movimento voltado a acompanhar a situação mais de perto e pressionar por medidas locais.
No plano nacional, o objetivo é sensibilizar o Ministério da Saúde para revisar os limites aceitáveis de resíduos químicos na água potável.
A lógica é direta: se a discussão já envolve exposição crônica, o debate sobre limites legais e sobre a fiscalização passa a ser tratado como um tema de saúde pública de longo prazo.
No fim, a pergunta que fica para quem vive em Santa Catarina é simples e incômoda: com tantos registros de água com agrotóxicos, você confia que os limites atuais e a fiscalização dão conta do risco crônico mesmo quando a contaminação não aparece a olho nu?

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